ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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A BOA E A MÁ DECOREBA


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Publicado em 06/08/2009 no Jornal Gazeta do Povo (Curitiba)
Está na pauta dos educadores e de nossos governantes a discussão sobre o fim da “decoreba”. Acreditam que é urgente fomentar nas escolas brasileiras uma aprendizagem mais lúdica e sem esforço, onde a autonomia e a espontaneidade da criança sejam as diretrizes do novo ambiente escolar para uma efetiva aprendizagem significativa.
Concordo plenamente com esta postura pedagógica. Penso, porém, ser preciso frisar que o sentido depreciativo da palavra decoreba — ação ou resultado de memorizar, sem o cuidado de compreender ou entender aquilo de que se estudou — poderá confundir o estudante com a mentira de que decorar é um mal. Isto é, de que seria possível eliminar o esforço necessário para um adequado desenvolvimento do processo de aprendizagem, durante as suas três fases. Segundo a educadora Judith Sucupira Lins a aquisição do conhecimento, a retenção do mesmo na memória e a subsequente generalização para raciocínios futuros são fases necessárias para alcançar o conhecimento. Acredito que qualquer um que tenha galgado patamares acadêmicos mais elevados poderá comprovar que a “boa decorada” é fundamental para diversos objetivos: raciocinar mais rapidamente na solução dos problemas da escola e da vida; ajudar a fixar paradigmas e conceitos bem enraizados que facilitarão o encaminhamento de diversos assuntos; auxiliar na aprendizagem de diversas linguagens (línguas estrangeiras, música, literatura, artes, etc.); ser mais ordenado e rigoroso na escrita e na fala; possuir capacidade inventiva e criativa; e, por fim, potencializar a cultura, necessária para saborear os enormes encantos desta vida terrena.
É preciso esclarecer, portanto, a educadores e educandos, que este movimento educacional do atual governo, visando acabar em médio prazo, por exemplo, com o vestibular tradicional, privilegiando provas analíticas como a do ENEM, é positivo. Está sinalizando que a educação passa por um período delicado de transição e que exige atualização. Que a antiga escola tradicional, com um corpo docente preparado apenas para dar aulas de “cuspe e giz”, está com os seus dias contados. Que os cursos pré-vestibulares irão perder também muita clientela, ao não mais conseguirem, por carência de tempo, “adestrar” alunos para realizarem provas que exigem hoje muito mais trabalhar a informação do que manipulá-la em fórmulas ou técnicas de escrita. Que quem não despertar a tempo para o momento educativo nascente, ficará sem dúvida para trás. Mas, afinal, que novo tempo é este?
Até ao final da década de 80, a aquisição da informação era cara, trabalhosa e lenta. Com a revolução tecnológica da comunicação e da informação globalizadas dos anos 90, os jovens estudantes, desde a mais tenra idade, têm acesso às mais diversas fontes da informação, mudando completamente as fases do processo de aprendizagem. Por um lado, a aquisição do conhecimento se tornou mais barata, prazerosa e ultrarrápida. Por outro, a retenção desse conhecimento na memória, que antes dependia do esforço e do estudo, agora pode ser em parte substituída por diversos recursos tecnológicos de armazenamento de informação. Mas boa parte da memorização continua dependendo dos hábitos de estudo e da reflexão. A correta harmonia e distinção desta nova dinâmica é o grande desafio do ensino-aprendizagem, o que depende de vários fatores: a facilidade dos professores e alunos para usarem e terem acesso às novas tecnologias, o que varia muito de pessoa para pessoa; a capacidade intelectual e mnemônica de cada estudante, já que as capacidades são diferentes; a coragem do professor para se lançar a novas metodologias de ensino, didática e avaliação, perdendo um pouco a tranquilidade e a segurança dos métodos tradicionais; e a necessidade de uma educação cada vez mais personalizada e diferenciada, respeitando os diversos ritmos e caminhos de aprendizagem.
É preciso, entretanto, que toda a comunidade escolar tenha consciência dos grandes perigos e riscos destas novas tendências e não caia em ilusões educacionais. A primeira, é acreditar que acabar com a dita decoreba será mais fácil o ensino-aprendizagem. Quem é professor tem experiência de que os alunos costumam ter o famoso “deu branco” diante de questões que exijam relacionar, comparar, deduzir, criar, provar determinados fenômenos, sejam eles históricos, físicos ou matemáticos. Nesse sentido, os futuros professores precisarão ser muito mais bem preparados e alinhar-se rapidamente às novas realidades, o que parece irá demorar ainda muitos anos no Brasil. Para quem é aluno, é fundamental não desprezar os limites dos diversos campos das ciências (história, geografia, física, etc.), pois só quando esses estão bem assentes na inteligência, será possível passar para a interdisciplinaridade, exigência dos novos tempos. Caso contrário, o empobrecimento e a confusão intelectual serão uma realidade no desenvolvimento escolar.
Um segundo aspecto que costuma iludir os alunos é acreditar que a facilidade de acesso à informação já lhes garante o conhecimento. É necessário alertá-los que o excesso de informação nunca chegará a ser verdadeira cultura se não houver um trabalho interior de assimilação e ponderação. Por isso, já afirmava Alejandro Llano que “as relações eletrônicas têm uma índole fundamentalmente técnica, enquanto que as relações comunitárias ou familiares são basicamente humanas. E as relações humanas são necessárias, por muito que avance a técnica. O crescimento da comunicação eletrônica globalizada deve ser acompanhado por um desenvolvimento equivalente da comunicação pessoal, por um cultivo das humanidades”. Esta análise muito aguçada do filósofo espanhol pode nos ajudar a entender o porquê das pessoas atualmente buscarem se comunicar, mas sem ter o quê comunicar. E continua o filósofo: “Quem recebe uma informação abundante e imediata, com velocidade e urgência, é quem mais precisa do critério para selecionar qual a informação relevante e qual a supérflua. Por isso, ao invés de passar horas no celular ou ligado nos e-mails, o estudante precisa muito de ler os clássicos para construir esse critério”. Corroboro o autor: só com o conhecimento técnico, facilmente se cai no superficialismo ou no indiferentismo na busca da verdade que realiza.
Em 2001, o relatório realizado pela OCDE — Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico —, apontava seis cenários possíveis para a escola do amanhã: 1) umas manteriam seu status quo, com os sistemas de ensino burocráticos; 2) outras estariam no centro da coletividade, suprindo a ausência da família; 3) umas buscariam centrar-se na aprendizagem, muitas com novas tecnologias; 4) outras tornar-se-iam mero comércio, com tendências de educação à distância; 5) umas seriam assumidas por famílias e comunidades que procuram preservar seus valores; 6) outras sofreriam o êxodo dos professores e a desintegração do sistema por falta de motivação e condições ambientais.
Já passados quase nove anos desse relatório, se analisarmos o ensino privado das grandes capitais brasileiras, poderemos constatar com pesar que o quarto cenário é o que predomina nos dias atuais. Se observarmos o ensino público, apontaremos para o segundo cenário, com triste tendência para o sexto cenário. É possível prever, portanto, que quem não reagir e lutar pelos cenários três ou cinco, os únicos que permitem a “boa decoreba”, dificilmente sobreviverá a um futuro cada vez mais concorrido e exigente.

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