ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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Como Escolher a Escola para os nossos Filhos


Entrevista concedida ao BLOG Negócios de Família
(www.negociosdefamília.com,br)
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1 - Que tipo de escola é ideal para uma criança?

A escola ideal para uma criança é aquela que saiba conjugar duas forças complementares: 
as características temperamentais, psicológicas e físicas da criança com o ideal de educação que a família pretende dar para ela. Não é conveniente colocar uma criança num colégio forte, exigente, que cobra bastante, que estimula a competição se ela é muito ansiosa, preocupada com a sua imagem, tem dificuldades em assimilar habitualmente os conteúdos, não gosta de estudar, etc. Essa criança poderá sofrer um stress precoce — que lhe fará muito mal — e aumentar muito a sua baixa estima. Muitas vezes a baixa estima — fato muito comum nas crianças atuais — nasce dos pais colocarem altas expectativas nos sucessos escolares do seu filho e ele não ser dos mais capacitados. É melhor, para estes casos, buscar uma escola que, devendo ser também exigente, não prima tanto pela competição escolar. O segundo aspecto é procurar aquele estabelecimento de ensino que sintonize com os valores da família. A pior coisa do mundo é a criança ser educada num clima de incoerência: ela ficará insegura no início e depois “instintiva” na adolescência. É fundamental para um perfeito desenvolvimento da personalidade da criança que os pais tenham uma base ideológica humana e espiritual que vá se integrando perfeitamente com a escola. Ambas têm que fazer um trabalho conjunto. Caso contrário, pode acontecer, por exemplo, que a família fale para o filho que é muito importante rezar antes de dormir e a escola diga que rezar é “careta”! É muito importante que a família antes de matricular o seu filho numa escola decida se vai querer uma escola religiosa ou leiga, de só de meninos ou mista, com atividades extracurriculares ou não, se bilíngüe ou normal, para depois se preocupar com os demais aspectos internos da escola.

2 - Que tipo de valores e exigências devem ser observados na escolha?

Além de examinar se existe sintonia da escola com os valores da família, que falamos anteriormente, fundamentados em princípios, convicções e regras que a família acredita levarem a uma perfeita realização humana e espiritual, que devem ser definidos em qualquer família que se forma — 
chamado por mim projeto de educação familiar — deve haver a busca por um ensino de qualidade. Cada vez mais, devido aos seus altos custos, o investimento educacional exige um retorno convincente. É mais do que sabido que o sucesso profissional está cada vez mais atrelado às reais competências e habilidades que a criança adquire nos primeiros anos de escolaridade. O mercado competitivo e com cada vez menos empregos, está exigindo pessoas diferentes e com um preparo diferenciado. Por isso, deixar a criança numa escola fraca, onde não exige (e nos exige) um acompanhamento diário dos seus estudos, onde tudo é alegria, esportes, festinhas, teatros, apresentações musicais, enfim, tudo muito lúdico, simplesmente estamos nos enganando e enganando o próprio filho. Mais tarde pagaremos a “conta” por esta ilusão.
Apesar de estar de moda este modelo de educação lúdica, onde o professor deve ser apenas um “orientador”, que somente estimula a criatividade da criança, que não deve haver conteúdos específicos, horários, salas de aula, etc., mas uma grande interdisciplinaridade, eu acredito que os seus frutos já nos podem ajudar a concluir que é preciso ir mais além. 
É preciso conjugar ensino lúdico com exigência, buscando cada vez mais a individualização no ensino-aprendizagem, isto é, buscar a riqueza e a potencialidade individual de cada aluno. Tem uns que podem render mais em certos aspectos que outros, como em matérias de exatas, então há que puxá-los para cima nessas áreas. Existem outros que têm habilidades artísticas: então é preciso dar-lhes oportunidades de mostrarem seus dons e talentos e serem avaliados convenientemente. Mas tudo, sempre com muita exigência, esforço e com alto grau de profissionalismo. A motivação escolar — fator muito preocupante, hoje em dia, em qualquer professor de sala de aula — está muito relacionada com a alta estima que é fomentada, não só por metas e sucessos - muitas vezes não alcançados — mas pelo estímulo no desenvolvimento desses dons e talentos individuais da criança.

3 - A que detalhes os pais devem ficar atentos?

Acredito que a primeira grande preocupação que os pais devem examinar ao escolher uma escola 
é verificar se existe e qual é o seu Projeto Político Pedagógico. Quais são os conteúdos ensinados? Qual é a metodologia empregada? Como é administrada a disciplina dentro e fora de sala? Quais são os métodos de avaliação? Responder a estas questões, procurando saber se de fato é político, isto é, se existe uma participação da comunidade escolar, da família, procurando chegar a alguns consensos em questões opináveis, etc. estaremos com condições de saber se o nosso filho está entrando por caminhos de ensino de qualidade, em todos os seus aspectos. Depois, verificar como é composto e formado — antes, durante e depois — o corpo docente. Infelizmente, muitas vezes, por as escolas terem que reduzir seus custos são obrigadas ou a manter financeiramente professores em patamares pouco motivantes ou então a contratar outros que não apresentam o melhor histórico escolar. Infelizmente, é uma pena que a grande maioria dos pais, nos dias atuais, descarreguem a educação de seus filhos totalmente na escola e não se preocupem em saber quem está “alimentando” ou “envenenando” seus “pimpolhos”… Depois, é importantíssimo que se “capte” o clima organizacional e ambiental da escola. Verificar se as crianças estão felizes, estão soltas, se sentem na sua segunda casa ou se, pelo contrário, existe um clima tenso, desanimado, briguento, desleixado, etc. É muito elucidativo observar os murais de avisos e dos trabalhos, conhecer a biblioteca — tanta na sua quantidade como na sua qualidade — os folhetos e impressos da secretaria, etc., pois a forma como tudo isso é apresentado reflete a “alma” do colégio. Dentro dessas visitas, é preciso se preocupar também com a qualidade e tipo de instalações — número de alunos em sala de aula, se tem área esportiva adequada, computadores modernos, etc. — pois estes detalhes refletem o corpo do colégio. Alma e corpo devem ser sadios! Dois últimos detalhes devem ser considerados, apesar de não serem essenciais: localização da escola, uma vez que o trânsito hoje é um problema sério nas grandes cidades; e o horário de funcionamento. No Rio de janeiro, existe um colégio renomado que, depois de muitos anos, percebeu que oferecer um ensino médio no período da tarde — quando todos os demais da cidade são de manhã — era um fator de desmotivação e de alienação social.

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4 - Quais os prós e contras de uma escola grande ou de uma pequena?

Uma escola grande tem a vantagem de contar com mais recursos financeiros, quando é bem administrada. Se o sucesso de todos os aspectos anteriores sobressaídos dependem bastante de recursos econômicos, é claro que uma escola grande traz mais vantagens. Além do mais, uma escola para se tornar grande exige, normalmente, muito tempo, o que significa experiência, tradição, imagem. No Rio de Janeiro, por exemplo, os melhores colégios em resultados nos vestibulares são quase todos considerados grandes. Por outro lado, uma escola pequena consegue buscar com mais facilidade essa individualização, tanto no aprendizado como na própria avaliação. Outras vantagens, é que fica mais fácil organizar eventos, viagens, visitas culturais, etc., em escolas menores, além de a família poder ter uma maior participação na gestão escolar.
 

5 - Que tipos de informações os pais devem ter sobre o corpo docente?

Além de procurar conhecer muito bem a sua formação, aludida anteriormente — é sempre o mais importante, para que haja aquela sintonia com os valores da família referida no início da entrevista — é importante saber também a sua metodologia. São da linha tradicional? São mais modernos? Sabem exigir ou não? Como “negociam” a disciplina e a avaliação? Estão disponíveis para conversar com os pais? Todas estas questões podem estar em desacordo com a nossa maneira de ver a educação.

6 - Quais são os métodos pedagógicos mais comuns? Como são e quais são seus pontos positivos e desfavoráveis?

Existem os chamados métodos tradicionais 
— também chamados de “cuspe e giz” — onde o professor expõe um conteúdo, aplica exercícios, manda lição para casa de fixação e depois a cobra na aula seguinte e nas provas. E existem os chamados métodos modernos, onde não existe uma autoridade clara e definida do professor, onde os conteúdos não são claramente definidos, mas se procura que o aprendizado seja através de projetos de trabalho, onde a criança, na busca de resolução de problemas, aprenda de forma lúdica. Normalmente, a informática é vista como ferramenta indispensável no aprendizado. As avaliações são mais flexíveis, podendo contar inclusive com a auto-avaliação. Dificilmente, alguém reprova.
Sou da opinião que é necessário chegar a um equilíbrio dialético entre estes dois métodos. Sem dúvida, que 
a aplicação somente dos métodos tradicionais já estão ultrapassados. Por outro lado, acredito ser altamente inconveniente acabar com a clara divisão dos conteúdos por matérias ou disciplinas. Agora que todos já entendem um pouco de informática e da ordem dos arquivos em pastas, para melhor localização dos mesmos, fica fácil entender como funciona a nossa memória: ela continuamente vai abrindo “pastas” dentro de “pastas” relacionando-as umas com as outras, para que quando seja necessário buscar essa informação, o raciocínio seja rápido. Imaginemos agora abrirmos o nosso “explore” e só encontrarmos umas poucas “pastas”, cognominadas, por exemplo, como “experiências”, “vivências”, “sentimentos”, etc., acho que é de senso comum vislumbrar dificuldades sérias no aprendizado. Acho que é muito importante o professor saber misturar aulas expositivas de “cuspe e giz” com outras de computador, PowerPoint, etc., com apresentação de seminários, com filmes e teatros, com visitas a empresas, porém, como já insisti bastante, que tudo isso não seja sinônimo de “marmelada”, mas de aulas bem preparadas, com profissionalismo e que saibam exigir dos alunos sempre muita dedicação, esforço e compromisso com o seu próprio projeto educacional.

7 - É possível encontrar uma escola pública ideal?

A minha pesquisa recente de mestrado na UFRJ — 1º semestre de 2003 — em 9 escolas públicas municipais do Rio de Janeiro demonstrou que, infelizmente, atualmente não! Que 
a legislação educacional em vigor não permite criar um ambiente escolar favorável e positivo tanto para os professores compromissados com a educação quanto para os alunos que querem aprender, pois o fato de as escolas terem que aceitar todos os tipos de alunos, de muitas terem que “ceder” na aprovação automática, de terem que conviver com todos os problemas intrínsecos e extrínsecos que o tráfico de drogas traz consigo não permite que haja as mínimas condições de motivação para quem quer ensinar e para quem quer aprender. Os professores municipais e estaduais estão sofrendo muito com essas mazelas sociais, estão desmotivados, cansados, desanimados e se percebe uma apatia generalizada por parte de nossos governantes. A questão que sempre me levanto é a seguinte: será incapacidade pedagógica/educativa ou simplesmente descaso? Quero sempre acreditar que é a primeira alternativa…
Porém, se olharmos para algumas pouquíssimas escolas públicas de excelência que têm autonomia para impor algumas regras e limites, se pode perceber que é possível sonhar com uma escola pública ideal… Portanto, é questão de se caminhar a passos mais rápidos para uma verdadeira autonomia, buscando uma legislação que responsabilize mais e melhor os respectivos diretores de escola pública.


Entrevista concedida por João Malheiro ao blog Negócios de Família.


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