ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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OS PERIGOS DOS EXCESSOS NAS NOVAS TECNOLOGIAS

Entrevista concedida ao BLOG (www.negociosdefamília.com,br)


Entrevista com João Malheiro - Doutor em Educação pela UFRJ

1. Que tipo de problemas de convivência terá um adolescente que foi uma criança viciada em computador?
Os pais hoje, preocupados com a insegurança na cidade e muitas vezes por comodismo – para não terem que dar a atenção devida – preferem ir equipando os quartos dos filhos com video-games, internet, computador, DVD, ar-condicionado, frigo-bar... criando-os em autênticas “bolhas” tecnológicas. Estas “bolhas” depoisse tornam psicológicas e os jovens saem para as escolas, para os cursos de inglês, para os diversos esportes, etc, dentro dessas bolhas, dificultando enormemente a capacidade de olhar para as pessoas, para se relacionar com elas, tornando-as tímidas, egoístas e desinteressadas pelas necessidades dos outros. Uma pessoa educada assim, desde cedo, terá resistências para sair de si e fazer amigos: esta é a causa principal porque os jovens hoje têm 2, 3 amigos de verdade no máximo e um monte de amigos virtuais ou cachorros, gatos, etc: esses não exigem esforço de sair da bolha.

2. Que tipo de problemas de aprendizado o adolescente terá?
O excesso de imagem que nos traz hoje a “cultura da imagem” vem trazendo sérios problemas de aprendizagem que já se está tornando uma autêntica “chaga” educacional, atingindo várias camadas sociais e não somente as classes mais abastadas.
Costumo destacar três graves deficiências educacionais:

1º) déficit de atenção: um adolescente que seja educado a receber muitas informações desde cedo, através de imagens, acabará por se viciar a ficar atenta somente naquilo que lhe é agradável como é a imagem . É o que se chama: ATENÇÃO EXPONTÂNEA. É preciso educar também na atenção voluntária: aquela conseguida através do esforço que nasce do estudo, de leituras, de documentários com perguntas, de questões na sala de aula (questões desafio), etc. Um dos maiores problemas hoje que os professores têm que enfrentar é a indiferença no aprendizado. Têm que se desdobrar para conseguir mantê-los atentos por apenas alguns minutos. Tudo isto muitas vezes tem relação com currículos ultrapassados e metodologias antiquadas, por isso é preciso descobrir quais são as verdadeiras causas da pouca motivação do aluno aprender e do professor ensinar.

2º) desmotivação, falta de iniciativas e de criatividade - o excesso de imagem afeta e enfraquece demais a imaginação, porque quando a imagem já vem pronta a pessoa não precisa fazer esforço e se acostuma com isso.
EX 1: como faltam atualmente idéias na criançada na hora de brincar. Antigamente, com uma meia, com um cabo de madeira, com uma boneca existiam mundos e mundos...
EX 2: antigamente, como só havia rádio, as pessoas tinham que imaginar tudo, ouvindo um jogo de futebol. Porque não havia TV, as tertúlias familiares, nas quais o avô contava estórias, eram atraentes e se passava muito bem em família.
Hoje, o video-game, internet, lan-house, etc “sugam” a criatividade das crianças, atrofiando sua imaginação..

3º) afeta também a memória - quantas mães reclamam hoje que seus filhos têm problemas para assimilar a matéria, dá branco na prova a toda a hora, ou, o que é pior, esquecem os deveres e obrigações escolares.
* as pessoas hoje pensam que ter informação é ter conhecimento: existe uma diferença imensa nesses dois conceitos: informação são dados, fatos, impressões imediatas, etc. Conhecimento exige assimilação, relacionar fatos, memorização ordenada.
* criam a falsa idéia de que já sabe a coisa porque viu na telinha, quando na verdade o assunto fica só na periferia do ver, sem chegar à inteligência:
• isto vicia a pessoa com a memória fraca
• ficam superficiais nas idéias: não sabem se comunicar (falar e escrever)
• se tornam “animalizados” na linguagem, na cultura, na diversão...

3. Como essa mania afeta o relacionamento em casa?
Na medida que os pais fomentam “bolhas” dentro de casa, colocando computadores, videos-games, etc. nos diversos quartos dos filhos, cozinhas, banheiros (já existe!), as pessoas vão deixando de conversar, de dialogar, de ser família...

Nos Estados Unidos, sabe-se que uma criança assiste em media, a 1680 minutos de TV por semana (4 horas/dia), enquanto os pais gastam 38,5 minutos dialogando com os filhos. A informação é do psiquiatra infantil Paramjit Joshi, do Centro de Crianças John Hopkins de Baltimore e foi divulgada em matéria de O Estado de S. Paulo, no dia 8 de julho. Fonte : Tendência & Cultura - SBP.Notícias no.4, ano I - fev/março 99

4. Quando o computador se torna um aliado e quando se torna um vilão?
Para entrar de cheio na questão, gostaria de recordar quais são os motivos que levam a criança e o adolescente a ficar no vídeo, na tv, na internet. Existem 3 blocos de motivos principais :
1º) acalmar os nervos ou combater o desânimo (curto prazo(CHATEADO) ou da vida);
2º) preencher o tempo ou simplesmente descansar
3º) entreter-se de forma seletiva ou como fonte de estudo, pesquisa e informação

Os dois primeiros, quando vão excedendo 2, 3 horas /dia - segundo alguns médicos – se tornam vilões porque a criança vai ficando cedada e perdendo o senso crítico que filtra o que é conveniente do que não é: deixa-se dominar por eles, podendo a partir daí acontecer de tudo.
É importante que os pais percebam a incoerência que existe em se sacrificarem para ir buscar suas filhas numa festa no Recreio dos Bandeirantes (RJ), no sábado à noite às 5 h da manhã, ou ainda, coloquem vários sistemas de segurança na suas casas: alarmes, vigias, etc., e não vigiem quem está entrando dentro de suas casas pela TV ou pela INTERNET. Hoje em dia com as WEB-CAM, é possível que os adolescentes se filmem mutuamente pelados no quarto, por exemplo, e enviem essas imagens por e-mail a quem quiserem. Isto já está virando moda: logo vai se chamar de prostituição digital. Os pais não podem ser mais ingênuos, achando que seus filhos são uns santinhos e que só ficam “baixando”músicas durante a tarde.

Em todas as palestras que dou em colégios aconselho que os pais coloquem FILTROS de pornografia – confirawww.NETFILTER.com.br (não ganho comissão nas vendas!!!) – que se torna muito eficiente combater esses intrusos da família. Muitas escolas, empresas, servidores já estão aplicando esta medida curativa. Não deixaria ter também WEB-CAM disponíveis nos quartos dos filhos.
Com relação ao terceiro bloco de motivos, sem dúvida, quando esses meios de comunicação são usados para enriquecimento pessoal, de forma seletiva e inteligente, só podem ser aliados do bom viver.
É muito importante, portanto, que os pais se questionem todos os dias quais são os reais motivos que estão levando os seus filhos a ficarem horas e horas na TV, internet, computador, etc. Nem sempre são os mesmos...

5. Como os pais podem identificar o problema do vício pelo computador?
Quando além de passarem várias horas por dia em frente a esses aparelhos, perdem a capacidade de aprendizado descritos acima e de relacionamento. Vão perdendo também a sensibilidade para a família, os amigos, outros em geral...

6. Identificado o problema, como devem agir?
Devem ter a fortaleza de colocar limites de uso de horas, de programas e de tirá-los dos próprios quartos colocando-os todos na sala de estar, para que haja vida em família. Devem depois incentivá-los a usarem esses meios para construirem projetos úteis para a família, escola, sociedade: escrever livros, escrever cartas, organizar aniversários da família, cardápios para a mamãe, músicas para escutar de noite, pesquisas sobre futuras viagens, etc.

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