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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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FÉRIAS: DIVERSÃO COM CULTURA

Publicado em 26/12/2009 no Jornal Gazeta do Povo (Curitiba) [1}


As férias escolares estão chegando e é comum que vários pais comecem a ficar preocupados com o que fazer com seus filhos. Muitos se entusiasmam e sonham com este tempo intrinsecamente salutar e feliz, tornando-o um autêntico oásis familiar. Outros, porém, o vêem como um grande fardo, e se perguntam: e agora, como é que vou ocupar o tempo livre dos meus filhos?

A resposta a esta pergunta sempre dependerá da idade que os filhos tenham, pois a partir de certa idade, eles mesmos é que têm que ser incentivados a buscar o seu próprio espaço e a aprender a tirar o máximo rendimento desse período. Mas, independente da idade que tenham, acredito que a pergunta está feita de forma incorreta. O tempo de férias não deve ser apenas um período que fica entre os anos escolares, ocupado simplesmente para descansar de forma totalmente vegetativa, sem fazer nada, ou somente para se divertir ao máximo e de forma desregrada. Pelo contrário, deve ser sempre um período ansiado, com a expectativa de um bom artista para pintar um novo quadro e fazer uma obra prima. Portanto, um período para criar, evoluir, crescer e contemplar o que não dá tempo de contemplar ao longo do ano. Assim é que as férias ficarão sempre gostosas, prazerosas e inesquecíveis!


Um livro de pensamentos ensina que o verdadeiro descanso “não é não fazer nada; é distrair-se em atividades que exigem menos esforço”. Fica claro, portanto, que o tempo de férias deverá reunir dois ingredientes fundamentais: atividades concretas e certo esforço. Quem acredita que as férias devem ser um período sem horário, sem compromissos, sem nada planejado, ainda não descobriu a riqueza que está escondida neste período maravilhoso, com o qual todos sonhamos.

Diversão vem de di-vertere, que significa voltar-se para fora, para aprender coisas novas. Ócio, em grego, se diz scholê, de onde deriva escola. Portanto, tempo de férias não é não fazer nada, mas freqüentar outro tipo de escola que ensina a descansar tanto o corpo, quanto a alma, aprendendo coisas diferentes que não são possíveis durante o ano letivo. Muitas vezes acreditamos que opções de lazer que não exijam pensar nada, compartilhar nada, descobrir nada sejam mais prazerosas, descansem mais, mas não é verdade. Quem passa as férias dormindo horas e horas ou fica grudado num computador, deixando seus projetos de férias numa gaveta, tem a experiência que no final das mesmas o que mais anseia é que voltem logo as aulas para sair desse estado de tédio e solidão. Essa experiência mostra que o ser humano foi feito para a contemplação e o amor...

O grande segredo de umas boas férias é quando se aprende a transformar a diversão também em cultura. A finalidade da boa cultura não é somente o entretenimento, mas sim o cultivo da pessoa, aquilo que a faz melhor como ser humano. Quando se busca nas férias somente passar o tempo ou o fruir do prazer mais epidérmico – que também deve ser procurado na sua medida, como uma boa praia, um esporte mais distendido ou um bom churrasco – facilmente se cai na frivolidade e na degradação. É preciso aprender desde cedo a elevar o nível das férias, semeando e adquirindo cultura também nos entretenimentos, o que exige, no início, certa dose de sacrifício. Todavia, acaba-se descobrindo os valores escondidos na leitura de um bom clássico, na visita a uma exposição artística acompanhada por um bom guia, num cine-debate de um filme com conteúdo, num passeio a uma cidade histórica, num concerto no Municipal...

Para que todo este panorama seja possível, é preciso planejar as férias. É muito aconselhável escrever em qualquer pedaço de papel um “roteiro”, como costuma fazer qualquer um que queira aproveitar viagens longas e cheias de lugares. Todas as férias, mesmo que não se possa sair da cidade (as viagens são sugeridas pelos psicólogos, ao menos por 20 dias, a fim de descansar o mundo psíquico) devem ser encaradas como uma nova viagem. Além do roteiro, fazer um horário, mesmo que mais flexível, é fundamental. Metas para realizar em determinados dias e desafios que exigirão vencer medos, preguiças e inseguranças também devem ser detalhados.

Um último aspecto que gostaria sobressair e acredito ser decisivo para aproveitar bem as férias é descobrir que a verdadeira diversão deve ser compartilhada. Quem viaja sozinho, mesmo que aprenda muitas coisas novas, perde muito. A presença da família, dos amigos, dos colegas enriquece a diversão. A definição aristotélica de amizade tem como fundamento os bens compartilhados. Por isso, é preciso planejar as férias para estar mais junto com os outros.

Entre estes outros, o tempo para buscar o Transcendente é importante. Ir ao encontro da natureza, das montanhas, do mar ou do verde ajuda muito a sensibilizar o olhar interior da alma para encontrar o Criador.

Cultura é o reflexo dos valores de uma sociedade. Buscar a boa cultura é buscar os verdadeiros valores do homem. Para isto, o papel dos pais e educadores para orientar o jovem nesses valores é decisivo. Segundo um filósofo contemporâneo, a motivação nasce no ser humano quando se descobre um valor que é possível alcançar. Depende de nós educadores, portanto, motivar os jovens a se divertirem de verdade nas férias.

[1] http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=958068&tit=Ferias-diversao-com-cultura

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