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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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A vocação de um bom professor

Publicado em 24/01/2010 no Jornal Gazeta do Povo (Curitiba) [1]



Durante o Congresso Nacional de Educação de 2005, no Rio de Janeiro, ao ser interrogado sobre como se definiria um bom professor, Erik Hanushek, doutor em Economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e pesquisador da educação há mais de 40 anos, foi categórico: “Fiz uma ampla gama de estudos que indicam que as formas comuns de se medir a qualidade de um professor, tais como nível de graduação, experiência, treinamento profissional e até mesmo salário têm pouco a ver com aquilo que seus alunos aprendem. O que explica melhor o que faz alguém ser um bom professor é algo que ainda não investigamos suficientemente”. Concordo com o pesquisador quando afirma que é muito difícil definir com certo rigor o que faz alguém ser um bom professor. Mas é fato que alguns, na prática, conseguem melhores resultados de aprendizagem do que outros e que muitos conquistam a admiração e o agradecimento da maioria dos alunos.
Parece evidente que, apesar de não ser o único pré-requisito, é condição obrigatória ser um profundo conhecedor do que se ensina. O prestígio profissional na docência sempre esteve atrelado não só à seriedade na atualização da disciplina, mas também ao quanto, por meio de pesquisa, se contribui pessoalmente para novas formas de conhecimento, de didática e de avaliação, principalmente com as atuais inovações tecnológicas. Mas, como diz Hanushek, estas qualidades não determinam um bom professor. Efetivamente, quem já foi aluno algum dia se lembrará de professores que, apesar de apresentarem um currículo invejável e uma didática criativa impressionante, provocavam certa indiferença em sala de aula. Qual seria a causa deste distanciamento?
Arriscaria afirmar que esses professores não eram verdadeiros professores. É possível que a motivação intrínseca que os levava a aprender a ensinar, durante seu percurso acadêmico, não se traduzia prioritariamente em compartilhar esse conhecimento com futuros alunos, mas sim em alimentar um certo orgulho mais ou menos inconsciente. Quantos professores instrumentalizam um auditório para se remirarem como que num espelho, vangloriando-se na própria sabedoria e satisfazendo-se na própria vaidade. Quando estão dando aula, lecionam para si próprios e se regozijam interiormente. É aqui que o aluno detecta ou intui essa desordem e logo o rotula como mau professor.
Para fugir desta armadilha bastante comum na vida universitária, como também em todos os níveis de ensino, é preciso possuir outra motivação educacional, chamada de transcendental. É uma força “centrífuga” que leva o professor para fora de si e o ajuda a alcançar o que, na minha opinião, determina um bom professor: a amizade com os alunos. Para formar bem a juventude, aliado ao profundo conhecimento da disciplina, tem que existir uma autêntica e verdadeira amizade no relacionamento professor-aluno. A amizade abre todas as portas, consegue todos os objetivos e faz alcançar as metas difíceis com mais facilidade e rapidez. Com a amizade, se conseguem verdadeiras maravilhas educacionais, principalmente com os mais excluídos, através de uma confiança irresistível.
Evidentemente, o conceito de amizade é, para a grande maioria hoje, mais um conceito esfumaçado e impreciso, consequência talvez de uma sociedade hedonista. Muitos hoje falam em possuir vários amigos nas redes de relacionamento virtual ou nas festas de fim de semana, mas no fundo quase todos reconhecem que esses modos de estar juntos baseiam-se mais em razões de conveniência do que na verdadeira amizade, e muitas vezes se sentem sós.
O amor de amizade é querer o bem do outro pelo outro, dizia Aristóteles. É querer tornar feliz aquele a quem se olha, a quem se ensina, a quem se escuta e não, pelo contrário, buscar a felicidade própria através dos outros. Quando o aluno reconhece por trás das exigências escolares — lição de casa, prova, apresentação em sala de aula — formas verdadeiras pelas quais o professor promove seu crescimento intelectual e volitivo e o vê sofrer quando não consegue passar seu conhecimento de forma harmônica, então ele aceita sua autoridade, porque percebe que o professor quer o seu bem.
Portanto, um verdadeiro professor é aquele que sabe querer realmente a todos os seus alunos. Que tem uma capacidade para conhecer muito bem a todos e consegue descobrir as suas melhores qualidades, sem dar tanta importância aos seus defeitos e limitações. Alguns argumentarão que este ideal parecerá utópico frente à necessidade econômica que impele muitos professores atualmente a dar aulas demais, perdendo assim as chances de se aproximar dos alunos. Por isso, um bom professor deve pensar sempre com prudência se será capaz de querer a todos os alunos quando pensa em assumir uma nova sala de aula.
Definir um bom professor depende, portanto, da riqueza de sua interioridade. Ser um bom professor não é sinônimo de ter uma personalidade forte para persuadir e mover os alunos a estudar. O que realmente move é a interioridade de um coração limpo e ordenado e isto nem todos possuem ou conseguem manter. Qual será o segredo para consegui-lo? Vocação? Dom? Prefiro ficar com a postura de um educador experimentado: “é algo que ainda não investigamos suficientemente”.


[1] http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=966642&tit=A-vocacao-do-bom-professor

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