ESCOLA DE SAGRES

BEM-VINDO À ESCOLA DE SAGRES!

Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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A CONSTRUÇÃO DA AMIZADE

                                                           

Capítulo 1:     O VALOR DA AMIZADE



Uma preocupação para todos.   .......................................................................

Uma preocupação para todas as idades.   ........................................................

O que é a amizade.   .......................................................................................



Capítulo 2:     AS VANTAGENS



Por que ter amigos? .....................................................................................

Fonte de enriquecimento pessoal ..................................................................

Um coração enamorado ...............................................................................

Os perigos do "homem bolha" .......................................................................



Capítulo 3:      AS DIFICULDADES



Amizades naturais e conquistadas   .................................................................

Dificuldades internas e externas   ....................................................................

Eu gosto ou eu amo? .....................................................................................

As boas e as más amizades: como distingui-las? .............................................



Capítulo 4:     OS PASSOS DA AMIZADE



Primeiros passos   ..........................................................................................

Manutenção e crescimento: o que fazer na prática ..........................................

Virtudes da convivência .................................................................................

Defeitos da convivência ................................................................................



Capítulo 5:      DOM DE GENTES



Amizade entre pais e filhos ............................................................................

Amizade com pessoas de outro sexo .............................................................

Amizade entre pessoas de outra condição .....................................................

Amizade com Deus .......................................................................................



Notas ..........................................................................................................









CAPÍTULO 1: O Valor da Amizade


Uma preocupação para todos

            Pesquisas recentes nos meios educacionais demonstraram que cada vez mais os jovens de hoje têm menos amigos. A grande maioria tem um, dois amigos no máximo - muitas vezes de um modo superficial - e o resto são apenas colegas, conhecidos, companheiros de “ocasião”. Por outro lado, estas mesmas pesquisas concluíram que um dos maiores desejos desta juventude é ter amigos, é sair, é compartilhar…
            Analisando esta pequena contradição, confesso que fiquei pensativo e tenho a certeza que você também, ao ler estas linhas introdutórias. Por que será isto?
            Obviamente, poderíamos dar diversos motivos para este fenômeno e trazer para este pequeno livro todos os estudos que se têm feito sobre esta matéria nos últimos anos. Mas para não tornar esta leitura maçante e você parar agora mesmo, me satisfaria e espero que você também com esta primeira resposta: porque não se tem mostrado nos últimos anos o grande valor da amizade. Porque, de fato, houve uma “hiper-inflação” num dos valores que mais desejamos, na família, na escola, nos meios de comunicação social, na literatura, no cinema…
            Ao descobrir esta realidade - espero que aconteça também com você -, senti um impulso explosivo de gritar e dizer: chega! Os jovens de hoje não podem continuar estar sendo, senão enganados, pelo menos vivendo na ignorância e deixando passar os anos de sua existência  com uma tremenda apatia diante da vida, diante das pessoas…
            Este livro tem objetivo de fazer “virar o jogo”. Quer ser um autêntico “Plano econômico” que recupere o verdadeiro valor da amizade.  De mostrar para os jovens que uma das maiores alegrias desta vida é fazer amigos. Que uma das maiores enganações é passar um dia inteiro no computador…
            Verdade ou não é que você sai “voando” depois de ter assistido a um filme de valores humanos, onde “alguém” dá a vida por um “outro”. Verdade ou não é que você explode de alegria quando, um belo dia, quando você menos esperava, recebe uma carta de um amigo seu, contando-lhe, em tom de confidência, as experiências de vida num país estrangeiro. Verdade ou não é que você dorme como um “anjinho” quando você fica a tarde inteira acompanhando um irmão seu ou amigo num hospital, sem fazer absolutamente nada e, simplesmente, se dedicando a fazer-lhe companhia.
            Se tudo isso é mil vezes verdade e acontece com todo o cidadão normal,  por que não questionar um pouco mais sobre este assunto? Por que não enfrentar este livro - com gosto ou sem gosto pela literatura - e tentar aprender ou reaprender um pouco sobre o tema da amizade?
            Desde já aposto com você que 90% das idéias que iremos refletir juntos neste livro serão novidade para você. E tem mais: você não vai conseguir segurá-lo por muito tempo, porque você vai querer que os seus amigos descubram este mundo maravilhoso da amizade… Este seu amigo poderá ser seu irmão, seu colega de classe, sua irmã, seu companheiro de trabalho; como poderá também ser seu pai, seu chefe, seu professor...
             O problema da desvalorização da amizade não é que ela, intrinsecamente  tenha perdido valor,  mas que a grande maioria dos formadores e educadores deixaram de se preocupar em mostrar aos jovens que a amizade, apesar de ser algo espetacular, exige um autêntico esforço de um construtor de uma casa. Que a grande maioria das amizades exige aprender a fazê-las!
             Porém, quando se ensinam os seus fundamentos básicos e se põem em prática, se saboreia de uma das maiores alegrias do homem. Vamos aprendê-los ?

Uma preocupação para todas as idades

            Ao tratar deste tema tão amplo, onde em cada idade da nossa existência as dificuldades para fazer amigos são bastante diversas, penso que precisaria de pelo menos dez vezes do espaço deste livro para tentar estudá-los com satisfação. Diante desta limitação, preferi escolher de um modo preferencial aquela faixa de idade mais necessária e mais difícil que é a idade dos 12 aos 18 anos. Aquela idade que você descobre que existe um “eu” e que existe um “tu”. Tenho a certeza que o leitor concordará comigo que se você aprende a fazer amigos nesta idade, as dificuldades que você terá depois ao longo da vida serão facilmente contornadas, porque na realidade quando você educa bem o seu coração na idade “durepoxi” - onde é fácil moldar, cortar, completar, direcionar - depois na maturidade e na velhice o seu coração terá mais facilidade para abrir-se aos demais. Vale a pena investir tudo nesta idade, no que se refere ao valor da amizade. Penso que seja o maior investimento que se deve fazer quando se passa esta idade. Quantas mães hoje - com certeza sem a menor consciência do estrago que estão causando - investem nos filhos desta idade em tudo o que seja línguas, hobbies, cursos, esportes (individuais!), de modo que os seus filhos não tenham tempo para estar com os seus amigos de rua, de prédio, de escola, e depois amarguram que não têm amigos, que são pessoas tristonhas e apáticas, que são egoístas e sem força de vontade. O jovem dos 12 aos 18 anos quando descobre que existe um “tu” e experimenta a alegria que é emprestar a bola para jogar com a turma o futebol depois do estudo; quando percebe que estudar junto com um colega de classe que tem mais dificuldade em matemática o deixa feliz; quando saboreia um bolo-caseiro feito com mais três colegas de classe na ausência da mãe, então, no futuro, quando vier a tentação do “egocentrismo” universitário; a sedução do sucesso dos primeiros anos profissionais ou ainda a “falácia” de uma vida a dois sem filhos, logo terá a suficiente sensibilidade para gritar com energia e convicção que NÃO VALE A PENA! O que vale a pena é um coração cheio de amigos, depois de filhos, depois de netos e depois de bisnetos, porque um coração enamorado vive muito!
            Lembro-me de quando estudei Administração de Empresas na Universidade de São Paulo, tinha um colega que estudava na faculdade mais cobiçada da época - a Mecatrônica da Politécnica - que teimava em não me ouvir que não adiantava nada ser um dos melhores alunos da sua faculdade se desprezava todas as chopadas, viagens, festas e competições esportivas com os seus colegas de classe. Os anos foram passando, 10, 20, 30, 40 e no 50 quando o “sucesso” ia “explodir” - na sua imaginação! -  entrou em depressão e se afundou na vida porque se sentia só! Quantos casos parecidos o leitor com certeza não conhecerá… Pois é, isto tudo aconteceu porque não soube ir equilibrando na faculdade em iguais proporções o tempo para o  estudo e o tempo para os amigos; porque já na idade “durepoxi” tinha formado um coração do tamanho de um “botão”.
            Portanto, se você está em torno desta idade, fico contente que tenha chegado na hora certa. Se você se encontra em outra, pelo menos você poderá - quem sabe - se entender um pouco mais e se aceitar. Quando se consegue isto, penso que já é uma grande vitória, pois é sempre o primeiro passo para mudar e melhorar. E poderá também entender melhor e aceitar os seus filhos, os seus irmãos, os seus pais,  os seus amigos, os seus companheiros de “ocasião”…
            De qualquer forma no último capítulo daremos umas rápidas pinceladas em como construir uma amizade entre pais e filhos, com pessoas de outro sexo, com pessoas de outra condição, etc., para você entender melhor como se dão os diversos tipos de amizade.

O que é a amizade

            Definir a amizade não é uma tarefa fácil. Desde os tempos de Aristóteles, Platão, Cícero o homem vem filosofando sobre o tema e por isso seria uma grande presunção de minha parte querer chegar neste livro com mais uma definição ou com a definição.
            Lembro-me que quando assisti a um filme que fez muito sucesso na época: “A Sociedade dos Poetas Mortos”, me senti empolgado a fazer o mesmo que aquele professor do filme com os seus alunos, que consistia em debater todos as semanas com estudantes do ensino médio de um Centro Cultural que trabalhava, sobre temas que normalmente fervilham nessa idade. Confesso que o tema da amizade sempre foi o mais votado, o que trazia mais vibração e curiosidade naquelas “tardes filosóficas” e depois de vários anos debatendo com jovens inquietos por entender o que é a verdadeira amizade chegamos a uma definição simples e fácil de guardar: “É uma misteriosa afinidade espiritual entre duas pessoas, que requer admiração mútua e desejar livremente o bem do amigo”.
            Sem dúvida que, se pensarmos nos  grandes amigos que temos  ou tivemos na vida, iremos perceber que na grande maioria deles  existe um certo mistério. Por que fiquei mais amigo de fulano do que de sicrano? Se ambos moravam perto da minha casa, gostavam das mesmas coisas, tinham as mesmas condições econômicas e eram da minha classe? Por que no Curso de Inglês logo me sentei ao lado de bengano e se tornou depois o meu maior amigo, muito mais que o meu próprio vizinho? Sem querer desvendar este mistério, quando passam os anos - e eu não tenho muitos ainda! - e fazemos um pouco de retrospectiva da nossa vida, sozinhos ou num encontro com algum amigo, recordando o passado, facilmente conseguimos detectar que  de fulano aprendemos a ser trabalhadores, estudiosos; de sicrano alegres e bem humorados; de bengano exigentes e responsáveis no cumprimento do dever,  o que podemos concluir portanto e vislumbrar que “Alguém lá em cima” desde cedo foi colocando pessoas à nossa volta que - a maioria das vezes nós não percebíamos - nos iam completando, enriquecendo, construindo, insistindo, corrigindo…O que desde já podemos começar a enxergar o quanto bem não faz ter muitos amigos…
            Mas, como dizíamos, a amizade é uma “misteriosa afinidade espiritual entre duas pessoas”, portanto está sustentada em uns “laços”! Na medida em que esteja constituída a “liga” do metal do laço da amizade, nessa mesma medida será essa amizade. Se o laço é de sangue, a liga é de aço duríssimo e só em casos muitíssimos excepcionais se quebram. Quem não lembra dessas brigas entre irmãos, às vezes por um mero pião de madeira com murros e pontapés e logo em seguida o laço faz esquecer tudo…
            Existem vários tipos de laços que foram feitos numa torcida organizada de futebol; laços num clube esportivo; laços entre amantes de um banda de rock; laços entre leitores de Tolkien…
            O primeiro elemento “químico” que forma o  laço de amizade é o que chamamos  “Admiração mútua”: existe algo externo que faz com que você inicialmente se atraia ou seja atraído: um time, um esporte, uma banda, um hobby, um passatempo. Isto pode parecer muito óbvio mas se você parar agora para pensar você descobrirá que muitas vezes é aqui que você está falhando! Por que? Porque, em primeiro lugar, você às vezes por motivos de educação familiar e outras vezes por puro comodismo de ficar em casa, em frente à TV, ao computador, ao aparelho de som, etc., no ar condicionado, você não oferece muitas ocasiões de ser admirado e de admirar os outros. Depois, você ficando em casa, você se acostuma a ficar “amigo” do seu cachorro, do seu gato, do seu micro-computador, do seu hobby e - sem notar - vai ficando “atrofiado” para os outros e sem amigos! Como víamos na nossa definição, a amizade tem que ser feita com “duas pessoas”, portanto entre pessoas e não com coisas. Se você se acostuma a fazer amizade com os seus “brinquedinhos”, facilmente  tratará depois os seus colegas como coisas também: este me serve, este me agrada, este me satisfaz, este joga tênis, este tem moto, este tem casa na praia… Você concordará comigo que além de isto tudo estar muito longe da verdadeira amizade, você jamais conseguirá admirar os outros e se tornará um admirador de si mesmo.
            Estou-me recordando de um rapaz que conheci faz pouco tempo que é daqueles que só pensa em chip’s, programas de computador, joguinhos…Normalmente, procuro telefonar-lhe para alguma coisa de seu interesse ou convidá-lo para fazer algum programa junto. Na grande maioria das vezes, nunca pode…mas é impressionante ver com que entusiasmo me fala de suas novas descobertas no Windows ou no programa que ele fez para controlar melhor os seus gastos ou os novos recordes que ele conseguiu nos seus joguinhos… Sempre que desligo penso “com os meus botões”: este é mais um que só se admira a si mesmo… E é  o que acontece quando não se tem amigos: fica-se admirando ao próprio umbigo o dia inteiro e cego para os outros.
            Portanto, se você quer começar a ter amigos de verdade comece a das mais chances de ser admirado e de admirar os outros. Comece a sair mais de sua casa e vá para o play-ground de seu prédio, ou para o clube ou para a rua. Pegue mais no telefone e comece a convidar seus amigos para virem na sua casa, no seu quarto, no seu computador. Você mesmo perceberá a diferença. E tem mais: você começará a perceber que a admiração mútua subirá um degrau: começará a ser mais profunda. Você começará a admirar o seu amigo por dentro, pelas virtudes que tem, porque lhe trouxe emprestado um CD - generosidade -; porque lhe ajudou no trabalho da escola que você estava com dificuldades sem se dar muita importância - humildade -;  porque topou ficar de goleiro num tempo do jogo - espírito de serviço -; e você também tentará - ainda que sem essa intenção explícita - ser admirado oferecendo-lhe um lanche quando vier estudar na sua casa - carinho -; dar o “braço a torcer” e ir ao shopping ao invés de sua loja preferida de instrumentos musicais - sacrifício pelo outro -; ter a iniciativa de sair de uma festinha que estava passando dos limites da decência ou da verdadeira amizade - fortaleza-, etc..
            Se recorrermos ao dicionário veremos que “admiração” é “o prazer que causa a contemplação de alguma coisa bela ou extraordinária. É a surpresa, o entusiasmo ou o deleite causado por alguma coisa notável”1. No dia em que começarmos a perceber a alegria que dá ter alguém de valor ao lado, que nos puxa para cima, que nos estimula a ser melhores, começaremos a repensar em muitos convites que recebemos para sair, para estudar em conjunto, para visitar um amigo doente e nós recusamos…
            E estaremos prontos para dar o passo mais difícil da verdadeira amizade que é, conforme dizíamos na definição inicial, “desejar livremente o bem do amigo”. Infelizmente, com a mentalidade que nos querem impor hoje os meios de comunicação social que só é feliz aquele que “garante a sua”; que para se dar bem na vida é preciso “levar vantagem em tudo”; que a felicidade está em ter  “muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender”; que o negócio é curtir a vida a doidado…pode ser difícil, inicialmente, dar este passo… Pode ser difícil hoje entender o verdadeiro conceito de amizade. Pode parecer impossível ser mais feliz dar do que receber… Mas também penso que é por isso que temos poucos amigos, como dizíamos no começo destas páginas. Pode ser por isso que a liga do metal das amizades que temos seja fraca, porque o segundo elemento - sacrificar-se pelo outro - contribua pouco na formação dos laços de amizade que tentamos formar.
             Pergunte-se, sinceramente: quando estou com os meus amigos atuais estou pensando em como agradá-los, como torná-los felizes, como me adaptar às suas necessidades ou, pelo contrário, vou “forçando” que eles se amoldem aos meus gostos, aos meus planos, ao meu tempo...?
            A tendência de todos nós é sem dúvida a segunda opção. E é exatamente por isso que muitas vezes nos custa sair para campo para fazer novos amigos.    
            Agora, você já parou para pensar alguma vez - profundamente - quais são as vantagens de ficar pensando o dia inteiro nos outros e de esquecer-se de si mesmo? O que é que se ganha quando nos esforçamos por estar o máximo tempo possível com os outros ?
            Convide-o a passar para o próximo capítulo e descobrir um “mundo novo”...  

CAPÍTULO 2:  As Vantagens

Por que ter amigos?

            Semana passada, quando cruzei com um rapaz que freqüenta o Centro Cultural onde trabalho, logo percebi nos seus olhos que havia algo de errado se passava com ele. Convidei-o a tomar uma Coca-Cola no bar da esquina e depois de uns rápidos comentários sobre a vitória de seu time, perguntei-lhe com delicadeza e carinho - “que há com você?”- “Nada”. - “Nada?” - “Eh!” - “Nada mesmo?” - “Bom, é que não quero ter mais amigos!” - “Mas por que?” - “Porque convidei vinte colegas da classe para vir no meu aniversário, doze disseram que vinham e não apareceu um! Foi aquele fiasco! Nunca mais organizo nada...”
            Quantas vezes nós também sentimos mais ou menos estas mesmas pontadas de chateação… O amigo que não aparece no cinema sem avisar nada; o colega de classe que se esqueceu de trazer aquele material fundamental para fazer um bom trabalho em equipe; os amigos que desmarcaram, em cima da hora, uma viagem que tínhamos planejado com tanto carinho, só porque está um tempo meio chuvoso…
            Obviamente, ninguém gosta de ser humilhado e de sentir um pouco esta situação de fracasso perante os pequenos ou não tão pequenos projetos na vida. Todos nós gostamos de ser correspondidos aos nossos esforços e que nos tratem com respeito e consideração. E todos concordarão que todas estas mancadas são profundamente lamentáveis. Mas nos podem ajudar a vislumbrar um pouco mais o segundo elemento do conceito de amizade. Se formos pesquisar por que os companheiros desse meu amigo do Centro Cultural não foram à festa veremos que a maioria teria razões altamente “compreensíveis”: um tinha treino de basquete no clube; o outro necessitava ir comprar um tênis no shopping; outro não tinha ninguém que lhe levasse de carro… Como vemos, esses seus amigos - falsos amigos ou simplesmente colegas - viram o convite para essa festa em função do benefício, da satisfação, do “custo benefício”, das vantagens que ganhariam em troca de ter que faltar num mero treino, em adiar a compra do tênis ou na realização dos trabalhos escolares. Não viam em função da alegria que traria a sua presença ao aniversariante; na satisfação que dariam ao amigo levando algum doce ou até um pequeno presente, que comprariam com as suas economias. Que poderiam preparar com os outros da classe uma pequena peça de teatro ou uma música.
            Como vemos, é aqui que está um dos “primeiros segredos” que quero que você pense um pouco em relação à amizade: que as verdadeiras amizades só existem quando procuramos o bem dos outros e não o nosso. Quando pensamos, ao invés do que eu vou ganhar, o que o outro vai ganhar.
            Infelizmente, volto a insistir, tudo isto pode parecer muito difícil e é compreensível que lhe pareça, pois essa é a formação que você recebe - errônea formação - já faz muito tempo e porque existem “uns poucos” que querem que você pense assim e que estão dispostas a pagar o que for preciso para financiar certas campanhas publicitárias que insistem nesta falácia...
            Experimente, num tempo mais ou menos curto, vencer esta tendência que temos todos nós de pensar em si mesmo e comece a pensar sempre como alegrar os seus amigos, como torná-los mais felizes, como lhes facilitar mais a vida, como se adaptar mais aos seus gostos e você concluirá por si mesmo o que é que mais vale a pena. A sua imaginação talvez agora se rebele um pouquinho mostrando-lhe que assim você se “ferrará”, que não será tão feliz: não lhe dê confiança. Use a outra ferramenta que temos no nosso intelecto para combatê-la - a memória - e lembre-se daquelas alegrias que você experimentou quando jogava vôlei e deu o seu lugar para o seu amigo que já esperava fazia um tempão; ou aquele outro dia que você deixou a sua irmã ir no banco da frente do carro com espontaneidade; ou ainda quando, depois de perceber os apuros de sua mãe, você lhe lavou a cozinha inteira…
            Vivendo esta experiência maravilhosa, com esforço e confiança, você começará a perceber que os amigos começarão a telefonar-lhe mais; você será o primeiro a ser convidado para a viagem ou a festa de fim de semana; que você se encontrará agora, finalmente, talvez, com os primeiros amigos de verdade. Aqueles que “tocam fundo” e não se esquecem jamais e, com certeza, são esses que você anda à procura… Mas repare, tudo isto aconteceu porque você mudou! Porque você “virou o jogo” da amizade e começou a pensar como o São Josémaria Escrivá, que dizia “A tua caridade deve adequar-se, ajustar-se, às necessidades dos outros…; não às tuas “2.
            Penso que agora você já está em condições de responder à pergunta que fazia no início deste capítulo: “Por que ter amigos?” Porque eles precisam de mim! Porque precisam de minha ajuda, do meu serviço, do meu carinho, da minha criatividade, da minha alegria, da minha correção, do meu estímulo, do meu exemplo…
            E indiretamente, como “quem não quer nada”, enquanto procuro ir construindo muitas amizades, percebo que vou melhorando, porque vou sendo mais generoso, vou desenvolvendo mais os meus talentos pessoais, vou adquirindo espírito de serviço, vou aprendendo a ser mais ordenado e assim vou conseguindo mais tempo para os outros.
            Continuando o meu diálogo com esse meu amigo do Centro Cultural, perguntei-lhe: “- Mas, escuta: o que é que você queria quando convidou os seus amigos?” - “Que se divertissem, que me fizessem companhia!” - “Concordo que esta última você não conseguiu, mas a outra, o prejuízo foi deles.” - “Eh!  É verdade.” - “E quantos telefonemas você deu?” - “Uns quarenta!” - “E quanto tempo você gastou para organizar toda a festa?” - “Várias horas!” - “Você concorda comigo que pelo menos você ganhou outras coisas muito mais valiosas, que não aparecem para os outros, mas você sente, como generosidade, humildade, esquecimento próprio, espírito de serviço...?” - “Eh.” - “Então esqueça tudo e continue organizando festas, campeonatos de futebol, excursões, sessões de cinema etc. , que você sempre sai ganhando!” - “Eh, você ganhou, acho que você tem razão!”.

Fonte de enriquecimento pessoal

            Além de melhorarmos “por dentro” quando procuramos fazer novos amigos, desenvolvendo os talentos pessoais que cada um tem, adquirindo virtudes e arrancando defeitos, outra grande vantagem, sem dúvida, é quanto eles nos enriquecem com os seus talentos, com as suas virtudes e com o seu bom exemplo. Sem precisar ser um especialista em psicologia, ou outra ciência que lhe auxilie, é fácil enxergar que não existe um homem igual. Cada um tem uma riqueza impressionante - às vezes um pouco escondida ou então atrofiada - que na medida em que cresce vai desabrochando.
            Tem pessoas mais sentimentais que se impressionam facilmente com as coisas que nos ajudam a ser mais sensíveis às pessoas, às coisas e estão sempre nos ensinando a ser mais generosos com o nosso tempo, com o nosso dinheiro. Tem outras mais apaixonadas que são um autêntico “furacão”, cheias de iniciativas, otimistas, alegres, empreendedoras que nos estimulam a enfrentar as dificuldades da vida com bom humor e sem traumatismos e nos ajudam a ser bons planejadores. Existem ainda os fleumáticos, mais frios e resguardados nas suas reações, que justamente por isso são mais reflexivos, mais profundos, mais prudentes, mais serenos e quanto são úteis às vezes para nós , principalmente nos nossos anos jovens… E, por fim, sem querer esgotar todos as possibilidades de classificação dos “modos de ser” das pessoas que convivem conosco, há os mais apáticos - os quietos - que normalmente por serem pessoas mais introvertidas e observadoras, são as que têm as melhores soluções, as mais eficazes e que algumas vezes são essas pessoas que nos salvam de grandes apuros.
            Conta-se que numa reunião de uma empresa de produtos dentários, se discutia como aumentar as vendas de suas pastas de dentes. O diretor de marketing dizia que se lançasse um novo produto para as classes mais baixas o sucesso seria garantido. O diretor comercial era de outra opinião e alegava cheio de veemência que se a empresa importasse as embalagens, o “boom” de vendas seria incrível. E assim corria a reunião, onde cada diretor contribuía com a sua bela ciência. De repente, o faxineiro que varria naquela hora a sala contígua, pessoa humilde, calada, rude, com trinta anos de profissão, encheu-se de audácia e interrompeu a reunião “- Srs. diretores: será que poderia dar uma pequena sugestão? “- Todos meio perplexos e assustados, disseram que sim -” Por que os Srs. não aumentam um milímetro na espessura da boca da pasta. Ninguém vai notar essa mudança e com isso se aumentarão as vendas!”. A reunião estava terminada! A idéia era genial e vinha de uma pessoa sem instrução.
            Portanto, como vemos, andar com pessoas das mais diversas formas de ser é para nós altamente enriquecedor.
            Pensemos agora, em outras formas de enriquecimento pessoal como são dons e talentos pessoais. Tem pessoas que adoram História e nos podem aumentar a cultura com suas conversas ou visitas a exposições, museus, etc. Têm outros ainda que são uns apaixonados pela música e que além de entenderem de algum instrumento musical - que sempre alegra uma roda de amigos em festas, viagens, reuniões, etc. - nos “empurram” pelos caminhos da música clássica que tanta riqueza oculta tem escondida.
            Existem os desenhistas, que com as suas “caricaturas” alegram qualquer festa familiar. E os exemplos poderiam se multiplicar: os que dominam a informática e nos “salvam” de muitos trabalhos escolares que estão a ponto de se perderam dentro do micro; e os que gostam de subir montanhas e nos ajudam a tornar um fim de semana com conteúdo.
            Talvez o leitor, neste capítulo, tenha ficado um pouco saturado com tantos exemplos e demonstrações práticas de como é altamente compensador estar rodeado de amigos. Mas, confesso-lhe, que foi proposital para ajudá-lo a ver horizontes mais altos. Minha intenção era empolgá-lo a sair dessa “bolha” que muitas vezes nos encontramos (já falarei dela daqui a pouco), onde cabe no máximo um ou dois amigos, e queiramos viver no meio deste mundo maravilhoso que Deus criou, para que os homens juntos o dominassem e vivessem muito unidos e cheios de solidariedade.
            Diante de todas estas idéias, acho que é muito conveniente você pensar agora naquele velho ditado que sua avó deve-lhe ter dito algumas vezes quando você lhe visitava: “Diz-me com quem andas e eu te direi quem és”. Se você anda somente com pessoas que não sabem fazer outra coisa se não se divertir, gozar a vida, viver entre festas e shopping’s, você concordará comigo que você não deve estar desenvolvendo todo o seu potencial que tem aí dentro. Por outro lado, se na hora de você escolher os seus amigos, na hora de você exercitar a já sabida e aprendida “admiração mútua”, você sabe olhar não tanto para o que mais impressiona a primeira vista (dinheiro, inteligência, músculos, influência, etc.) mas para quem tem idéias, cultura, educação, virtudes humanas, aproveita bem o tempo, então posso concluir que você será no futuro um grande homem, porque será o somatório de todas as boas influências que recebeu durante toda a sua vida.
            Agora, se você não anda com quase ninguém habitualmente, então também posso concluir quem será você no futuro…

Um coração enamorado

            Se um “marciano” um dia pegasse estas páginas que você já leu até agora tenho a certeza que já estaria completamente animado a sair “para campo”…
            Porém, penso que agora chegou o momento de mostrar-lhe o principal, a essência deste folheto, a super vantagem. Sinto-me como esses empresários que estão com o novo produto coberto por umas cortinas, que anseiam por mostrá-lo.
            Voltemos a esses exemplos que falávamos faz pouco: o dia que você deu o lugar no time de vôlei àquele seu amigo que já esperava faz um tempão; o dia que você com naturalidade e espontaneidade deixou sua irmã ir no banco da frente do carro ou ainda o dia que você desligou a TV e foi lavar a louça da cozinha para a sua mãe. Perguntemo-nos: por que você ficou feliz? Concordará comigo que em todas essas situações lhe custou vencer-se; que não foi fácil sair do time, ou ir no banco de trás, cheio de sacolas do supermercado, ou ainda ficar cheirando a detergente a tarde toda. Mas você, vencendo o seu egoísmo, pisando o seu comodismo, por amor ao seu amigo, por amor à sua irmã, por amor à sua mãe topou sacrificar-se por eles. Você provou que tinha amor por eles e que depois desses atos de generosidade o seu amor cresceu um pouquinho mais. Poderíamos dizer, portanto, que quando você “queimava” egoísmo no coração e “enfraquecia” o comodismo na vontade, você estava nada mais nada menos que dando espaço para o Amor. Este acréscimo de amor no coração, essa invasão de amor é o que produzia durante e depois uma profunda alegria.
            Imaginemos agora que você não tem, pelos motivos que for, nem amigo, nem irmã, nem mãe: com quem você vai exercitar o amor? Com o cachorro? Com o programa de computador que conversa com você? Não acredito que você se levante da cama de madrugada quando o seu cachorro ficar uivando porque está só ou quando o computador começar  “piscando” querendo uma “teclada” sua...
            Portanto, meu caro leitor, é aqui que você precisa descobrir ou redescobrir um “outro segredo” deste folheto: que quanto mais amigos temos, mais amor teremos no coração; quanto mais pessoas tenho com que me preocupar mais capacidade tenho de crescer no amor; quanto menos tempo tenho de pensar nos meus egoísmos e prazeres, mais facilmente estarei feliz e contente, porque estarei sendo alimentado por um alimento que satisfaz muito mais as minhas ânsias de felicidade que é o amor.
            Concordo que, às vezes, pode ser difícil vencer o nosso egoísmo ou o nosso comodismo, e que brilhem mais aos nossos olhos “jogar no time de vôlei”, “ir no carro no banco da frente” e “ficar deitado no sofá vendo um filme atrás do outro”. Pode ser difícil, mais ainda,  se não paramos de ouvir e ver isto nas novelas, nos comerciais de televisão e nos filmes. Concordo!
            Concordo que nos faltam exemplos que nos puxem para cima e nos estimulem a não nos entregarmos nos “braços de morfeu”.
            Mas este é exatamente o objetivo deste folheto: que você comece a ser esse exemplo! Que descubra na prática, na sua própria vida, a alegria de um coração enamorado, de um coração que vai crescendo cada dia nessa capacidade de amar os outros, que vai conseguindo pisotear um pouquinho  o próprio EU, sacrificando-se pelos outros que ama. Você é capaz de imaginar o estrago que causa uma fogueira que começa a pegar fogo numa floresta úmida e fria? Pois é exatamente isso que você precisa experimentar na sua família, com os seus amigos, na sua classe da escola e da faculdade. Você vai ver que é bem possível mudar muitos ambientes que hoje talvez estejam um pouco frios e descontentes…
            Nunca esquecerei de uma família bem numerosa, em São Paulo, de quinze irmãos, onde fui muito amigo de todos. Como se estava bem dentro daquela casa. Experimentava-se o calor de lar que vinha justamente da somatória do calor de cada coração enamorado da família. Os pais extravasavam amor entre si e pelos filhos. Um dia, um dos rapazes teve um acidente de  trânsito, grave, salvou-se por milagre, e foi aí que pude comprovar a veracidade daquele amor que antes apenas vislumbrava na família. Em todos aqueles dias de recuperação e convalescença, era tal a preocupação dos quatorze irmãos pelo “tesouro” da casa, que ninguém pensava duas vezes quando precisava faltar ao trabalho ou à escola para acompanhá-lo no quarto, levá-lo ao médico, ajudá-lo a distrair-se… Um dia fui visitá-lo na sua casa e se notava que aquele calor de lar tinha aumentado! Logo me trouxeram um bolo e um café. Respirava-se serenidade e paz. Custou-me sair dali. Penso que foi nesse dia que me decidi a escrever este folheto…
            Um dos maiores mestres da amizade deste nosso século - o Beato José Maria Escrivá - em um de seus livros de pensamentos - Sulco - tem um deles que, quem conhece com profundidade a sua vida de infinitas dificuldades e apertos econômicos do todos os gêneros, sabe que o experimentava em sua carne e em seu coração: “ O que é preciso para conseguir a felicidade não é uma vida cômoda mas um coração enamorado”3.
            No dia que um amigo seu vier-lhe contar “alegremente” as aventuras de uma viagem que realizou sozinho pela Europa ou pela Disney; quando você ficar invejando um outro que saiu da casa dos pais para morar sozinho, sem amarras e “cheio de liberdade”; e ainda um terceiro que passou o fim de semana vendo um filme atrás do outro, desconfie! Duvide! E inverta o pensamento de Mons. Escrivá: “o que é preciso para conseguir a infelicidade é uma vida cômoda e um coração egoísta”. A esta vida de homem tristonho e solitário costumo chamá-la de “homem bolha”.

Os perigos do homem bolha

            Uma vez vi num programa de televisão uma reportagem de um menino que precisava, para sobreviver, morar numa bolha. O seu organismo não possuía anticorpos e sem esta superproteção a todo tipo de micróbios, morreria no primeiro contágio.
            Hoje em dia, algumas famílias preocupadas com o ambiente de insegurança, de permissivismo, de hedonismo e outros “ismos”, ambiente que nenhum educador pode negar que existe e que não haja que se preocupar, adotam uma solução que na minha opinião é prejudicial e incorreta: colocam o filho numa autêntica “bolha” desde pequeno. Na infância vão lhe dando todos os tipos de brinquedos para ir se acostumando ao quarto (à bolha), quando cresce, vão dando-lhe o computador, depois o aparelho de som, depois a TV, vídeo cassete, ar-condicionado, telefone sem-fio, frigo-bar…, de tal modo que, sem perceber, o filho prefira ficar em casa do que na rua e assim se desenvolva sem problemas de contágio e de perigos e seja um menino “feliz”… Poderíamos dizer com toda segurança que ao invés de tentar preservar o filho de uma doença - como acontece no exemplo referido acima - eles mesmos vão causando a doença, infelizmente, sem notá-lo. Vão fazendo que o filho não tenha anticorpos para vencer depois as dificuldades que a vida traz consigo e no futuro sucumbirão. Serão pessoas medrosas, inseguras, fracas de vontade, egoístas e, o que é pior, SEM AMIGOS! E sem amigos, as desvantagens são imensas como acabamos de ver.
            Uma solução portanto para “proteger” bem os filhos do ambiente em que se encontram não é colocá-los em bolhas, mas é furá-las quando começam a se formar! É colocá-los rodeados de amigos, ensinando-lhes a escolher bem os amigos, conversando com eles todos os dias, sobre as suas dificuldades e adiantando-se com os seus problemas. Que comecem a descobrir a importância da oração e da graça de Deus. Enfim, que tenham confiança nos pais e os pais nos filhos.
            Lembro-me de uma família muito bem constituída no Rio de Janeiro que me dizia que a pressão de uma boa educação familiar, constituída por carinho, diálogo e principalmente bom exemplo dos pais é sempre mais forte que a pressão que possa haver no colégio, na rua, na TV, nas festas, nas viagens. Se lhes ensinamos o auto-controle, dando-lhes sentido para as coisas e para os seus gostos. Se, com o nosso exemplo, mostramo-lhes o que são valores - tudo aquilo que dignifica o homem e os ajuda a abrirem-se para os demais - e o que não são. Se lhes ensinamos a educar a sua vontade em casa, mostrando-lhes a diferença entre desejar e querer as coisas (estas é que custam), então podemos estar tranqüilos com os filhos que se comportarão com grande dignidade.
            Portanto, meu caro leitor, caso você esteja hoje numa “bolha”, pegue hoje mesmo um bom alfinete e comece a furá-la e a furar a dos seus “amigos-bolha”! Explique-lhes as vantagens que é ter muitos amigos e amigos bons. E se você está nela só de vez em quando - fins de semana, férias, feriados prolongados - destrua-a também porque um dia sem amigos é um dia perdido.
            Um dia um dos meus amigos do Centro Cultural me disse que estava fazendo inglês num curso de Inglês de renome numa das turmas especiais, pois pretendia aprender a língua a “passos rápidos”. Por incrível coincidência, uns meses depois, cruzei com outro que fazia exatamente o mesmo curso, na mesma turma, no mesmo horário. Como reação normal, perguntei-lhe em seguida: “- E você, conhece fulano?” -” Fulano? Acho que não.”- “ Mas ele está na sua classe já faz três meses, tem óculos, é baixinho e adora violino…” -” Eh! É possível que seja mesmo, mas sabe, sempre chego meio atrasado e saio correndo…”.
            Quando este meu amigo me falava isto com toda a sinceridade, logo me lembrei deste mundo de bolhas em que muitas vivem e que dá pena…
            Quantos estão desperdiçando a vida…
            Que vida mais utilitarista…
            Que vida mais sem graça…

CAPÍTULO 3:  As dificuldades

Amizades naturais e conquistadas

            Se nós examinarmos a maior parte dos amigos que temos hoje ou que tivemos no passado, veremos que a imensa maioria são o que chamei de amizades naturais, isto é, que não nos custaram muito esforço. Surgiram como que naturalmente, embaladas nessa “misteriosa afinidade” que nos referimos nas páginas anteriores. Amigos que através da “admiração mútua” fizemos na nossa sala de aula, no time do colégio, no playground do prédio, no judô, no conservatório musical, na academia de ginástica.
            Perguntemo-nos: o que é que facilitou essas amizades, o que tornou possível essa admiração mútua? A resposta é muito simples: um ambiente comum. Um espaço comum. O espaço vem antes da admiração mútua. Você naturalmente entrou ou fizeram-lhe entrar nesse espaço - seus pais, seus irmãos, seus amigos -  permitiu-lhe você admirar e ser admirado por alguém e na medida em que você se sacrificou mais ou menos por ele, se tornou mais ou menos  amigo.
            As amizades conquistadas são diferentes: não surgem naturalmente. Custam-nos muito fazê-las. Exigem de nós, em primeiro lugar, criar um espaço, como começar a freqüentar mais as quadras esportivas do meu prédio, convidar-me para ir na casa do meu amigo de classe, ir conhecer as pessoas da outra classe ou do outro andar do meu colégio ou da minha turma de inglês, entrar como sócio de uma biblioteca circulante, etc.. E depois exige de nós vencer as dificuldades próprias da convivência humana que mostraremos em seguida.
            Por que estou diferenciando estas duas amizades? Para mostrar-lhe que muitas vezes é esse o motivo pelo qual as nossas amizades são fracas. Em muitas ocasiões, não existe uma amizade verdadeira mas uma aparência de amizade. Basta mudar de colégio, de bairro, de período escolar para desabar toda uma “amizade”. E por que? Porque não nos custou esforço e não estavam enraizadas no amor. Talvez houvesse mais que um coleguismo, talvez houvesse um carinho e uma admiração verdadeiros pelo nosso amigo, mas eram laços de amizade fracos.
            Para haver amizade é preciso querer ter amigos. É preciso querer enxergar o quanto bem dependem os outros de mim.
            Existe um ditado africano que diz: “Quando se tem um amigo no alto de uma montanha, não se medem esforços para subir a montanha para estar com ele”.  Quando se quer ajudar a muitas pessoas a serem felizes, então não se medem os esforços que se necessita para se conseguir esse ideal.
            Um dos maiores esforços é vencer as resistências que estão dentro de nós! Construir uma amizade exige a superação das minhas próprias limitações e exige saber conviver com as limitações dos demais. Quando se pensa que os outros fazem amigos com facilidade e eu sou muito limitado, não acredite nesse pensamento! Amizade sem esforço não existe, ou é muito fraca ou é apenas de literatura.
            Mas atenção agora para mais um “segredo”: a superação das dificuldades próprias de uma amizade é o que justamente vai tornando-as mais fortes, mais amadurecidas, mais purificadas, mais verdadeiras.
            Então, quando lhe custar sair de casa para ir ajudar um amigo de classe; quando sofrer a tentação de deixar de telefonar para um outro para convidá-lo para uma palestra de formação; quando você estiver vencendo a timidez e perguntar a um terceiro o por quê de sua tristeza, então você estará dando um passo importante na sua maturidade humana e na conquista das verdadeiras amizades, porque você começou a pensar mais nos outros e esquecer-se de si mesmo. Começou a descobrir o que é realmente a amizade.
            Não diga: “porque sou preguiçoso não tenho amigos”; “porque sou tímido então fico em casa”; diga ao contrário: porque quero ter muitos amigos, então venço a minha preguiça; porque quero ajudar os que estão à minha volta então venço a timidez.
            Concluamos, portanto, que conquistar uma amizade, muito mais que conseguir que alguém goste de mim para que possa beneficiar-me dela está em que eu mereça a sua amizade pelo real interesse que lhe demonstro, sacrificando-me por ela.

Dificuldades internas e externas

            Sem querer ser exaustivo e pretender enumerar todas as dificuldades internas que costumamos sentir ao começar ou manter uma amizade, gostaria ao menos sobressair as principais, as mais comuns e juntos  acharmos as possíveis soluções.
            A primeira, a mais comum, sem dúvida é a preguiça. Nos custa sair, muitas vezes, da “bolha” para estar com os amigos. A “bolha” do nosso conforto que encontramos num quarto todo equipado.  Outras vezes, a “bolha” do nosso estudo, que nos cega para o “resto”... A “bolha” de um esporte, que para não perder a vaga no time principal “sacrificamos” o tempo que teríamos para os nossos amigos. Outras vezes, nos custa pegar um ônibus, procurar um amigo na saída do colégio, organizar uma festa..... A inércia é própria da natureza humana! Para vencê-la, além do esforço da vontade que exige alcançar qualquer meta na vida, ajuda muito um mínimo de planejamento. Estipular um horário mais ou menos fixo para  estar com os nossos amigos. Pode ser estudar juntos, em alguns dias da semana. Nos fins de tarde, dedicar-me a alguns hobbies com eles. Antes do jantar, acostumar-me a dar alguns telefonemas, combinando os planos para o dia seguinte ou para o fim de semana. Se garantirmos por semana uns horários para os nossos amigos e todas as semanas nos exercitamos em “bolar” planos, em ter iniciativas, em preocuparmos  pelas suas coisas, veremos que esses pequenos vencimentos serão suficientes para irmos dominando a preguiça.
            Como vemos, vencer a preguiça física exige vencer antes a preguiça mental. Quem não pensa nos outros, não ama aos outros,  apesar de gostar dos outros. Mas já falaremos disto daqui a pouco.....
            Outra dificuldade que costumamos encontrar é o próprio egoísmo. Todos nós temos uma forte tendência a que nos sirvam, que nos satisfaçam os gostos, que nos bajulem, e de pegar o melhor, de escolher o mais fácil, de ficar com as nossas coisas.
            Não se estranhe que sejamos assim! Todos somos assim, uns mais, outros menos, umas épocas mais, outras menos. Mas temos que, aos poucos, enfraquecer este inimigo da amizade. Assim como na preguiça, o que ajuda é  concretizar pequenas pontos de luta diários e semanais que saibamos ir vencendo: ajudar a minha mãe a colocar a mesa para o jantar;  emprestar o computador sem reclamar;  dedicar um tempo para explicar a lição para a minha irmã; oferecer-me para consertar no fim de semana alguma coisa na casa: uma fechadura, trocar as lâmpadas queimadas, lavar o carro, etc.
            Ouvi contar uma história que exemplifica muitas vezes as nossas refeições familiares.
            Dois irmãos aguardavam a vez de se servir do “bife a cavalo” que sua mãe lhes tinha preparado. Primeiro se serviu o dono de casa, depois a avó, depois a irmã mais velha. Enquanto isso, os dois irmãos iam de soslaio, averiguando quais os que iam sobrando para eles. Antes disso, se serviu ainda a mãe e no final sobraram dois bifes: um grandão e uma pequinininho. O irmão que primeiro se serviu, pegou, sem hesitar, logo o maior, e nesse instante o último, de temperamento impulsivo, disse “- Poxa, mas você é um egoísta!” -” Mas por que ? “,  perguntou o que se serviu primeiro -” Porque você pegou o bife maior !” -” E você que teria feito?”  -” Eu teria pego o menor !”.   Então, com cara de ironia o irmão respondeu : “- Se você teria pego o menor aí o tem....”.
            Como vemos, o egoísmo é a tendência que, infelizmente, nos invade o coração com muita freqüência. Temos que nos decidir a arrancá-lo, justamente aproveitando essas ocasiões que se apresentam na nossa vida, e abrir mão dos “bifes maiores” que todos dias podemos generosamente ceder.....
            Outra dificuldade freqüente na amizade é sem dúvida a falta de correspondência dos outros. Quantas vezes já ouvi, como aquele meu amigo que relatei nas paginas anteriores,  pessoas reclamarem que os seus amigos não telefonam para eles, que mancam aos compromissos sem qualquer escrúpulo, que não são leais e às vezes falam mal pelas costas, que não se sacrificam por eles, etc., etc. Efetivamente, é uma realidade que não posso negar que muitas vezes custa a aceitar e pode nos causar muitos desânimos. Humilha ficar esperando uma hora um amigo numa biblioteca pública quando sabemos depois que ficou dormindo em casa.
            Pensemos um pouco: quais eram mesmo as duas dificuldades que nos referimos anteriormente? Preguiça e egoísmo. Uh!   Justamente, as mesmas que também têm os    nossos amigos ..... Por isso, penso que diante de todas as faltas de correspondência,  uma primeira dose de compreensão sempre nos fará muito bem. Depois, obviamente, devemos pensar que a amizade exige admiração mútua e algumas vezes a outra parte demora para descobrir  o valor do outro. A “bolha” dele lhe cega para ver com nitidez.... Desta forma, tenho a certeza que se você demonstra compreensão, bom humor diante das mancadas dos seus amigos, e continua insistindo esbanjando carinho, espírito de sacrifício, convidando-lhes para outros planos a maioria se dará conta e corresponderá. Outros, talvez, prefiram continuar um pouco mais de tempo na sua “bolha”,  mas quando estiverem em dificuldades se lembrarão de você... E muitos outros ainda, infelizmente, morrerão asfixiados na sua própria “bolha”.
            Portanto, não desanime nem na primeira, nem na segunda, nem na terceira... E tem mais: lembre-se que quem se sacrifica pelos outros, nunca sai perdendo e sempre sai ganhando!
            Outra dificuldade muito comum nos dias de hoje é a timidez, o apego à própria imagem.  Custa-nos ter a iniciativa de lançar-nos a perguntar o nome, a saber onde mora e dar-nos a conhecer. Temos receio que descubram que somos de condução econômica inferior ou que não somos tão inteligentes. Achamos que se dizemos o que pensamos podemos perder o amigo porque vai contra as suas idéias ou gostos ou porque podemos não ser aceitos pelo “grupo”; moldamo-nos aos que os outros dizem ao que está na moda, no colégio ou na rua, ao que pega bem simplesmente para ser “in” e não ser rotulado de “out” ou outras coisas mais. Enfim, poderíamos continuar com outros exemplos mais ou menos interligados, mas penso que você leitor já percebeu que todos nós sofremos um pouquinho com a danada vaidade. Ela também nos complica muito e nos tira muitas energias para chegar à verdadeira amizade. Penso, porém, que também podemos dar-lhe uns bons socos na “barriga”, enfraquecendo-lha!
            Pense, em primeiro lugar, numa frase de um dos diretores de uma agência de publicidade das mais bem sucedidas de São Paulo: “A verdade sempre vende”. Quando nos damos a conhecer como somos é quando mais nos valorizamos como pessoas e portanto mais atrairemos as pessoas boas! Verdade ou não é que você já conheceu alguma vez na sua vida uma pessoa de temperamento simples, alegre, extrovertida, despreocupada, que, mantendo a necessária prudência e educação, não tinha vergonha de falar o que pensava das coisas, das pessoas e até de si mesma e era uma pessoa que atraía, que estava sempre cheia de amigos. A verdade em si é atraente! Portanto, no dia que sua imaginação lhe vier com pensamentos de simulação, de duplicidade de vida, ou até mesmo de insinceridade não caia nessa. Você talvez consiga “votos” em curto prazo, mas a médio e longo prazo o fracasso - lhe prometo - já está garantido! Não esqueça nunca daquele ditado que sua avó lhe repetia sempre pois é uma das verdades mais comprovadas por você que “a mentira tem pernas curtas”. Logo se descobre que fulano não é “aquela bola toda”; que sicrano é só fachada mas na hora do “vamos ver” é um covardinho que foge de qualquer coisa; que bengano é só sentimento, mas na hora de colocar o ombro, sai de fininho…
            É tão frustrante descobrir a verdade de alguém ou de alguma coisa que se pensava o contrário.
             Recordo-me agora de um presente que ganhei, faz muitos anos, no Natal: uns óculos escuros, Ray-Ban, que estavam na moda. A minha alegria foi grande e nesse mesmo dia saí à rua para estreá-los e por assim dizer mostrar-me para “o pessoal da rua”. Grande festa, um pouco de gozação, alguma inveja… De repente, um deles que trabalhava no ramo me disse sem duvidar: - “São falsos!” -” Como?”, disse eu subindo-me o sangue à cabeça. “- Os legítimos têm um número bem pequeno na lateral de um das hastes e virando os óculos ao contrário você tem que achar uma inscrição que diga “B&L - Made USA”. Fiquei decepcionadíssimo. A humilhação foi completa. Confesso que nunca mais os usei e prefiro não dizer quem mos deu…
            Às vezes não é a vaidade que nos domina, mas sim a timidez. O medo de ficar mal, de que me vão gozar, que vou dar um fora. Está certo que isto está muito ligado, a maioria das vezes, a um tipo de temperamento e que quase sempre é fruto de uma educação familiar um pouco possessivo. De qualquer forma, não podemos nos impressionar que “sintamos” receio, medo, vergonha, o importante é vencer estas resistências internas não consentindo nelas! A grande aliada a estas resistências é novamente a imaginação. Normalmente, ela nos agiganta as dificuldades para que não nos movamos. “Se lhe pergunto isto, vou ficar péssimo”. “Se lhe convido para vir na minha casa, vai pensar que estou com interesses”. “Se organizo este passeio no Domingo, ninguém vai topar”. Uma vez vi um Outdoor muito sugestivo que não me saiu nunca mais da cabeça. Fazia propaganda contra um concorrente mais forte. Dizia assim: “O gigante que você vê é apenas a sombra de um anãozinho”. Quantas vezes nós mesmos não experimentamos a verdade desta frase e vencendo o medo do gigante de “perguntar”, de “convidar”, de “organizar” , fomos nos aproximando dos outros e percebemos que o nosso amigo ficou muito contente em começarmos uma conversa sobre o futebol de domingo (era essa a pergunta que queria fazer) ou que o outro adorou vir na nossa casa e já  nos convidou para ir à dele e que o passeio de domingo foi um sucesso. Portanto, meu caro leitor, lance-se com audácia e não dê confiança aos seus temores…
            Uma última dificuldade interna que noto que é bastante comum para fazer uma verdadeira amizade é demorar a confiar nas pessoas. Sem dúvida, uma amizade sem confiança, é uma amizade ainda bastante fraca. Normalmente, ela é fruto de algum pequeno trauma na infância - uma pequena deslealdade de um colega na rua de não guardar a sete chaves um segredo; um assalto na rua; uma gozação em público da nossa reputação pessoal ou familiar; outras vezes é fruto do nosso temperamento mais fleumático, racional, frio que não se impressiona por nada; e outras vezes ainda é fruto de uma supermamãe que nos seus maiores zelos maternos talvez passasse um pouco na medida com os seus: “e quem é fulano?”; “onde mora sicrano?”; “cuidado com bengano!”. Se nós mais uma vez formos ao dicionário e procurarmos os diversos significados da palavra “confiar” veremos que poderão nos ajudar. Confiar: “Boa fama; tem crédito; segurança; bom conceito que inspiram as pessoas de probidade, talento, discrição; esperança firme; etc”4.
            Sentir desconfiança das pessoas à primeira vista é uma coisa boa! É sinal que somos pessoas que pensamos com a cabeça e não com o coração. Mas precisamos ir dando passos para frente. O primeiro é este, inspirado no nosso Aurélio: conhecer mais as pessoas. Se interessar mais por elas. A maioria das vezes, quando nós vamos conhecendo com mais profundidade os nossos amigos e vamos tendo mais dados fica mais fácil dar-lhes crédito, dar-nos segurança e inspirar-nos um conceito acertado. Como às vezes somos um pouco “bolhas” e não temos o hábito de nos interessar pelas pessoas, vamos “rotulando” as pessoas pelas primeiras impressões sentimentais que nos causam e isto é péssimo! Engana tanto para bem quanto para mal. Quando sabemos que fulano é de uma família bem constituída, é estudioso e tira boas notas, aproveita bem o tempo e no período que não está na escola se dedica a melhorar sua formação cultural e a praticar algum esporte. Que tem amigos e organiza planos diversos para estar com eles. É coerente com a sua religião e tem a suficiente personalidade para não se envergonhar diante dos amigos e de dizer que a pratica com toda a fé. Que no relacionamento com as meninas é respeitoso e amável e sabe ver, mais que as aparências de um “rostinho e corpinho bonitinho” as belezas interiores. Quando sabemos isto não fica fácil confiar?
            Daqui podemos terminar concluindo que para confiar nas pessoas precisamos conhecê-las e conhecê-las bem, com profundidade, olhando não o que oferece à primeira vista, mas, com naturalidade e simpatia, ir enxergando o real valor de cada pessoa .
            Não se esqueça, porém, que, assim como a admiração, a confiança também tem que ser mútua. Se você se dá a conhecer com facilidade; se você vai abrindo com prudência a sua alma; se você vai confiando pequenos favores, algumas confidências, algum outro segredo você pode ter a certeza que no final esta dificuldade da desconfiança deixará de existir.
            Com relação às dificuldades externas, um pouco mais fácil de superá-las que as internas, sem querer estender-me demasiadamente, vou tentar enumerar algumas e procurar dar também  algumas possíveis soluções.
            A primeira dificuldade, sem dúvida, é aprender a conciliar temperamentos diferentes, aceitar os defeitos dos outros e adaptar-se a gostos e idéias opostos. Quantas vezes, quando se começa uma amizade, se depara com alguma destas realidades e logo se pensa que são obstáculos para continuar nessa amizade… Quantas vezes, por causa destes transtornos, se anda na busca daquele amigo ideal que tenha o mesmo temperamento, nenhum defeito que nos incomode e que possua os mesmos gostos e idéias… e não se acha…porque não existe! Talvez nos livros, no cinema se possam criar situações destas, mas a realidade da vida quotidiana nos diz que aquele sentimental que falamos atrás nunca acaba as coisas que começa, vive sempre no mundo dos sonhos e foge das dificuldades ao invés de enfrentá-las; que o apaixonado é imprudente e compra aquilo que não deve; que irrita-se facilmente com os outros e que gosta de ser o centros das atenções - o “Rei” da festa -; que o fleumático está sempre de cara fechada, metido nas suas coisas, andando com ar emproado e se achando um “bonzão”; e que o apático é um preguiçoso olímpico, nunca topa uma idéia diferente e é um “bola murcha”…
            Além do mais, encontramos também aquele que apesar de ter conosco alguns pontos em comum, só sabe falar da escola ou da faculdade; que nunca topa um plano esportivo que propomos ou então, pelo contrário, só sabe falar de futebol, de carro, de praia…
            Enfim, diante desta diversidade de pessoas e multiplicidade de gostos, confesso que às vezes a amizade possa parecer difícil ou até impossível. Mas voltemos mais uma vez para a definição de amizade: “é uma admiração mútua que procura livremente o bem do amigo”. Temos que aprender a admirar e a compreender os diversos tipos de temperamentos. Não aceitar esta realidade é não querer aceitar a convivência humana. Cada um pela formação que recebeu da família, do colégio onde estudou, do bairro onde morou, das amizades que formou e do país onde viveu, somando à contribuição genética que recebeu dos pais mais dons e talentos pessoais, vai formando uma maneira de ser que, como já vimos, tem os seus aspectos positivos - que nos enriquecem sempre pessoalmente - e os seus aspectos negativos, que, normalmente, nos chateiam. Aqui vem o segredo: se aprendermos a fomentar o preconceito psicológico de pensar e julgar favoravelmente os outros do ponto de vista positivo - como fazem as mães - vendo as suas qualidades, os seus êxitos, as suas virtudes e não dando muita importância para os seus defeitos, limitações, conseguiremos mais facilmente admirá-los. Depois, pensemos que a maior parte das vezes que nos irritamos com os defeitos dos outros é por dois motivos: primeiro, porque esquecemos os nossos defeitos e limitações e estamos excessivamente convencidos de nossas qualidades. Achamo-nos melhores que os outros e os olhamos admirando-nos a nós mesmos… Que acertadas são as palavras de Sulco: “Dizes que o outro está cheio de defeitos. Muito bem… Mas além de que os perfeitos só se encontram no céu, também tu arrastas os teus defeitos e, no entanto, suportam-te e, mais ainda, estimam-te: porque te querem com o amor que Jesus Cristo dava aos seus, que bem carregados andavam de misérias! Aprende!”5 Aprendamos, portanto, a olharmos mais para nós mesmos, com mais realismo, e então conseguiremos compreender mais os defeitos dos outros.
O segundo motivo pelo qual nos irritamos com os defeitos dos outros é que incomodam algum defeito nosso. É como que o defeito do outro entrasse em faísca com o nosso. Normalmente, o que é excessivamente ordenado (defeito) se irrita com a desordem do outro e vice-versa. O que tem personalidade forte se irrita com o mais manso e tranqüilo e vice-versa. O inflexível nos horários se chateia com o confuso no tempo. Penso que saber deste fenômeno ao invés de dar tanta importância aos defeitos dos outros o que mais importa é nós decidirmo-nos a arrancar o nosso e tudo fica mais fácil e mais acessível.
Admiremos, portanto, a riqueza das pessoas. Como já dizia um autor especialista na formação da juventude: “Cada pessoa tem uma “cor”, uma forma de ser, uma função a desempenhar, uma missão a cumprir. Por vezes, a falta de compreensão deriva da incapacidade que alguns têm de captar essa verdade muito simples e muito necessária; a cada personalidade diferente corresponde também uma função diferente”.6
            E o que fazer com os defeitos e limitações dos nossos amigos quando já conseguirmos dominar-nos mais e olhá-los com mais benevolência, com mais compreensão, com mais humildade? Em primeiro lugar, rezar por eles. Aqui vem a segunda parte da definição da amizade. Quando queremos o bem do amigo, então não ficamos passivos e apáticos com os seus defeitos. Desejamos que melhorem. O meio mais eficaz é, sem dúvida, a oração. Quando você reza à distância por alguém você está - a maioria das vezes sem ter consciência - crescendo em amizade. Você está fortalecendo o laço que lhe une. Quem tem irmãos ou amigos em outros países e reza por eles pode experimentar a verdade deste princípio. Reze para que esse seu amigo seja mais ordenado; para que aquele outro saia da “bolha”; para que aquele outro tenha só uma namorada e a respeite como irmã; para que aquele outro saia das bebidas e das drogas; e você estará ampliando o tamanho do seu coração porque você estará deixando de pensar em si e começando a pensar mais nos outros e a ter amigos de verdade.
            Depois, outro meio muito importante também e  eficaz é corrigi-los com caridade, que falaremos mais disto no próximo capítulo.
            Uma segunda dificuldade externa da amizade é a falta de tempo. “Não é que tenhamos grandes dificuldades internas para fazer amizades” - dizemos nós - “mas nos falta tempo!”. “Além do período que fico na escola ou na faculdade, tenho que estudar tantas horas, fazer inglês, natação, guitarra, teatro e ainda dou aulas particulares! Não tenho tempo para estar com os amigos!”
            Às vezes, todo este “pequeno furacão” de coisas para fazer pode ser de fato uma dificuldade. Fomentar uma amizade exige dedicar uma das coisas que temos mais preciosa: o tempo. Mas perguntemo-nos com sinceridade: tudo isso que você está fazendo é uma real necessidade? Você precisa mesmo fazer natação, guitarra e teatro ao mesmo tempo? Em caso afirmativo - por motivos econômicos, de saúde ou familiares - então os seus amigos devem se concentrar exatamente nessas atividades. Talvez não sejam amizades muito profundas mas são as que você deve buscar construir e fomentar. Agora, se a resposta é negativa então pense que talvez seja melhor você questionar: por que fazer tudo isto? Você verá que, com freqüência, essas atividades são justamente um álibi para não ter que dedicar-se aos amigos. São um modo de você “camuflar” a sua preguiça e o seu egoísmo, fazendo coisas que são úteis. Penso, portanto, que você tem que reconhecer que existem dentro de você aquelas dificuldades internas que você achava que não tinha e que talvez esteja precisando meditar a fundo nas vantagens de viver rodeado de amigos e não de fazer o que gosta… Aristóteles, num dado momento dos seus pensamentos sobre a amizade diz: “Serás feliz se tiveres muitos amigos !”.
            Uma terceira dificuldade externa, e muitas vezes a causa da anterior, são os pais. Com a maior boa vontade nos vão “preenchendo” a agenda com incentivos de todo o tipo de cursos, de hobbies, de línguas, de instrumentos musicais, de esportes, etc. e como nós gostamos, vamos de “cabeça”, mas com pouca “cabeça”…
            Outras vezes, com medo de que os filhos se “machuquem” ou andem com más companhias, preferem construir em seus lares pequenos mundos encantados de regalias, de comodidades, de facilidades estimulando-os a entrarem nessas “bolhas” e a permanecerem nelas…
            Por fim, os planos familiares que devem ser feitos com constância e assiduidade - visitar o avô, ir ao shopping no domingo à tarde, dar um passeio, viajar para o sítio, etc. - podem, de vez em quando, por certo rigorismo de estar em todas as festas, em todos os encontros, e em todas as viagens, desestimularem-nos a organizar algo, porque vai que chega o “decreto do papai” que nos “obriga” a cancelar tudo…
            Está certo: é uma dificuldade, mas também não acho que seja uma grande dificuldade.
            Em primeiro lugar, pense que a família é a primeira escola de virtudes. É nela que devemos começar aprendendo a viver todas elas e também a amizade. Que a função dos pais é dar-nos a melhor educação que possam. E, como qualquer pai e mãe, muitas vezes querendo agradar-nos, passam um pouco da medida do necessário. É aqui que você deve entrar: aprender a conversar com eles exatamente sobre isso. Mostrar-lhes que você prefere muito mais ir na casa de um amigo do que ficar em casa vendo televisão. Que você será mais feliz construindo, junto com outro amigo, um barco para remarem numa represa que ir novamente para o sítio. Você mesmo irá perceber que quando você se deixa conhecer melhor pelos seus pais, através do diálogo, muitas rotinas serão quebradas, muitos hábitos serão desfeitos e você conseguirá equilibrar os seus planos pessoais com os familiares. Se existe desequilíbrio sempre é por falta de diálogo de ambas as partes. Porém, para que seus pais confiem em você é preciso que você seja responsável pelos seus atos. Que saiba ser fiel aos horários da casa. Que saiba telefonar-lhes numa mudança de planos. Que lhes avise com antecedência uma festa do prédio para que o seu pai não convide um parente para jantar justamente nesse dia. Que seus pais conheçam os seus amigos e os seus familiares. Que assuma com maturidade os seus deveres escolares, se esforçando por tirar as melhores notas possíveis. Agindo desta forma não existe pai que resista!
            Como vê, os pais são uma dificuldade quando você não põem a sua parte: diálogo e responsabilidade pessoal. Quando os colocar, com a “santa diplomacia” tenho a certeza que poderá conseguir uma perfeita harmonia na sua casa.
            Uma última dificuldade, que tem aumentando de intensidade nos últimos anos, é o medo de sair de casa. Confesso que quem mora em cidades pequenas, esta dificuldade talvez não exista, mas nas grandes cidades, pelo aumento da criminalidade e da insegurança nas ruas, é bastante real. Nos Centros Culturais onde já trabalhei, onde freqüentam por ano centenas de jovens, o tema de assalto, de roubo, de venda de drogas, de brigas, etc. sempre foi um tema  bastante comum. Praticamente, não havia um que já não tivesse passado por essas tristes experiências e muitas vezes traumáticas. Com um “clima” assim de insegurança, os pais, com razão, ficam preocupados e vão facilitando ao máximo todo o tipo de caronas, de facilidades de locomoção, a tal ponto que muitos jovens hoje chegam ao ensino médio sem terem andado de ônibus sozinhos.
            Penso que a solução para esta dificuldade está em saber usar bem a virtude da prudênci . Como em todas as virtudes, sempre se pode errar por excesso e por defeito. Por excesso, na prudência,  é justamente deixar-se dominar por um medo excessivo e querer evitar por todos os meios nunca ser assaltado. Por defeito, é achar que com ele nunca haverá problema, que os seus “músculos” afastarão qualquer mau elemento e que por isso poderá voltar à hora que quiser à noite, que nunca será assaltado. Ambos os casos são desordenados e é preciso reeducar-se na virtude da prudência. Segundo Santo Agostinho a prudência “é o conhecimento das coisas que devemos apetecer ou fugir; julgar acertadamente o que é que se deve fazer; e, por fim,  atuar em conseqüência”7. Portanto, ser prudente não é ficar em casa! É pensar qual o caminho mais seguro para chegar na casa de meu amigo. Ser prudente não é pedir para a mãe vir-me buscar na festa porque está muito tarde. É julgar qual o meio de transporte que me permite ficar com segurança a tal hora. Ser prudente não é não andar com um tênis um pouco mais “requintado”, um relógio normal e algum dinheiro no bolso. É andar atento na rua, mas despreocupado, sem obsessões. Tenho certeza que se soubermos usar muito bem desta virtude os “lucros” da amizade serão muitíssimo maiores que os “prejuízos” do ambiente. Experimente e verá!


Eu gosto ou eu amo? 

            Em uma ocasião, tive a oportunidade de assistir a uma conferência do Dr. Enrique Rojas, médico-psiquiatra, espanhol, conhecido mundialmente pelos seus livros, que afirmava que um dos aspectos mais importantes na formação da personalidade de um jovem é ensiná-los a distinguir muito bem o que é gostar/desejar e o que é querer/amar. Os primeiros residem no lado sentimental-afetivo. Os segundos na vontade. Os primeiros não exigem compromisso os segundos sim.
            Transportando estas pequenas “pinceladas” para o tema que nos toca neste livro, vemos que hoje em dia, as pessoas confundem ou não sabem distinguir muito  bem estes conceitos. É freqüente ouvir: “gosto imenso de fulano” ; “adoro sicrano”; “te quero com toda alma”;  e assim outras expressões. Mas perguntemo-nos: será um amor verdadeiro ou um amor falso?  Será real ou sentimental? Aprender a distinguir muito bem um do outro é a garantia do sucesso no amor.
            O amor sentimental não procura o bem do outro -condição de verdadeira amizade- mas procura o bem para si e que o outro se sinta bem. O sentimentalista busca ficar bem diante dos outros e criar uma imagem de pessoa simpática, de pessoa bondosa. Analisando friamente, vemos que não se trata de uma bondade real, mas aparente, egoísta; e o egoísmo é o amor às avessas. Como muito bem explica um autor espiritual muito conhecido: “Trata-se de homens ou mulheres que têm bom coração e uma natural inclinação para facilitar a alegria e o bem estar dos outros. Mas a sua bondade é frágil, inconsistente. Não é autêntica porque se apóia sobre dois pilares falsos: um temperamento complacente e um sentimentalismo brando.
            Essas pessoas “bonachonas” - só “bonachonas”, não “boas” - fogem instintivamente de qualquer conflito ou estridências. Detestam cordialmente brigas e desavenças. Gostam de agradar a todo o mundo e, por isso, tendem a concordar com tudo, a ceder em tudo. A sua maior aspiração consiste em estar em paz com todos e gozar do apreço geral. Sempre nos darão razão - mesmo que não a tenhamos - contanto que com isso nos sintamos satisfeitos e não nos criem, nem lhes criemos perturbações.
            O “bondoso superficial” parece compreensivo, mas é apenas tolerante. Não é que “compreenda”, isto é, que entenda profundamente e amorosamente os outros, para assim ajudá-los. Simplesmente, concorda com tudo para ganhar, com a sua condescendência, a estima alheia.
            O “bondoso superficial”, o “bonachão”, quer ser amável, mas não ama. Não passa de um fraco, que não sabe dizer “não”. Por isso, os que com ele se relacionam, sabem que no fundo, não têm um amigo, nem um pai ou uma mãe que os ama na plena acepção da palavra; têm somente um cúmplice muito conveniente. ”8
            O amor real não depende só do sentimento, mas também e principalmente de vontade. A vontade vai à frente do sentimento e vai impondo o ritmo e comando a afetividade. Percebe-se que está passando de medida da afetividade, procura direciona-la para as obras, para o serviço, para a oração. Nota-se que os outros precisam de ajuda para melhorarem não fica “escravizado” aos sentimentos e, como um bom médico,  não tem medo de sofrer e fazer sofrer ao outro para abrir um  “inchaço” de orgulho, uma “protuberância” de preguiça e um “calombo”de sensualidade com a sua palavra amiga mas cortante e penetrante. Se sente certa aversão temperamental ou animosidade por alguém, sabe usar da sua inteligência e, se tiver da sua fé, para se esforçar e ver nela a uma pessoa, a um filho de Deus.
            Entendendo agora a diferença entre estes dois “puxões” do coração?  Por que os classifico como uma dificuldade para a amizade?  Porque, efetivamente, hoje em dia, nós tendemos a ser mais sentimentalistas que amigos de verdade. Seja pela dose excessiva de emoções que recebemos todos os dias nos jornais, nos filmes, na T.V., no erotismo em geral, na música, seja pela pouca formação cultural que recebemos na família, no colégio, na roda de amigos, etc., todos nós tendemos a pensar pouco, e a educar pouco a vontade e a sentir bastante.  E sentindo, sentindo, sentindo, vai fazendo com que só queiramos aquilo que gostamos e que não queiramos aquilo que devemos fazer, como é sacrificar-se pelos amigos. A nossa vontade vai ficando cada vez mais fraca e conseqüentemente o nosso amor mais minguado. Quantas vezes, talvez depois de um bom filme sentimental, onde toda a família chorou, você renovou um desejo (sentimento) de ser melhor filho e meia hora depois você não quis - dizendo “não” para a sua mãe- colocar a mesa para o jantar (vontade fraca). Quando eu vejo com freqüência na T.V. a exploração do sentimento: jogadora de basquete chorando após a vitória, a mãe que chora a morte do filho perdido; o rapaz que encontra a mãe depois de uns meses no cativeiro; a baleia que os ecologistas salvam; etc, sempre penso: “estão querendo cortar-me a cabeça - que é o que me valoriza como homem e me diferencia dos animais - e colocar-me no lugar um coração egoísta, de modo que pense com o coração”. Espero que você, meu caro leitor, tenha a suficiente lucidez para reagir a situações deste tipo e mude rapidamente de canal, não deixando que o transformem em um coração andando pela vida, batendo de ansiedade de amor…ou que o transformem em um animal que parou de pensar e usa uma “ inteligência emocional”!
            Que fazer, então, para driblar esta dificuldade? Em primeiro lugar, fazer exercícios diários de inteligência: ler um bom livro, ler o jornal, escrever, meditar no que se lê, exercitar a memória e a imaginação em jogos em família e se você é estudante dedicando várias horas  do seu tempo ao estudo.
            Depois exercitando a vontade, tendo um horário fixo para fazer todas as suas obrigações; não se permitir comer, dormir, ver T.V., escutar música, fora dos horários combinados por você mesmo; controlar todo o prazer, colocando-lhe limites e medidas, conforme o fim para o qual foi colocado esse prazer, etc.
            Quando sentir que já consegue lutar com as potências da alma - inteligência e vontade- então você vai conseguir - como já dizíamos - dominar, controlar, moderar e DIRECIONAR OS SENTIMENTOS, usando-os para o bem e afastando-os do mal. Os sentimentos quando bem direcionados fortalecem a vontade, fortalecem o amor; quando não, quando os deixamos ao “gosto do freguês”, então os enfraquecem.
            Portanto, se você quer checar como está o seu amor pelos seus amigos, esses que você tem agora e convivem todos os dias com você, pergunte-se: estou preocupado realmente pela sua felicidade? Sei sacrificar-me por eles todos os dias para lhes ajudar no caminho da vida principalmente quando lhes aparece alguma dificuldade como é a falta de tempo, a falta de talentos,  a falta de experiência ou a falta de saúde? Fico inquieto quando, às vezes, vejo-os indo pelo mau caminho e procuro corrigir-lhes com carinho, mas com a fortaleza e a energia necessária? Sei despertar-lhes, numa conversa amiga, inquietações de ideais mais altos e de preocupações pelos outros?
            Diz um ditado antigo que: “quem diz as verdades, perde as amizades”. Talvez este seja um pouco o seu medo. Confesso-lhe que é um risco que se corre, mas também é um modo de testar o conteúdo real da amizade verdadeira entre duas pessoas. Mons. Escrivá com freqüência dizia para os seus filhos espirituais: “Meus filhos, vos quero, mas vos quero santos, vos quero felizes”, e, por isso, não duvidava em inúmeras ocasiões corrigir-lhes com firmeza, como um bom pai e um bom amigo têm que fazer algumas vezes.
           
As boas e as más amizades: como distingui-las?

            Depois de ter examinado as dificuldades mais comuns para a construção de uma boa amizade, resta-nos esta última que é uma pergunta que com muita periodicidade tenho que responder como educador: como distinguir as boas e as más amizades?
            Com tudo o que já foi explicado nas páginas anteriores, penso que já fica fácil definir com exatidão o que é uma boa amizade. Primeiro, quando entre duas pessoas existe uma admiração mútua com conteúdo, com consistência, não se fica só no externo, no agradável, no que satisfaz, mas admiram-se as virtudes, as qualidades, os dons. Assim como quando eu vou examinar se um carro é bom não fico apenas vendo o visual, mas observo o motor e o conforto por dentro, etc.. Além desta admiração mútua, deve existir, em segundo lugar, um grande grau de sacrifício pelo outro, a toda prova, e se dispor a dar a vida, se for necessário, pelo amigo.
            Uma amizade fraca, boa também, é quando este segundo aspecto é encharcado de sentimentalismo, apesar de haver momentos isolados de generosidade.
            Uma amizade ruim é quando não existe quase nada de bom para admirar no outro ou em ambos e não se esforçam por melhorar. É quando ao invés de “subirem a ladeira” da perfeição estão se deixando levar para baixo, a caminho da perdição. Pode parecer uma amizade sincera e verdadeira, como se vê, muitas vezes, em grupos de adolescentes, andando de festa em festa nos fins de semana e totalmente dependentes de “qualquer” tipo de prazer, mas qualquer mente um pouco mais sensata sabe ver que é uma amizade descartável e suicida. É uma amizade falsa porque não estão querendo o verdadeiro BEM do amigo, mas permitindo LIVREMENTE O MAL. Acho que poderia usar novamente o “ditado” que citei no início para desvendar-lhe um outro segredo: “Diz-me com quem andas e eu te direi quem és”. Se os seus amigos são pessoas de ideais altos, que lutam por ser laboriosos, sinceros, generosos, puros, amigos, desprendidos, alegres e todos os dias se esforçam por não ceder à pressão do ambiente e lutam por crescer cada dia mais nesses ideais e nessas virtudes humanas então posso dizer-lhe que você é dos que querem chegar longe. Se, pelo contrário, os seus amigos, não têm ideais, não lutam por melhorar, só querem gozar a vida e “curtir a juventude” posso também lhe garantir que já sei como você é por dentro.
            Se você quer ser bom, e crescer na perfeição, você tem que andar com gente boa. Se você anda com gente boa, mais cedo ou mais tarde, você será bom ou melhor do que já é.
            E se podem ter amigos dos dois tipos? A resposta é: muito difícil. O fogo não casa com a água. A tendência é que os seus amigos bons vão diminuindo porque as “forças do seu amor” para com eles também vão diminuindo e eles perceberão… O egoísmo que você alimenta com os amigos ruins irá, cada vez mais, acabando com o seu amor e o entristecendo e o esvaziando.
            Portanto, meu amigo leitor, depois de termos, juntos, pensado, estudado, meditado e examinado todas as dificuldades para a construção da amizade e antes termos visto as imensas vantagens que ela traz consigo, gostaria de convidá-lo agora a percorrer comigo o penúltimo capítulo, que tem a função de ajudá-lo a sair para campo. Já conhece as dificuldades, já sabe como driblá-las, entremos em campo. A bola está no centro do gramado. Sinto já a segurança da vitória e tenho certeza que você vai se surpreender com o placar do jogo…

  CAPÍTULO 4: Os passos da amizade


Primeiros passos

            Assim como na existência humana, os primeiros passos de uma amizade sempre são mais difíceis que os seguintes. Tudo o que seja vencer uma inércia, como já vimos, nos custa esforço e é preciso superá-la vencendo todas as resistências internas e a própria sensibilidade através de uma meditação freqüente dos motivos nobres que nos devem levar a agir. Meditar nas verdades que nos diz um livro, um pai, um amigo é o caminho para tornarmo-nos pessoas de convicções e de personalidade fortes.
            O primeiro passo na amizade é abrir os olhos! É ver quem vive à nossa volta, na sala de aula, na rua, no prédio. Pode parecer muito simplório mas infelizmente hoje se encontram muitas pessoas cegas ou míopes…
            Depois, num primeiro contato, você deve ter a iniciativa de perguntar-lhes sobre as questões mais simples: o seu nome, o seu endereço, o seu colégio, os seus hobbies e atividades fora do colégio, o seu time… Ao mesmo tempo, você deve ir dando-se a conhecer informando-lhe também os seus dados preliminares. Chamaríamos a  esta primeira fase: um conhecimento geral. Repare, se você estiver interessado realmente em travar uma nova amizade nesse primeiro contato, se você está atento, já pode dar um terceiro passo, tendo novamente a iniciativa, que é convidar-se a voltar junto do colégio- já que moram perto - ;  oferecer-se a emprestar um CD de uma banda que ambos gostam;  desafiá-lo para uma partida de tênis no seu clube;  emprestar-lhe o livro de um poeta que o outro desconhece. Enfim, chamaria o começo da admiração mútua. Muitas vezes, pela desconfiança do outro ou simplesmente por não querer que ninguém o incomode na sua “bolha”, talvez este terceiro passo seja frustrado. Quantas vezes isto já aconteceu conosco! Não se importe. Continue tentando - talvez outro dia -,  mas é importante que você não “jogue a toalha”, pois esta é  a primeira vitória e você tem que ganhar! Se nos ambientes que você se encontra, você continuar com naturalidade, simpatia, simplicidade e - volto a insistir porque é necessário - com iniciativa, vencendo a passividade, reparará que levará um “gol”, mas fará outros e a “vitória” será apertada mas certa. Não desanime nesta fase da amizade. Infelizmente, muitos hoje não querem ter amigos porque não vêm nela nenhum valor. Mas outros estão esperando e é preciso que batamos à sua porta. Dizem os especialistas em petróleo que para achar um poço que seja economicamente viável é preciso furar, em média, em vinte lugares. Na amizade é o mesmo: se quisermos achar o petróleo de uma amizade “economicamente viável” é preciso também insistir até achar.
            Mas não podemos ficar somente nesta fase. Temos que ir aprofundando, temos que ir avançando. O próximo passo é conseguir demonstrar-lhe que você quer ser seu amigo. Por isso, tem que tentar novamente combinar outros planos. Tem pessoas que se encontram somente uma vez por mês, no encontro mensal de tal banda de rock. Sem dúvida que já é uma grande coisa e um começo de amizade, porém a amizade vai durar uns dois anos para firmar. É preciso, como já dissemos em umas páginas anteriores, dedicar um tempo semanal a estar com os amigos e nesses ter a iniciativa de combinar planos: estudar junto, fazer um esporte junto, montar um aeromodelo, trocar um programa de computação, assistir a um filme cultural… Nesta fase da amizade é quando se começa a firmar a amizade porque a admiração de um pelo outro começa a ser mais profunda - as circunstâncias favorecem isso - e o grau de sacrifício pode ser exercido e demonstrado: ir na casa do outro para ensinar-lhe uma matéria; emprestar-lhe um caderno porque perdeu uma aula quando estava doente; ir ao shopping ao invés de na praia jogar vôlei; pagar-lhe um refrigerante no intervalo do colégio…
            Até esta fase a grande maioria chega. Até aqui não existe nada de muito novo. É agora que você precisa dar outro passo importantíssimo para chegar na verdadeira amizade: o passo da confidência. Pouquíssimas pessoas conseguem dá-lo mas é preciso. Necessitamos perder certo receio, certo pudor de mostrar a nossa intimidade e por outro lado de querer conhecer a do nosso amigo. Assim como não existe uma verdadeira amizade enquanto dois amigos não conhecem os seus mundos familiares - chamaríamos de intimidade externa - assim também não existe enquanto não entram pelas portas de suas almas e as conhecem - chamaria de intimidade interna - .
            Penso que todos nós nos lembramos daquele dia que fomos pela primeira vez à casa de algum amigo fazer um trabalho de escola. Conhecíamos o seu comportamento na escola, as suas virtudes escolares, esportivas, talvez algumas idéias pessoais sobre diversos assuntos, o fato é que tínhamos uma imagem dele  da escola. Fomos à sua casa e … tudo se alterou.
            Recordo-me de um amigo do ensino fundamental que aconteceu exatamente isto. Achava-o uma pessoa boa, bem educada, interessante, trabalhadora. Fui um dia na sua casa para fazer um trabalho e foi um desastre. Seu quarto era uma bagunça. Para começar o trabalho tive que o convencer de largar umas “revistas inconvenientes” que me queria mostrar e que só o “estragavam”. Por fim, o trabalho era interrompido a toda a hora para ir “assaltar” a geladeira. Resultado: somente naquele dia conheci completamente o meu amigo, que infelizmente não quis mudar de comportamento. Obviamente, apesar das minhas tentativas, não quis continuar com a amizade e se foi distanciando aos poucos.
            Portanto, é preciso ir entrando e deixando entrar nesse mundo misterioso da própria intimidade, com respeito, com delicadeza, com confiança.
            Segundo um autor espiritual: “Confidência é a prática da abertura do homem ao amigo; o que favorece a convicção de que se guardarão discretamente os segredos, dando-se conselhos oportunos. Ao falar-se sinceramente, que é mero impulso anímico, se acrescenta a fé no confidente: a confiança. Estamos na pista segura sobre o trabalho da verdadeira amizade, que é a amizade de confidência9.
            Chegar à plena confiança com o amigo exige tempo. Não devemos nas primeiras conversas mostrar-lhes tudo o que passa pela nossa cabeça e pelo nosso coração. Não devemos escancarar a alma mas começar abrindo-lhes as janelas … Falar-lhe das nossas idéias profissionais, dos nossos pequenos fracassos no esporte do colégio ou do clube. Com o passar do tempo devemos subir um degrau a mais e falar das nossas preocupações familiares - o verdadeiro relacionamento com os irmãos e entre os pais - ; as nossas inquietações espirituais; e por fim, quando já houver plena confiança os nossos defeitos e tendências mais íntimas, para pedir um conselho. Segundo Ralph Waldo Emerson  “Um dos elementos que entram na composição da amizade é a verdade. Um amigo é uma pessoa com quem posso ser sincero. Diante dele posso pensar em voz alta. Cheguei finalmente a presença de um homem tão real e harmonioso que possa abandonar até mesmo aqueles mais ocultos véus de dissimulação, cortesia e segundos pensamentos, que os homens jamais põem de lado, e lidar com ele com a simplicidade e a inteireza com que um átomo reage a outro”10
            Penso que um dos grandes inimigos da paz interior – e, portanto exterior - é a carência de amigos que possamos confiar de verdade. Quantas vezes estamos inquietos por dentro com algum problema, com alguma dúvida, com certo sentimento de culpa ou de tristeza e precisamos de alguém para desabafar, para conseguir forças, luz, esperança, conselhos …e muitas vezes não achamos nos pais, nos amigos do dia-a-dia, nos irmãos.
            Se isto acontece conosco, que saibamos ver a grandeza e a responsabilidade de sermos pessoas confiáveis. Pessoas que os amigos vejam em nós aquela mão amiga que está sempre disponível para escutar e para ajudar, na medida do possível;  pessoas que transmitem confiança, não tanto por suas belas e inteligentes palavras e conselhos, mas porque se esforçam por viver as virtudes, por lutar contra os seus defeitos e se corrigem, com rapidez e humildade, quando descobrem alguma deficiência. Pessoas confiáveis porque guardam segredo de tudo o que se lhes confia.
            Mas lembre-se: a virtude da prudência  deve ser a força do braço que abre mais ou menos as “janelas” da sua alma. Nem tudo deve ser dito. “Quando o amigo comunica ao seu amigo uma vivência pessoal ou um sentimento do tipo espiritual o faz não por interesse próprio, mas sim porque lhe quer. Mas querer-lhe de verdade é querer-lhe melhor como pessoa: mais livre e mais fiel à sua vocação pessoal, mais responsável. Como lhe quer melhor lhe comunica o melhor de si mesmo. Querer ao amigo exigir também calar o que não pode entender nesse momento ou que lhe pode prejudicar”11
Entendendo bem este conselho de Castilho, na amizade deve haver um pequeno filtro que chamaríamos filtro moral. Um amigo não é um sacerdote, um psicólogo, um espectador de “strip-tease” moral, etc. é apenas um amigo que buscamos ajuda e procuramos ajudar naquele âmbito que, dentro de um bom senso e equilíbrio razoáveis, está ao alcance e nos limites de um amigo.


Manutenção e crescimento: o que fazer na prática


            Depois de termos dados já vários passos na amizade, tenho a certeza que você terá conquistado vários amigos. Quantos amigos são possíveis ter? Esta é uma pergunta que várias pessoas costumam me fazer e a resposta é muito simples: depende de cada um e das suas circunstâncias. Mas postos a colocar uma meta média, diria que em torno de 10 amigos. Note: não digo 10 colegas, conhecidos, companheiro de “favor”, etc. Digo 10 amigos de verdade que você pensa neles o tempo inteiro e está disposto a dar a vida por eles.
            Para ter com constância 10 amigos é necessário duas atitudes básicas: procurar manter as atuais e se esforçar por conseguir algum novo. Penso que a amizade pode-se comparar a uma adega, onde se guarda “o vinho da vida”. Quando está bem provida, tem “amizades antigas” que se cultivaram já faz tempo, mas por diversos motivos mútuos - mudanças de cidade, de bairro, de colégio, etc. - não estão sendo “utilizadas”, mas “envelhecendo” para um futuro próximo. Quem já tem certa idade e teve a experiência de voltar a se fixar na sua cidade antiga, ou bairro, ou colégio, ou empresa, percebeu  que o encontro com essas amizades “embriagam  bastante“. Depois deve haver amizades que vão “repondo o estoque”. São os que se tem atualmente, que sempre podem e devem crescer em intensidade, qualidade e sabor. Como? Não deixando entrar a rotina! Procurando ser criativos em detalhes de amizade, que apesar de serem pequenos dão a novidade do amor. Eis alguns exemplos: telefonar no dia do seu aniversário; visitá-lo quanto fica doente; mandar-lhe um cartão-postal de uma cidade que você está passando uns dias de descanso; organizar com os colegas de classe uma festa, surpresa; levar- lhe uma revista importante sobre a sua banda de música preferida ou do seu hobby, etc. Como você pode ver são detalhes, coisas que não exigem  muito tempo e dinheiro, mas fazem a diferença.
            Por fim, deve haver as amizades que “aumentam o estoque”. Como dizíamos, pelas diversas circunstâncias que a vida nos vai trazendo, algumas amizades não são possíveis mantê-las. Ou as deixamos envelhecendo ou morrem. Desta maneira, em algumas temporadas, como pode ser umas férias, um período de mudanças de atividades ou de circunstâncias, sempre é bom fazer um “balanço”: examinar, realmente, quais são os verdadeiros amigos e quantas “novas garrafas” será preciso “comprar” para ir mantendo a adega sempre muito bem provida. Quantos novos amigos devo colocar-me como meta para começar a conquistar. Sendo bons administradores, confesso-lhe, que é um negocio cujos “lucros” são insuspeitáveis.

Virtudes da convivência

            Uma das descobertas dos últimos anos do marketing automobilístico foi o “mundo dos acessórios”. Um  carro para trazer “todo o conforto e prazer de dirigir” como também “um certo diferencial” não bastava possuir apenas um motor potente e econômico um design moderno, uma aerodinâmica arrojada e umas marchas suaves. Precisava também de limpador de farol, ar condicionado, aparelho de som importado, cores metálicos, volantes de multi-posições, cinto de segurança automático, farol de milha.
            Poderíamos dizer também que no “marketing da amizade” não basta possuir apenas um “motor bom” (virtudes, caráter, coração enamorado), um “design” de talentos e dons naturais, uma “aerodinâmica” de recursos econômicos e umas “marchas” de esperteza. Necessitamos também de uma série de acessórios que facilitarão bastante, em todas as suas fazes, a amizade. Esses acessórios são as chamadas virtudes da convivência.
            Penso que uma das principais é a cordialidade. Uma pessoa cordial é aquela que sabe suavizar o relacionamento do dia a dia com um gesto, com uma palavra, com um olhar… Suavizar choques de temperamento, maus-humores matinais, chateações entre amigos, etc., com as cinco “palavrinhas de ouro” para o bem viver quotidiano: - Bom-dia; - perdão; - por favor; obrigado e - sempre às ordens. 12
            Outro “acessório” muito relacionado com a convivência é a alegria. Como atrai uma pessoa alegre! “No convívio diário, a alegria manifestada num sorriso oportuno ou num pequeno gesto amável, abre as portas de muitas almas que estavam a ponto de fechar-se ao diálogo ou à compreensão. A alegria anima e ajuda a superar as inúmeras contrariedades que a vida nos traz. Uma pessoa que se deixe dominar habitualmente pela tristeza e pelo pessimismo, que não lute por sair desse estado rapidamente, será sempre um lastro, um pequeno câncer”13.
            Confesso que às vezes não é fácil sorrir, principalmente quando se está sofrendo alguma contrariedade, uma doença, uma falta de tempo, uma humilhação, uma morte de um ser querido, um “muitas coisas para fazer”. Se você só pensa nas suas coisas e em você, efetivamente não será fácil sorrir. Porém, se pensa no bem dos outros, no bem do amigo, então saberá superar esse “estado de ânimo” com a força do amor e sorrir e estar alegre. É aqui que se começa a ver que você começou a entrar na maturidade.
            Outra qualidade importantíssima é o respeito mútuo. Com freqüência, achamos na convivência diária pessoas que, por alguma razão, nos parecem pouco amáveis, antipáticas ou insossas. Muitas vezes é uma apreciação errada, tirada às vezes de uma visão um pouco superficial ou de um “acidente de percurso” no esporte do colégio, na festa, no trabalho, que exageramos a realidade da pessoa com a nossa imaginação. Outras vezes, é verdadeira: a pessoa não vai com a nossa “cara”, não tem as mesmas opiniões que nós com relação à religião, ao uso do sexo, à forma de ganhar dinheiro, à política, etc.… e o “simples” cruzar com essas pessoas podem nos causar certo mal estar. Tendemos a ficar tensos e em uma atitude defensiva.
            Saibamos respeitá-los!  Você tem que aprender a distinguir o que é defender e o que é respeitar a verdade.  Defender a verdade é o que qualquer mãe, pai, irmão e AMIGO devem fazer: procurar mostrar a verdade das coisas, das pessoas, etc.,  dando argumentos sólidos, apoiados em fontes seguras e mostrando as conseqüências perigosas ou nocivas de se comportar contrariamente. Respeitar a verdade é deixar a pessoa agir conforme sua liberdade, de acordo com a “sua consciência “, que nós procuramos formá-la antes convenientemente. Somente assim uma pessoa será responsável pelos seus atos plenamente e pagará por eles. E também assim, retificará quando perceber que não estava indo por um bom caminho. Já sei que é duro ver um amigo indo por um mau caminho. Que lhe custa aceitar que ele queira andar no erro. Mas você tem que respeitá-lo, rezar por ele e aceitar as suas condições. Caso contrário, você se juntará ao “exército dos intolerantes” que é uma péssima companhia.
            Mas saiba: O seu amigo tem que o respeitar, como também aos demais membros da sociedade e por isso terá uns limites para agir e estes, você tem o direito e o dever de defendê-los da forma mais civilizada possível.

Defeitos da convivência


            Terminando este capitulo, é bom também conhecer quais são os “acessórios” que tornam o carro “cafona”. Tenho a certeza que você já terá visto pelas ruas de sua cidade esses “novo-ricos” que ganham muito dinheiro e compram um supercarro importado. Para se distinguir dos demais, colocam um friso na pintura de uma cor berrante, uma buzina de caminhão, uma mãozinha no vidro traseiro dizendo “adeus” e outras coisas do gênero que simplesmente estragam o carro.
            Penso que muitas vezes, nos também temos os nossos “acessórios que nos estragam no nosso relacionamento. São os defeitos da convivência.  Na loja de “auto-peças” existem vários desses  “acessórios”. Mostrarei somente os mais comuns.
O primeiro é o que se chama “inoportunismo”.   Falta  a  essa  pessoa um “semancômetro” para avaliar se esse é o momento certo para perguntar, pedir, convidar, lembrar, corrigir, etc.  Falta-lhe o chamado DOM DE MOMENTO.  O que importa é resolver o seu problema e livrar-se dele o quanto antes ou então fazer os seus planos  “contra tudo ou contra todos”.  É a pessoa que vê o colega com o pé engessado e sem perceber o convida para jogar “uma bolinha”.  O irmão que está triste pela derrota de seu time no final do campeonato e o convida para ver a reprise do jogo.  O pai que chega desanimado com fracasso nas vendas e sem escrúpulos pede-lhe um dinheirão  para uma viagem. Outras vezes, este  “dom de momento” não se refere somente ao momento em si, mas à intensidade dos momentos. O aluno que pergunta vinte vezes no mesmo dia em sala de aula . O filho que repete trinta vezes  que quer ir ao shopping que inaugurou ao invés do tradicional. O irmão que a toda hora incomoda o outro com interrupções inúteis ou pequenas e não sabe concentrá-los para um único momento.
Outro defeito de convivência é o pessimismo. Tem pessoas que são pessimistas por temperamento. Adoram “furar” uma proposta que um colega lhe apresenta com todo o entusiasmo, pensando sempre o pior, o mais raro de acontecer, as mil dificuldades. Já dizia uma propaganda antiga que “o pessimista é antes de tudo um chato”.  E é mesmo! Quem já teve alguém ao lado alguma vez na vida lembrará as “descargas“ que infundem essas pessoas num coração com a alegria de viver. Por favor, não seja um desses!
Outro defeito é a chamada “pouca educação”.  Não se preocupar ou não ligar para o jeito de comer na mesa, de beber, de falar, de usar o lenço, de cumprimentar conforme as regras sociais, de se vestir convenientemente, de cheirar agradavelmente, de pentear-se, de ter bom hálito, etc. Como vê, a lista é longa, mas como influi tanto estes pequenos detalhes na amizade. Quando se pensa realmente no bem dos outros, sempre se procura tornar-se agradável. Que os outros não sintam repugnância pelo meu descuido.
Infelizmente, hoje em dia, com um ambiente familiar mais “light”, mais  “livre”, os pais vão se omitindo na educação destes detalhes e muitas vezes dando mau exemplo.  Com isso, muitos filhos depois não sabem se comportar quando vão visitar um amigo, quando vão passar uns dias de férias na casa de um outro, ou, simplesmente, se vestir conforme as situações concretas que terão que enfrentar em cada momento do dia. Falta-lhes o dom de roupas! .
Quantas famílias “sem vergonha” existem hoje por aí...
Como vê, ter uma amizade, construir uma amizade exige desenvolver vários dons: dom de momento, dom  de roupas, dom de línguas, dom de gentes que é o que lhe convido agora a pensar, no próximo e último capítulo.



CAPÍTULO 5 : DOM DE GENTES



AMIZADE ENTRE PAIS E FILHOS

            Como já foi dito anteriormente, a família deve ser a primeira escola de virtudes. Deve ser nela que aprendemos os primeiros passos no modo de fazer amigos. O ambiente de intimidade e de abertura que se cultiva normalmente numa família bem constituída são qualidades essenciais que nos predispõem depois para a amizade.
            Fazer amizade entre irmãos não costuma ser muito difícil. Desde cedo, as experiências e os momentos juntos são tão intensos, que dificilmente não se consegue uma amizade a toda a prova. Independente das idades, dos temperamentos, dos gostos, das crenças, um irmão sempre é um irmão de seu sangue. Por isso, uma família com muitos irmãos, com certeza, é o maior investimento para aprender esta ciência da amizade.
            Entretanto, amizade entre pais e filhos - entre o pai, entre a mãe ou entre ambos - nem sempre é muito fácil. Está certo que existem um "milhão" de motivos para dar certo ou não essa amizade e que não é fácil destrincha-los todos agora neste final de livro. Porém, penso que pode ser proveitoso conhecer alguns fatores que influenciam negativamente neste tipo de amizade.
            O mais comum, no caso dos pais,  é uma mistura de falta tempo para estar junto com os filhos - por causa de um trabalho absorvente a maioria das vezes - com um certo cansaço. Chegam estafados em casa e o que querem é entrar na sua "bolha": colocar uma roupa mais leve, uns chinelinhos nos pés, ler as notícias no jornal ou escutá-las na TV, jantar e dar uma “dormidinha” na sala. Dar atenção aos filhos, nestes casos, é necessário ter um amor mais forte que o cansaço...
            Outras vezes, é um medo de perder a autoridade se rebaixando ao "mundo” dos filhos. Não querem ser iguais nos gostos, nos esportes, nos hobbies, com medo que a capacidade dos filhos os supere. Têm sempre uma atitude de superioridade e de distância, falando de uma cátedra. Está certo que os pais devem ter um prestígio sobre os filhos, porque gerará admiração e este é um dos elementos essenciais da amizade, mas não é suficiente se não se usa um "sintonizador" para saber descer ao nível dos filhos. Penso também que aprender dos filhos é uma das maiores sabedorias paternas.
            Um terceiro fator que dificulta a amizade é uma preocupação exagerada com "o que farão na vida", enchendo-os de cursos, hobbies, de aulas particulares, esportes, etc., ao invés de se preocuparem mais  com "o que serão", dedicando-lhes tempo para formar o seu caráter, ensinando-lhes a viver as virtudes humanas e a administrar a sua liberdade.
            Um quarto motivo cada vez mais generalizado nas famílias é a falta de capacidade de formar os filhos. Não sabem, muitas vezes,  por nunca aprenderam. Outras, porque têm medo de entrar na intimidade do filho. Certo "falso pudor". "Será que serei capaz de responder a todas as questões que me colocarem?", perguntam-se. Entre ignorância, medos e desleixos vão perdendo a chance de crescer numa das amizades mais profundas que é a amizade de confidência.
            Um último motivo que costuma dificultar a amizade entre pais e filhos é a falta de confiança. Seja por um excesso de zelo, seja por uma superproteção, os pais ficam,  mais ou menos disfarçadamente, espionando, desconfiando, questionando e como é lógico os filhos acabam por se distanciar: umas vezes internamente, mantendo as aparências e outras também externamente, evitando os planos juntos.
            Se o leitor é jovem, com certeza, estará se sentindo agora imune de culpa se por ventura a sua amizade com os seus pais não tão é forte como gostaria. Vendo todas estas razões, já terá concluído que a culpa é dele ou deles! Pois lhe digo, que não é bem assim.  A culpa também pode e muitas vezes é sua!
            Em primeiro lugar, pergunte-se: você se interessa habitualmente pelas coisas de seus  pais? Você vai com freqüência nos seus trabalhos para prestigiar-lhes e valorizar todo o esforço que fazem por você?  Você se preocupa pela sua saúde, elogia-lhes a sua elegância quando saem bem trajados para o trabalho, informa-se como vão as condições financeiras? Não pense que estas preocupações não lhe dizem respeito.   Claro que sim! É por aqui que deve começar o fortalecimento da amizade. Preocupar-se por eles, interessar-se pelas suas coisas, sentir com eles. Não é verdade que lhe falta também alguma coisa  nesse esforço de amizade?
            Outras vezes, a amizade fica difícil quando não se aceita muito os pais que se tem. Ou porque são menos cultos e estudados, ou porque são menos inteligentes, ou porque têm muitos defeitos  ou ainda porque não têm uma condição econômica igual ao dos seus amigos. A maioria das vezes estes casos se dão quando falta amor dos pais e uma boa educação. Os filhos só conseguem ver neles o que está na superfície, no que “têm obrigação de nos dar”  e  ficam cegos para o grande e impagável  dom da vida que nos deram.  É raro achar gente que chegue a estes níveis tão elevados de ingratidão, mas hoje em dia se nota - numa assustadora progressão - filhos totalmente materializados e pouquíssimo espirituais que começam a sentir certo desprezo pelos seus pais...
            Conheci, faz pouco tempo, um rapaz que com freqüência o seu pai ia buscá-lo de carro na saída das aulas. Porém, ninguém sabia que era o seu verdadeiro pai. Ele dizia ser o “motorista da família”.  Um belo dia, sua  mãe  me  convidou  para jantar na sua casa e a verdade veio à tona ... Depois de diplomaticamente fingir que não sabia da história, perguntei-lhe, em particular, porque agia assim. Respondeu-me, com um olhar um tanto quanto rancoroso: “Porque meu pai é alcoólatra e tenho vergonha que meus amigos o saibam...”. Infelizmente, este é um caso que exemplificam muitos outros hoje em dia.
            Um último obstáculo que tem crescido também muito nos últimos anos é a falta de confiança dos filhos nos pais. Talvez por não virem neles pontos de referência seguros e por terem certo “instinto para a veracidade” talvez lhes custe abrirem-se, aconselharem-se quando vêem duplicidade, falta de valores, ou ainda pouca luz. Outras vezes, esta falta de confiança vem de acharem que podem perder a liberdade se se aconselham, porque “vai que dizem exatamente o contrário que eu quero”.
            Vendo todas estas dificuldades de ambas as partes, com certeza fica fácil entendermos muitas famílias conhecidas e talvez em alguma ocasião a nossa. O que fazer?
            Penso que o grande segredo, em primeiro lugar, é defender a vida em família! Garantir todos os dias uns momentos que poderíamos chamar “sagrados” nos quais tanto os pais como os filhos os defendessem com “unhas e dentes”:  refeições em família; valorizar aquilo que havia antigamente antes da chegada da televisão - as tertúlias, os saraus familiares - depois do jantar,  onde cada um conta alguma coisa do dia que passou, outra organiza um jogo, outra toca um instrumento musical, etc. Não precisa ser muito tempo - 20, 30 minutos - mas o suficiente para que se fortaleçam os laços familiares e o espírito de serviço e compreensão.
            Outra medida prática é planejar muito bem os fins de semana, de maneira que pelo menos um meio período do sábado ou do domingo ambos passem juntos. Um tempo onde  se ajudam no conserto de alguma parte da casa;  para irem  juntos no shopping escolher uma roupa ou comprar um livro para a casa; fazer um esporte juntos ou um passeio.
            Depois, como o amor é criativo, um dia um dos dois deve ter alguma iniciativa e “forçar” um plano ou saída extra: “pai; vamos tomar uma sorvete? “; “filho: comprei dois ingressos para a estréia no cinema, vamos? “; “mãe: posso ir com a senhora no supermercado? “
            Uma dica para esses momentos mais encantadores da vida em família é aproveitá-los com a chamada “santa malícia”. Momentos para pedir um conselho, deixar cair uma inquietação interior ou exterior, fazer uma pequena correção de alguma coisa que se vê que o outro pode melhorar ou que se pode melhorar na casa.
            Além da defesa da vida em família outra medida importantíssima é garantir a unidade familiar. Estar unido não é algo que, simplesmente, sai naturalmente, como muitas vezes possa parecer. Estar de “`corpo presente” não garante nada. Exige um esforço de ambas as partes. Uma medida prática, em primeiro lugar, é rezar com freqüência pelos membros da família. Como já falamos numas páginas para trás, sempre que rezamos por alguém, estamos “misteriosamente” unindo-nos a essa pessoa. Rezar pelos defeitos do pai, pelas manias da mãe, pelas teimosias do filho, mesmo que sentimentalmente tenhamos uma pequena impaciência ou aversão, é uma forma de unir-nos a eles e de querê-los como eles são! Depois, deve haver um esforço  de garantir uns horários na casa, de maneira que ambos tenham condições de saber dizer “não” ou ao seu trabalho ou ao seu lazer e divertimento. Uma casa sem horários  é uma pensão e uma casa desunida! Uma casa em que se respeitam os horários é uma casa que existe amizade uns pelos outros, pois cada um está pendente do outro. Então, no dia que você for atrasar para chegar em casa, por motivos que justifiquem  ou ainda por capricho,  não se esqueça de telefonar ! Outra forma de manter a unidade familiar e que já falamos bastante nas dificuldades da amizade é “não ter medo” de passar um mau bocado, como um bom médico, e corrigir o outro com carinho mas sempre com fortaleza. Que amizade é essa que se vê o pai chegar todos os dias às 23:00 hs. e não se lhe fala nada ? Ou ainda o filho que não cumpre  com responsabilidade os seus deveres escolares ou os seus encargos familiares ? Mas não se esqueça de perguntar sempre para uma terceira pessoa se é o momento oportuno de corrigir, pois às vezes existem motivos que exigem saber esperar e outras que é melhor que outra pessoa o faça. Uma última idéia para manter essa unidade familiar é haver uma divisão de tarefas entre todos na casa. Responsável pela limpeza do carro, pelos consertos nos móveis, pela troca das lâmpadas, para colocar a mesa das refeições, etc. Estes tempos de “sacrifício pelo os outros” vai fortalecendo esses laços familiares.
            De tudo o que mostramos neste capítulo - poderíamos ter mostrado ainda outras medidas - uma coisa já podemos concluir: que a amizade entre pais e filhos não é a mesma coisa que entre dois irmãos ou entre dois amigos. Que os momentos de intimidade  são diferentes e menos intensos e as mentalidades distantes e diversas. Mas é possível chegar a uma amizade profunda e inesquecível. Exige que ambos coloquem esforço, coloquem amor! Um autor espiritual tinha um pensamento que sempre nos poderá servir de “slogan” quando o relacionamento com o nosso pai ou com o nosso filho estiver difícil: “Não há amor? Coloca amor. E, tirarás amor!” Experimente e verá!

AMIZADE COM PESSOAS DE OUTRO SEXO

            Durante a chamada época da puberdade (12 a 14 anos para os rapazes e 11 a 13 anos para as moças) não costuma ser comum que os rapazes tenham amigas e que as moças tenham amigos. Poderão ter colegas, conhecidos, companheiras da classe, vizinhos, primas, etc, mas chegar a um nível de amizade profunda  é incomum. O motivo é simples:  nessas idades os gostos, os afãs, os sentimentos, as imaginações, as transformações físicas e as curiosidades afetivas-sexuais são completamente diferente entre o homem e a mulher. O homem valoriza umas coisas e a mulher outras. O sentimento de vergonha também são diversos e de outra ordem e por isso é preciso um amigo de confiança - ou uma amiga, no caso das moças - para poder exercer com tranqüilidade certas confidências ou experiências.
            Depois que a pessoa chega a uma certa maturidade, então é normal que comece a andar em grupos mistos. Inicialmente, começa com uns contatos superficiais - uma festa, um trabalho de escola, etc. - mas distantes. Poderíamos chamá-los de estudo.
            Posteriormente, esses contatos tornam-se mais “avançados”, onde já existe certa amizade e um pequeno nível de confidência. É normalmente nesta idade que ocorre o primeiro namoro, quase sempre, experimental.
             Por fim, já num terceiro nível, quando esses grupos mistos,  pelo próprio desenrolar da vida e da diversidade de gostos e de ideais, vão se tornando menores,  costuma aparecer então umas amizades mais duradouras e normalmente os primeiros namoros mais sérios.
            Todas estas experiências são muito interessantes e diria que necessárias, pois cumprem uma função de conhecimento e compreensão mútuos entre pessoas de diferentes sexos. Além do mais, o contraste e a complementação entre o caráter feminino e o masculino enriquecem muitíssimo a personalidade de ambos. Muitos pais e educadores, talvez marcados por experiências tristes com outras pessoas ou noticiários alarmantes, pensam que “hoje em dia” é preferível evitar todo o tipo de contato deste tipo pois pode ser mais prudente ... Penso, que todo o rigorismo é errado, e que por isso se deve evitar os extremos: nem tanta precaução e nem tanta “liberdade”. A virtude está no meio e penso que cabe aos  pais  - e aos educadores em geral - ensinar aos filhos na teoria e na prática a achar essa medida. Mostrar-lhes a diferença entre amizade e amor. Entre sentimento e vontade. Entre desejar e querer.  Entre instinto sexual e afetividade. Quais os fins do sexo e a hierarquia desses fins. Quando se ensinam com paciência, carinho e compreensão todos esses “pequenos vulcões” interiores que todo o homem e mulher sentem, então os riscos de “pequenos estragos” são bem pequenos.
            Agora, é normal um rapaz não ter quase nenhum amigo e muitas amigas? Uma moça viver rodeada de rapazes e pouquíssimas amigas? A resposta é não! Alguma desordem está existindo, inclusive nessas mesmas amizades. Pessoalmente, sou muito avesso a padronizações e estatísticas, mas se tivesse agora que arriscar uma medida de referência, diria que a proporção mais sadia para um rapaz está em ter, num rol de 10 amigos, 7,8 amigos e 2,3 amigas. Para as moças a mesma. Talvez algum leitor, neste momento, não concorde muito comigo, principalmente se na sua classe ou na sua escola a “densidade” não facilite muito. Respeito a sua opinião e aceito de verdade que pode ser mais difícil nessas situações, mas pense comigo. Concorda comigo que, como já falamos várias vezes neste livro, que a amizade está apoiada em duas “veias mestras”: a admiração mútua e procurar o bem de forma desinteressada do outro? Espero que sim. Concorda que é muito fácil admirar uma moça carinhosa, meiga, gentil, serviçal e por essa ser admirado, principalmente se você apresenta “valores de masculinidade“? Concorda que buscar o bem do outro de forma totalmente desinteressada será muito mais difícil? Quando não existe uma dominância de amigos do próprio sexo a afetividade na amizade, principalmente na juventude, facilmente  cai num forte sentimentalismo descontrolado, num egoísmo meio requintado  e numa vaidade meio enfermiça ...Quando, por outro lado, por exemplo nos rapazes, existem amigos que tiram “lasquinhas” da sua grossura  no esporte, da sua falta de jeito para cantar, de seu modo de andar, de comer, etc. e até de sua “falta de inteligência” para conquistar as moças, você ficará mais equilibrado por dentro e nunca se achará um   “bonzão”. Portanto, meu amigo leitor, espero que você não tenha se chateado comigo e busque sempre se esforçar por  fazer amigos de forma equilibrada.
            Procure também, por fim, ser muito prudente nas amizades  com as pessoas de outro sexo. Com certeza, você já terá ouvido aquele pensamento famoso de Cristo: “o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. Amizades que numa idade não trazem o menor perigo, em outras o perigo é imenso.  Ouvi falar uma vez um ditado que parece ser bastante  didático:  “O homem é a estopa e a mulher o fósforo. O demônio quando os vê perto só tem o trabalho de soprar ”. Evite, portanto, lugares e situações que o seu “sexto sentido” sabe que podem “dar zebra”.

AMIZADE ENTRE PESSOAS DE OUTRA CONDIÇÃO

            Não costuma ser muito comum haver  fortes amizades entre pessoas de condições econômicas ou culturais muito distantes.  Aquele primeiro passo de admiração mútua, principalmente entre os mais jovens, não costuma ocorrer seja porque nessa idade as aparências externas pesam bastante e as riquezas  internas muito poucas; seja pela própria pressão da família ou do ambiente, que inibe a pessoa a  se lançar em amizades deste tipo. Normalmente, o colégio, o clube que freqüenta, os hobbies que pratica, os tipos de lazer, a roupa que veste são tão diferentes e desiguais que se necessita um grande coração e um olhar delicado para saber superar todos esses preconceitos sociais.
            Porém, será que quando se é mais maduro e já se adquiriu uma visão mais profunda da vida e da amizade será possível construir amizades deste tipo? A resposta é sim e deve ser sim. A nossa meta, neste tema da amizade,  deve ser chegar ao maior grau de elasticidade possível. Penso que quando se vai aprendendo a admirar mais as virtudes, as riquezas do coração humano, a dignidade de cada pessoa, que todas podem e devem ser felizes se colaboramos positivamente, que todas devem se realizar humana e espiritualmente, então devo me sentir na obrigação de me abrir para esses. Posso muito bem ser amigo do porteiro do meu prédio;  do motorista de ônibus que todos os dias cruzo com ele a caminho da escola ou do trabalho; do padeiro que me entrega o pão na padaria;  do guarda noturno que vigia todas as noites as ruas do meu quarteirão.
            Ouvi contar uma vez uma história real que é bastante elucidativa e pode nos dar bastantes lições neste “dom de gentes”  que estamos tentando mostrar neste último capítulo. Um casal, que tinha apenas um filho, dedicava-se “fulltime” a um trabalho absorvente, numa multinacional. A grande maioria dos dias, o filho passava as tardes sozinho  e  os pais, com a ambição de querer ter sempre mais, acabavam por chegar muitas vezes em casa já de noite e mortos de cansaço. Um belo dia, o pai teve uma “infeliz” idéia. Resolveu, depois de chegar mais cedo do trabalho,  perguntar-lhe de quem gostava mais: do pai ou da mãe. Talvez, na sua ingênua concepção da vida , pensasse que fosse  ele o escolhido, porque lhe dava mais presentes. A resposta do filho foi um “torpedo”: “gosto mais de Jorge!”. Jorge era o jardineiro. Todos os dias, quando precisava desabafar, confidenciar ou se aconselhar com alguém e precisava dos pais eles não estavam. Estava o jardineiro que era bastante paciente, atencioso, e se sacrificava realmente por ele.
            Histórias como esta todos conhecemos alguma. Entretanto, nem todo o mundo tem esta capacidade de “tornar-se como criança”. Muitas vezes, porque justamente não fomos educados na juventude a ser humildes e a abrir-se para os outros, tudo isto pode parecer meio ideal. Porém, se você vai cultivando a arte de ser amável, de ser cordial, de ser mais sorridente, de ser mais acolhedor, de ser humilde com todas as pessoas que cruzam no seu caminhar de cada dia,  tenho a plena convicção que você conseguirá um coração à medida do coração de Cristo, que é de quem terminaremos estas páginas, que se abriu e deu a vida por todas as pessoas da face da terra, sem qualquer distinção, porque para Ele só existe uma raça, a raça dos filhos de Deus.

AMIZADE COM DEUS

            Monsenhor Escrivá, no seu livro de pensamentos nos diz : “Jesus é teu amigo.- O Amigo. - Com coração de carne, como o teu. - Com olhos de olhar amabilíssimo, que choraram por Lázaro... - E tanto como a Lázaro, te ama a ti.” 14 
            Ser amigo de Jesus exige passar pelos  mesmos passos que passamos para ser amigo dos nossos amigos. Como você já terá aprendido, pela minha insistência, para você ser amigo Dele precisa, em primeiro lugar, admirá-lo! Procurar aprender ou reaprender tudo aquilo que Ele fez por você e continua fazendo. Será que você já parou alguma vez, seriamente, para pensar nas suas provas de amor pelos homens? Sendo Deus, se “rebaixou” à condição de criatura; não precisando passar por tanta dor e humilhação para nos salvar, quis obedecer ao plano salvífico de seu Pai, dando-se até ao extremo; querendo deixar uma “prova eterna” desse amor para que você e eu pudéssemos acreditar não duvidou em se humilhar mais uma vez ficando na hóstia consagrada - na eucaristia, na comunhão - disposto a ficar em muitos lugares completamente sozinho e abandonado como um “presidiário” e a ser comungado em almas completamente “imundas”; por fim, está continuamente nos “perseguindo” como um super amigo, às vezes, diretamente, dando-nos muitas graças e ajudas que nós percebemos e outras, de forma indireta, discreta, através de um amigo, de um livro, de uma intranqüilidade interior, de uma pequena tragédia.
            É preciso começar por aí: vislumbrar os “seus passos” de amizade para conosco. Depois, procurar “livremente o bem do amigo”. Será que, muitas vezes,  você também - inconscientemente - não irá buscar em Deus mais que a amizade,  interesses próprios ? Se sentir bem, se sentir “sensivelmente” contente por dentro, ou buscar algum “milagre” que lhe tire de algum apuro escolar, econômico, familiar ou de saúde?   Conforme já falamos anteriormente, quando descrevemos o perigo do sentimentalismo na amizade,  ser amigo exige justamente o contrário que é buscar alegrar o outro, fazer a vontade do outro, servir o outro ... Com Cristo, que é a forma mais acessível para iniciar uma amizade profunda com Deus, precisamos saber como alegrá-lo, como fazer a sua vontade, como servi-lo.
             Penso que a melhor maneira de alegrar a Cristo é lutar para conhecer o “caminho” que nos ensinou com a sua vida, meditar nele com freqüência e depois, livremente, através da minha inteligência iluminada pela fé, aderir a ele na minha vida de todos os dias. É identificar-se com o maior dos Amigos ! “Um amigo é um tesouro. - Quanto mais ... um Amigo!, que onde está o teu tesouro, aí está teu coração.”15. Será que Cristo já é para nós esse tesouro que não trocamos nada deste mundo?  Quando começar a ser, você vai experimentar  na prática muitas novas “sensações”.
            Depois precisamos fazer a Sua Vontade, que é viver os mandamentos de Seu Pai Deus. Será que você é ainda daqueles que não consegue “enxergar” o sentido positivo dos mandamentos? Que mais que uma forma de tirar-nos a liberdade e a felicidade é a forma mais segura de consegui-las? Quando se é jovem, seja pela falta de doutrina, seja pela imaturidade reflexiva, é fácil ser “enganado” pelos que não os querem viver ou pelos que  querem mudá-los. Caso você seja um desses, convido-lhe a fazer um breve teste - tipo propaganda de um produto novo que compara com o concorrente - que é examinar a vida de uma pessoa que luta por viver com todas as forças os mandamentos - conheço muitos! -, como ir todos os domingos na Santa Missa; procurar ser constante nas suas orações diárias; lutar contra a moleza, a sensualidade, o sentimentalismo no trabalho e nas relações com os outros através de uma lista de pequenos sacrifícios espalhados ao longo do dia; evitar os pensamentos e ações de orgulho e de ira, etc., enfim, os mandamentos mais comuns do seu mundo quotidiano   com um outro que não vive nada , que se entrega habitualmente ao que lhe dá prazer, vaidade, egoísmo, e que acha que não é preciso lutar em nada concreto, que não precisa ter horário para nada, que não precisa evitar certas ocasiões, livros, filmes, ou pessoas, enfim, alguém que vive os “seus mandamentos” que o levarão não sei para onde. Compare a vida desses dois, não do ponto de vista externo, mas do ponto interior: veja quem é que está mais realizado - humanamente e espiritualmente -, mais alegre e contente - não com aquela alegria de “animalzinho são” de madame -, mais enamorado dos outros e de Deus, mais seguro e sereno no seu caminhar da vida, mais feliz , portanto. Sou capaz de apostar com você um “milhão de dólares” pelo primeiro.
            Por fim, é preciso servi-lo. Você sabe o que quer dizer servir a Cristo na prática? À primeira vista, talvez possa  achar que é ser padre, ser monge, religioso, etc., como se essas formas fossem, se não as únicas, talvez as mais perfeitas formas de servir. Digo-lhe, que não!  Servir a Cristo é corresponder à sua vocação. Quando uma alma nasce no seio de sua mãe, quando Deus infunde-lhe a alma, nesse momento já lhe confia uma missão a realizar nesta vida. Para uns pode ser a vida religiosa, mas para a grande maioria das pessoas quer que o sirvam na sociedade, desempenhando um trabalho profissional concreto, formando uma família, colaborando numa entidade específica, etc.  Monsenhor Escrivá, fundador do Opus Dei, recebeu uma mensagem divina em 1928, que depois proclamou pelos quatro cantos da Terra, que Deus quer que nos santifiquemos, isto é, que melhoremos nas virtudes humanas e sobrenaturais e arranquemos os defeitos, que nos assemelhemos mais a Cristo, que sigamos as suas pisadas, no trabalho - talvez agora para você seja no estudo -, com o trabalho e ajudando os outros no trabalho. E dizia mais: é preciso que cada um descubra e vibre com a sua vocação profissional porque faz parte de sua vocação divina.
            Portanto, servir a Cristo é seguir a vocação divina que Jesus Cristo dá a todos os homens da face da Terra. Uma vez, escutei um exemplo que nos pode ajudar a entender melhor esta diversidade de vocações. Dizia essa pessoa que Deus, quando nos deu os mandamentos, criou uma “auto-estrada” para o céu. Os mandamentos são como esses “sinalizadores” de pista de aeroporto, que limitam mas que ajudam a conduzir o avião. Uma “auto-estrada” perfeita, com um asfalto sem buracos, segura, com curvas sem risco... Dentro dessa “auto-estrada”, Deus pintou várias “faixas” paralelas, distintas, que são os vários “caminhos “divinos da Terra. Cada homem recebe de Deus o seu,  para chegar com mais facilidade à sua Pátria definitiva.  Esse “caminho” é a sua vocação. Ela é única, pessoal, intransferível e que o tornará a pessoa mais feliz e realizada neste mundo. Importa muito que você descubra qual é a sua, desde já! Que você ande atento para perceber, através dos sintomas normais que dão as aptidões, os talentos, os sonhos, os conselhos de um amigo, alguns vislumbres intelectuais e afetivos, entusiasmos e luzes mais ou menos claras qual pode ser a sua.
Tem pessoas que a descobrem cedo, quando têm 14, 15 anos; outras mais na frente, com 20,21. E outros ainda, por fim, já na maturidade. Mas, nada como andar todos os dias dentro da “auto-estrada” e dentro da sua “faixa”. A fidelidade ao seu caminho é a grande garantia de sua felicidade.
            O Papa João Paulo II, num de seus discursos no México, dizia que a fidelidade na vida tem 4 fases bem definidas: “A busca do caminho; o seu acolhimento; a coerência em cada dia; e, por fim, a perseverança até ao último suspiro”. Espero que você comece logo pelo primeiro momento, se é que já não começou.
            Vivendo deste modo a amizade com Cristo, tenho a certeza que Ele se tornará o seu melhor Amigo. O amigo do “peito”. Você começará a perceber a Sua presença no íntimo de sua alma e do seu coração, e sem fazer esforço, enquanto anda na rua, enquanto assiste às aulas, enquanto está com os seus amigos, enquanto se diverte no shopping, você notará a Sua influência. Sentirá que terá pensamentos iguais aos seus. Que terá sentimentos de amizade, de compreensão, de compaixão. Que terá desejos de ideais mais altos e de colocar “ordem” no mundo como Ele quis. Isto é ser contemplativo no meio do mundo.
            Depois sentirá desejos de estar cada vez mais unido a Ele, de estar mais na Sua presença, e por isso você começará a recorrer mais às fontes da graça de Deus: os sacramentos - principalmente a confissão e a comunhão - ; a oração - tempos diários para conversar com Ele e para meditar na sua vida; assistir à Santa Missa aos domingos, etc.-;  e a prática de boas obras, que são as diversas ocasiões de servir aos que estão à nossa volta todos os dias, na nossa família, na nossa escola, na rua, etc.
            Monsenhor Escrivá nos diz em Caminho: “Procuras a companhia de amigos que, com sua conversa  e seu afeto, com seu convívio, te tornem mais grato o desterro deste mundo ..., embora os amigos às vezes atraiçoam. Mas... como não freqüentas cada dia com maior intensidade a companhia, a conversa com o Grande Amigo, que nunca atraiçoa ?.“16  Espero que você experimente a eficácia de fazer oração! Não precisa ser muito tempo. Basta 10, 15 minutos por dia e você começará a perceber que um “fogo” novo, uma amizade diferente, uma luz inefável o acompanhará em cada palpitar do seu coração, porque você começará a viver com um coração enamorado, desta vez agora com Amor de Deus, que é o Amor dos amores, que é o Amor com maiúscula.
             E aqui entra, o último segredo deste livro que gostaria imensamente que você descobrisse, se não agora, pelo menos um belo dia. Diria que é a grande vantagem, “a vantagem” de fazer amigos e que deixam as outras, que vimos anteriormente, numa infinita distância.
            Quando fazemos esforços para construir uma amizade, quando vamos dando os primeiros passos, os segundos, os terceiros e vamos sacrificando-nos pelos outros, outras vezes humilhando-nos, outras ainda sendo pouco correspondidos, esse amor que nasce no nosso coração como fruto da “queima” do egoísmo e do amor próprio, esse amor se transforma em Amor de Deus, porque Cristo, com a sua Encarnação, se uniu de uma forma misteriosa mas real a todos os homens.
            Ouvi uma vez uma piada que nos pode ajudar a entender esta “fusão de corações”.
            Uma pessoa doente foi um dia no médico e com a mão no pulmão direito e com uma voz cavernosa disse para o doutor: “Doutor: estou péssimo de saúde! Estou com umas dores fortíssimas no pulmão direito.” E depois, trocando a mão para o pulmão esquerdo, disse com uma voz sonora e bem humorada: “, mas Doutor, deste lado aqui estou ótimo”.
            Nós não temos dois corações: um para amar a Deus e outro para amar os homens. Só temos um, com uma grande capacidade de elasticidade. Com o mesmo coração de carne que amamos os nossos pais, irmãos, amigos, namorada, etc., com esse mesmo coração temos que amar a Cristo e com Cristo, a Deus-Pai, Deus-Espírito Santo, Nossa Senhora, São José, o nosso anjo da guarda.
            Como dizia, quando nos esforçamos para amar os outros estamos amando ao próprio Cristo, ainda que muitas vezes não tenhamos consciência, não O vejamos ou esqueçamos este conceito. Na medida em que ajudamos os outros a serem melhores com a nossa palavra, com o nosso exemplo, com as nossas correções, com os nossos serviços, com os nossos sorrisos, de alguma maneira Cristo pode crescer mais nessa alma, Cristo pode sofrer menos nessa pessoa, Cristo pode-se identificar mais com ela.
            Tenho a certeza que você já terá questionado alguma vez, talvez depois de alguma reportagem sobre o trabalho social de umas freiras com leprosos, com aidéticos, ou depois de um filme, etc.: o que estimula e o que empolga nessas freiras? O que é que será que ganham sacrificando a sua existência nuns trabalhos tão desagradáveis, humanamente falando?   A resposta é muito simples: como fruto da correspondência generosa e fiel a uma vocação específica, elas recebem uma graça, uma luz especial, uma facilidade maior para verem no mais necessitado, no excluído, etc., ao próprio Cristo. Todos esses trabalhos que em si são muitas vezes asquerosos, repugnantes, sofridos e humilhantes, feitos por Amor a Cristo lhes abrasa o coração e as enche de uma felicidade interior que não trocam por nada deste mundo.
            Uma vez, uma artista de cinema de Hollywood foi conhecer uma dessas casas de caridade da Madre Teresa de Calcutá para fazer uma doação econômica. Depois de ter percorrido alguns corredores, com leprosos, aidéticos, tuberculosos, e outros velhinhos em estado terminal, se sentiu mal, teve-se que se sentar  um tempinho numa salinha de visitas e depois como que desabafando disse: “ Eu não faria isto que vocês fazem  mas nem por um milhão de dólares.” E Madre Teresa, que a acompanhava lhe disse, com um sorriso nos lábios: “Eu também não ! Mas por amor a Cristo sim ...”. Por isso, meu caro leitor, você que tem vocação para a amizade,  quando estiver tentando ser amigo das pessoas que estão à sua volta  e experimentar as dificuldades internas e externas que descrevemos nas páginas anteriores, tenho a plena convicção que,  se você se esforçar por oferecer a Cristo esses incômodos, você conseguirá estar sempre alegre e também com um coração abrasando de felicidade.
            Em uma ocasião, Madre Teresa dizia às suas filhas espirituais: “somente no Céu nos daremos conta do quanto somos devedores aos pobres por nos terem ajudado a amar melhor a Deus.” 17
            Com esta última idéia gostaria de terminar esta conversa com você leitor. Lembre-se que quando tivermos que deixar este mundo - não saberemos nunca quando será, mas espero que tanto para você quanto para mim seja daqui a muitos anos - a única coisa que levaremos para o outro mundo será um coração enamorado. O tamanho do coração que conseguirmos ir aumentando cada dia, com os nossos esforços e a graça de Deus, será já nesta vida e depois na outra infinitamente recompensado. Experimente você mesmo desde já!
            E a caminho para isto você já sabe: um grande desejo de ter e fazer muitos amigos durante a vida, sejam amigos do Céu sejam amigos da Terra.
            Voltando àquele pensamento de Monsenhor Escrivá sobre o que é preciso para conseguir a felicidade acho que agora podemos responder com toda a convicção que não é mais uma vida cômoda, uma vida “bolha”, uma vida solitária, uma vida de viagens e divertimentos, mas um coração enamorado, um coração cheio de amigos que ficarão para sempre, para toda a eternidade.
   
NOTAS

 (1) J. Casares, Dicionário ideológico, verbete “admirar”; (2) José Maria Escrivá, Sulco, Quadrante, São Paulo, 1987, n. 749; (3) idem, n. 795; (4) Dicionário Aurélio; (5) Sulco 758; (6) Rafael Llano Cifuentes, Egoísmo e Amor, Quadrante, São Paulo, 1988, pg. 43; (7) Santo Agostinho, De Diversis quaestionibus LXXXIII, q. 6l; (8) Francisco Faus, O Homem Bom, Quadrante, São Paulo, 1990, pg. 5 e 6; (9) Vásquez de Prada, A, Estudio sobre la amistad, Rialp, Madrid, pg. 222; (10) william J. Bennet, O livro das virtudes, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993, pg. 225; (11) Geraldo Castilho Ceballos, A Educação da Amizade na família, EUNSA, Pamplona, 2. edição, 1988, pg. 53; (12) Marcos Barbosa, Programa Encontro Marcado, da Rádio Jornal do Brasil; (13) Francisco Fernández Carvajal, Falar com deus, vol. III, Quadrante, 1993, pg. 35; (14) José Maria Escrivá, Caminho, Quadrante, São Paulo, 1995, n. 422; (15) idem 421; (16) idem 88; (17) José Luis González-Balado, Madre Teresa de Calcutá, Edições Paulinas, Madri, 3. edição, 1976, pg. 52.

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