ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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A ÉTICA DO RESPEITO NA ESCOLA

             
Publicado no GAZETA DO POVO (CURITIBA) no dia 8/02/2010  [1]            


As férias escolares terminaram, as aulas recomeçam e o sadio desejo de aprender renasce em quase todo aluno. Para os professores mais jovens, é bem possível que o ideal de ensinar seja uma motivação que os leve a arregaçar as mangas e enfrentar os grandes desafios de educar. No caso dos mais vividos, é comum que os desgastes e experiências negativas do caminho percorrido já não lhes permitam tantas ilusões como aos mais novos, e que o novo período letivo se transforme em mais um ano que os aproxima da sonhada aposentadoria.
                Vários estudos educacionais têm mostrado que este anseio dos professores mais experientes surge cada vez mais cedo. Antigamente, o professor antigo era o tesouro da escola: reverenciado por todos os alunos quando passava pelos corredores, gozava de um merecido respeito e seu desligamento compulsório era comemorado com festa agridoce e sentimentos de gratidão. Hoje, esta veneração foi se perdendo, muitos terminam sua missão no esquecimento e, como dizia, torcendo para que o último dia chegue.
                Tentando compreender este atual e triste fenômeno educacional, algumas hipóteses costumam aparecer nos debates entre educadores: desorientação social acerca do papel da escola, desprestígio da profissão docente, desvalorização governamental da carreira com políticas públicas de intenções mais ideológicas do que educacionais, despreparo das famílias para educar e a conseqüente transferência dessa responsabilidade para a escola ou, o que é pior, para os meios de comunicação, que nem sempre são dignos desse serviço público.
                Como também educador e pesquisador, gostaria ir mais longe nesse olhar investigativo e levantar outra hipótese: será que o professor atualmente é visto pelos alunos em sala de aula como era antigamente? Sou da opinião de que a falta de prestígio do professor não é somente econômico e social, mas também ético.
                Quando a escola era realmente uma escola, os pais matriculavam os filhos num centro educativo porque acreditavam que ele não só iria ensinar-lhes a “matéria”, mas formá-los integralmente para a vida. Esperavam dos professores, além do conteúdo específico da disciplina, uma contribuição ética que reforçasse o que os próprios pais transmitiam no seio familiar. Os mestres eram modelos positivos de virtudes, de valores e, portanto, pontos de referência para as escolhas dos jovens. Hoje a criança é orientada a ir à escola não mais com essa intenção, mas, na melhor das hipóteses, para adquirir apenas um conhecimento que lhe sirva para galgar melhores patamares acadêmicos e profissionais. Logo, o papel do professor se empobreceu significativamente. Ele acabou se tornando quase que uma “máquina” que deve ensinar uma série de conteúdos de forma lúdica, atraente e sem exigir esforço. Se sua aula não for tão animada quanto o computador das crianças, com o tempo o aluno ou o desprezará, ou o suportará como um “alguém”.
                Esta ignorância ou desprezo pela ética das virtudes e dos valores, que vem crescendo de geração em geração, como vemos, é uma raiz venenosíssima que está matando a educação, gerando o relativismo moral em que vivemos. Por sua vez, esta desordem filosófica, na qual não existe mais o certo e errado, é o que está produzindo o desrespeito dos jovens. Segundo Ricoeur, “o respeito à dignidade do outro só é possível a partir de um autorespeito. E este só existe em cada ser humano quando ele percebe que tem valor em si”. Efetivamente, quem convive habitualmente em qualquer ambiente escolar percebe a existência de um alarmante paralelismo entre este distanciamento da prática das virtudes e a violência escolar. À medida que os jovens valorizam cada vez menos as virtudes em si, demonstram mais desrespeito com os pais, professores, colegas... 
                Parece ficar claro, portanto, que na verdade quem está semeando o desrespeito com os educadores são, em alguns casos, os próprios educadores, por não mostrarem aos seus pupilos a importância da formação integral e da aquisição das virtudes. Alguns com medo de exercer a boa autoridade e outros por um disfarçado egoísmo em não querer corrigir os filhos/alunos. Ambos, ao se omitirem na grave responsabilidade de ensinar o caminho do bem e da felicidade, não percebem que poderão estar criando futuros “exterminadores” de si mesmos.   
                Toda a criança tem uma inclinação para fazer coisas erradas e ter atitudes pouco éticas. Em parte, isto é o que todo educador deve esperar. Mas a criança deve encontrar alguém que sempre lhe diga, com força e decisão, que isso está mal – e que inclusive lhe imponha um castigo razoável, se necessário, para que se corrija. O que parece inadmissível é que muitos pais e professores fiquem indiferentes diante dessas atitudes pouco éticas, pensando que são comportamentos normais, ou que permitir tais atitudes demonstraria que se é tolerante, moderno ou até amigo. Quando os pais valorizam excessiva ou injustamente os filhos com prêmios ou elogios, estão mentindo para eles e tornando-os falsos.
                Concluímos que os pais e as escolas têm que se preocupar mais com a verdadeira ética do respeito, que é ensinar a valorizar-se para valorizar os outros. Ensinar os jovens a se valorizarem mais com os bens internos (MacIntyre), que são as virtudes, do que com os externos. Só é possível valorizar-se quando se aprende a autoconhecer-se. Quando se reflete sobre as ações e se vê com objetividade a bondade e beleza que elas têm. Torcemos para que as escolas não só promovam esse trabalho entre os alunos, mas (re)descubram que é para isto que existem .


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