ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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O VERDADEIRO SUCESSO ESCOLAR

Publicado no dia 07/03/10 no Jornal Gazeta do Povo (Curitiba) [1]




É com razão que pesquisadores da educação se preocupem cada vez mais com os altos índices do fracasso escolar. Apesar dos esforços de muitos responsáveis do ensino em encontrar caminhos que tornem efetiva a aprendizagem e dos altos investimentos governamentais neste setor, os resultados que os alunos brasileiros têm obtido nos últimos anos nos testes nacionais e internacionais continuam muito a desejar.
                Mas, perguntemo-nos: e como estão os que conseguiram sucesso escolar, isto é, aqueles que adquiriram o conhecimento suficiente para passar nos prestigiosos e difíceis vestibulares, cursar em seguida com brilhantismo uma carreira universitária e no final conquistarem um espaço honrado no disputado mercado de trabalho?
                Em geral, se nos aventuramos a pesquisar os chamados yuppies, “workaholics”, jovens gigantes ou como quisermos chamar aqueles que atravessam a chamada “turbodécada” — idade que vai dos 25 aos 35 anos e na qual se tomam as decisões mais importantes da vida —, descobriremos que a grande maioria está muito preocupada com o futuro, com a saúde, com a segurança física e econômica, com a visibilidade, com o status, com relacionamentos descomprometidos… portanto, apenas com a sua exterioridade.
                A exterioridade é uma vida dominada pelos impulsos recebidos do mundo exterior: pelo que se vê, pelo que se sente e pelo que diz a opinião pública. Manifesta-se ainda pela fuga da interioridade e por tudo aquilo que lhe traga condições: a reflexão, o esforço interior, o silêncio, a boa solidão, a leitura substanciosa, a oração. Busca-se, pelo contrário, a todo o custo, o ruído, o agito do trabalho, da “balada”, da arquibancada, das viagens. Acompanha certa frenesi por novos contatos, pelo que é notícia e pela informação fácil. O parecer substitui ao ser. O atrativo da forma ao interesse pelo conteúdo.
                Outro reflexo desse vazio interior é a superficialidade que domina o relacionamento social em geral. Quando existe alguma comunicação, os temas nos almoços, happy-hours, festas noturnas, costumam ser epidérmicos (futebol, diversão, viagens, comida, entre outros). A trivialidade e a mediocridade também estão presentes no comportamento e denotam o pensamento débil ou o impulso para alguma originalidade pobre ou politicamente correta. Outra marca registrada desta nova geração “bem sucedida” é a dispersão. É uma autêntica doença provocada pela mistura de enxurrada de informações que chegam diariamente pelos mais diversos veículos de comunicação e que geram impressões, sensações, reações que não estão associadas a nenhuma reflexão e não geram nenhuma ação concreta. É uma vida abandonada ao burburinho das circunstâncias, dos caprichos e do que estão falando.
                Como podemos perceber, evidencia-se nos atuais jovens bem sucedidos academicamente outro tipo, talvez mais profundo, de fracasso escolar: uma pobre interioridade. Mas afinal, o que é a interioridade? Como ela nasce e se desenvolve? Como se enriquece?
                Existem vários níveis de interioridade no homem: a física, a biológica, a sensitiva, a psicológica, a intelectual e a moral. Parece-nos que estas duas últimas são mais suscetíveis de intervenção humana. De fato, pode-se observar com frequência que as grandes obras da humanidade no plano cultural, artístico ou científico foram fruto de uma longa gestação e enriquecimento intelectual, gerados por extensa leitura, pesquisas perseverantes, levada a cabo na solidão e muitas vezes no sofrimento. Com relação à interioridade moral, pode-se comprovar que é ainda mais profunda. Consiste na capacidade radical de acolher em si e experimentar vitalmente a Verdade e o Bem, como fruto de escolhas acertadas, consolidando as virtudes morais. Quando esta interioridade consegue transcender deste mundo material e alcançar o mundo religioso é possível que o crente entre em comunicação com a interioridade divina e adquira uma nova profundidade, porque mergulha numa infinitude insondável.
                Mas por que ocorreu este empobrecimento da interioridade? Talvez várias correntes filosóficas dos últimos séculos tenham gerado uma visão de mundo unidimensional, na qual só se valoriza o que apareça aos sentidos ou apenas o que possa ser medível, por meio dos instrumentos da ciência. E assim afastaram como incognoscível, imaginário ou irreal tudo aquilo que transcenda o mundo material. Pode-se vislumbrar as perigosas consequências desta miopia: uma representação do mundo totalmente superficial, privada de espessura, de profundidade e, portanto, de interioridade. A dignidade da pessoa humana fica desvalorizada porque a liberdade, o amor, a religiosidade, os direitos da família, os valores éticos universais que a caracterizam são vistos como aspectos secundários porquanto não sejam realidades quantificáveis pelas ciências. Parece que esta visão de mundo é bastante empobrecedora para o homem e de alguma maneira ameaçadora, pois para quê o prazer material que a conquista da ciência traz consigo sem o prazer muito maior da satisfação interior que brota da posse do sentido da vida?
                Concluímos, portanto, que, se queremos que a educação atinja o seu fim primordial que é a perfeita realização do ser humano, em todas as suas dimensões, e não apenas no sucesso econômico, é preciso resgatar na escola desde a mais tenra idade aquelas atividades educativas que enriquecem a interioridade dos alunos: a aprendizagem das virtudes éticas e da sua prática, a valorização dos valores religiosos, práticas de solidariedades dentro e fora da escola, a valorização de livros e filmes clássicos (são clássicos porque nos ensinam o que é eterno para a interioridade do homem), a defesa da disciplina e do respeito, a fundamentação da sexualidade no amor e, obviamente, uma aprendizagem séria voltada para o serviço ao próximo. Se os educadores plantarem estas sementes no interior de cada aluno, no futuro, eles mesmos perceberão que o verdadeiro sucesso escolar não está numa vida cômoda e cheia de confortos, mas num coração com capacidade para amar e dar-se aos demais.

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