ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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A libertinagem na educação

Este artigo foi publicado no jornal Gazeta do Povo (Curitiba) no dia 2/05/2010 [1]



Tem crescido nos últimos tempos, principalmente no mundo empresarial, a preocupação com a responsabilidade social. Parece que finalmente a sociedade despertou para o fato de que a mãe natureza tem suas próprias leis e que suas reservas não são inesgotáveis. Conscientizou-se de que o poder humano, podendo conservá-la ou destruí-la, tem que ser limitado de forma racional, caso contrário viveremos sempre em eterna ameaça apocalíptica. Mas perguntemo-nos: será que há esta mesma percepção com relação ao ser humano? Será que já existe, não só nas empresas, mas em todas as estruturas sociais um entendimento de que é preciso redescobrir também as leis do próprio homem, para assim preservar a dignidade da pessoa humana e não a destruir?
             Confesso que há dias – talvez por estar acostumado a acreditar no homem–, em que minha resposta à indagação é afirmativa, mas há outros em que, lastimavelmente, contemplando o noticiário, devo concluir que não. E também há dias em que me pergunto: mas para quê todos estão preocupados com a conservação da natureza, com o conforto humano e com a salvação do mundo se depois o vamos encher de “animais-humanos”, muitos deles atuando até de forma infra-animal? Não será isto uma ameaça muito mais perigosa?
             Acredito que nós educadores devemos começar a tratar também da responsabilidade social das famílias, das escolas e dos meios de comunicação a fim de que todos eduquem na verdadeira liberdade humana. Mostrar-lhes que a cultura de uma sociedade é sempre reflexo da liberdade individual de cada um e que todos somos sempre co-responsáveis pela cultura da qual vivemos e da que depois virá.
             Infelizmente, muitas correntes pedagógicas das últimas décadas, levadas mais por visões distorcidas e ideológicas do que por estudos sérios de antropologia, espalharam mentiras educacionais que desfiguraram a liberdade. Uma delas é que a criança constrói melhor seu conhecimento se o educador fomenta uma espontaneidade quase ilimitada no processo de aprendizagem. A afirmação “o importante é deixá-la ser autêntica e fazer o que gosta, pois assim obterá maior sucesso escolar” costuma ser a música sedutora. Outra postura mais sedutora ainda é cantar para os educadores que reprimir sentimentos, corrigir assertivamente, castigar razoavelmente, podar iniciativas desmedidas poderá provocar desequilíbrios psicológicos irreparáveis e afetar a aprendizagem e a auto-estima da criança.
             Para desmascarar estas mentiras, é preciso recordar os elementos básicos da verdadeira liberdade humana, que poderiam ser resumidos numa definição simples e fácil de memorizar:
A liberdade humana é a capacidade de escolher bem, para uma finalidade boa, na prática.
             Ser livre é uma capacidade, é um poder de escolher. Como dizíamos no início, um poder que poderá ser usado tanto para o bem quanto para o mal. Portanto, exigirá sempre muitos cuidados e principalmente o uso da racionalidade. Quando vemos nos noticiários loucos dirigindo na contra-mão em auto-estradas ou torcidas esportivas se espancando por nada, concluímos que nada daquilo pode ser humano. Sendo um poder, a liberdade exige aquisição desse poder, de forma tanto racional quanto volitiva. Quando deixamos o aluno ser “autêntico”, isto é, espontâneo, o resultado poderá ser lindo e até proveitoso em algumas ocasiões, mas na maioria das vezes será irracional. Os sentimentos espontâneos são como as teclas de um piano. Não existem notas musicais boas ou más, mas as que se harmonizam dentro de uma partitura. A criança tem que aprender que a verdadeira liberdade é aprender a partitura da afetividade. Primeiro na teoria, com reflexão e aconselhamento, e depois pelo aprendizado prático das virtudes éticas. Se ela descobrir que existem momentos nos que convém ser “engraçadinho” e outros em que não, então sim estará a caminho de ser “autêntico” homem feliz. Caso contrário, somente se tornará uma autêntica pestinha.
                Sabemos que ninguém se dispõe a aprender, de fato, uma partitura simplesmente por achar linda a teoria musical. Qualquer músico quer atingir o encantamento e o êxtase. Daqui podemos deduzir que não basta escolher bem, é preciso escolher para uma finalidade boa. Quando a criança é ensinada que liberdade é fazer o que se quer, é viver os próprios gostos, ela e quem lhe educa assim têm com certeza uma finalidade boa, que é ser feliz e, portanto, a proposta parece bastante sedutora. Passado o tempo, porém, em geral a criança começa a sentir-se fraca, percebendo que lhe faltam forças para levar adiante qualquer projeto. Sente dentro de si uma forte polarização grupal – aquilo que o grupo espera que ela faça – e tem que escolher coisas que nem lhe agradam tanto, porque lhe faltam argumentos convincentes para dizer “não”. Sofre ainda de solidão e depressão, porque a vida não é como ela imagina e as dificuldades a massacram. No final, a felicidade almejada acaba nunca sendo experimentada e os desequilíbrios afetivos que se queriam evitar acabam se tornando muitíssimo mais graves.
                Buscar fazer o que se quer sem ser impedido pelos outros é um objetivo excelente, o qual todos devem desejar. Mas da forma correta, sem deixar-se enganar pela incorreta, ou seja, pelo mal. É preciso concluir que só a escolha de acordo com os princípios que regem a natureza humana é o que de fato liberta, apesar do esforço e sacrifício que acarreta viver os mesmos. Todo educador sabe que educar vem de ducère (guiar, conduzir) e de educère (extrair as capacidades de dentro). Porém, se a educação em geral continuar enveredando por caminhos de libertinagem talvez possamos assemelhá-la antes a seducère (seduzir), pois o prefixo “se” indica afastamento, separação e é isto o que acaba fazendo a má educação privando o jovem a seguir vocação natural ao amor e à liberdade compartilhada.

[1] http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=998415&tit=A-libertinagem-na-educacao


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