ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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A ALMA DA ESCOLA DO SÉCULO XXI


Este artigo foi publicado no dia 18/10/2010 no Jornal GAZETA DO POVO (Curitiba), promovendo o lançamento do livro na capital paranaense [1]


                Lançarei em Curitiba no dia 18 de outubro o livro com o mesmo título deste artigo. Tendo em vista que muitos leitores do Gazeta do Povo já vêm me acompanhando há muito tempo através destes artigos, gostaria de aproveitar este para motivá-los a comparecer ao evento, através da resposta à pergunta que o título instiga: Afinal, qual é a alma da escola que queremos vislumbrar para este século?
                Sou da opinião de que algumas políticas educacionais presentes estão orientando a formação dos professores e suas práticas pedagógicas apenas para satisfazer a dimensão terrena dos alunos – isto é, ocupar um espaço no mercado de trabalho – desprezando outras mais elevadas. Desde os tempos mais remotos, a tarefa de educar sempre objetivou em primeiríssimo lugar que o aluno fosse uma pessoa humana completa, integrando dimensões racionais, volitivas, afetivas, sociais e espirituais. Nunca poderemos esquecer, como apontaram diversos filósofos antigos – como Aristóteles, em “Ética a Nicômaco” – e atuais – como MacIntyre, em “Animais racionais dependentes: Por que o ser humano precisa de virtudes” – que o Homem é um animal racional e dependente dos outros. Tem alma e corpo, e está destinado a ser feliz somente na harmonia consigo mesmo e com os demais. Para isso precisa educar tanto a alma quanto o corpo.
                Ninguém se realiza conseguindo apenas um emprego, por mais qualificado e prestigioso que seja. O aluno precisa descobrir, já na escola, que há uma dimensão ética profunda na realização de seu futuro trabalho, que o levará a amadurecer ao longo da vida e a viver feliz. Não basta, portanto, apenas produzir “ciência sem consciência”, como ocorre hoje em tantos campos do saber ou, o que é pior, trabalhar pensando apenas na remuneração financeira como um fim em si mesmo.
                Este processo difícil e demorado de formação ética é algo que deve ser priorizado tanto na educação familiar quanto na escolar, especialmente nos dias atuais. O descuido com este aspecto essencial da educação é o que está causando a morte da “alma” da escola e, consequentemente, da dos pais, professores e alunos. Parece que, atualmente, as escolas estão muito preocupadas com o seu “corpo” – boas instalações, computadores, esportes, viagens, aprovação no vestibular, sucesso acadêmico e econômico a todo o custo –, mas estão desprezando a “alma”.  Fica fácil intuir, portanto, porque muitos sistemas educacionais estão em processo de putrefação. Infelizmente, é o que acontece na grande maioria das escolas brasileiras, sejam públicas ou particulares. Os alunos que se formam saem dos colégios inanimados, porque não foram formados nessa dimensão ética e transcendental. Muitos conseguirão sucesso acadêmico e profissional, mas não conseguirão responder a questões essenciais da vida: Para que existir? Para que trabalhar? Para que sofrer? Para que morrer? Para que amar? Por que viver as virtudes é necessário para alcançar a felicidade?
                O livro a ser lançado quer convidar o leitor nos seus 25 artigos à reflexão acerca de temas em torno da necessidade de ressuscitar a alma da escola. Esta, sem dúvida, deve ser uma responsabilidade primeiríssima da família, junto com a escola. Tudo indica que é preciso resgatar uma educação mais personalizada, que considere cada pessoa como única no universo, e educá-la a partir daí, ensinando-lhe a vivência das virtudes que a capacitem para o outro. Victor García Hoz, pedagogo espanhol, define como objetivo central da Educação Personalizada “a capacitação do sujeito para formular e realizar seu projeto pessoal de vida”. A educação personalizada apoia-se na consideração do ser humano como pessoa única, e não simplesmente como um ser que reage ao estímulo do meio.
                A formação pessoal se caracteriza pelas notas de singularidade, autonomia e abertura. Uma escola que respeita a singularidade sabe sujeitar o trabalho e as relações escolares à capacidade, interesse, ritmo, particularidades do sexo e circunstâncias sociais de cada estudante, e estimula sua criatividade e o desenvolvimento de suas peculiaridades. Quando defende a autonomia, favorece sua participação na dinâmica da escola e nas escolhas pedagógicas possíveis, mas sempre dentro dos limites éticos.  Por fim, promove ainda sua abertura, buscando que sua comunicação com os demais participantes da comunidade educativa seja rica em complementaridade, respeito e serviço.
                Infelizmente, esta visão da educação esbarra em dois inimigos, muito presentes na maioria das escolas: o falso conceito de autonomia do aluno e o relativismo. Segundo algumas pedagogias modernas, o aluno deve desenvolver-se por si mesmo, sem imposições por parte dos demais nem de nenhuma autoridade. Esta apenas forneceria o suporte a seu autodesenvolvimento, sem, no entanto, se envolver no processo educacional. Quem pensa assim de fato, ou não conhece profundamente como funciona a natureza humana, ou então é possível que esteja buscando justificativas para se omitir, por diversas razões, na difícil missão de educar. Estas posturas, em geral, estão permeadas de visões relativistas da vida, que afirmam não existir, na prática, uma verdade objetiva que precisa ser descoberta através da educação. Quem pensa assim não percebe que está dando um cheque em branco para a mentira... matando a alma do aluno e a da escola. Mais cedo ou mais tarde, as paixões e tudo o que elas trazem consigo, para tristeza de todos, as asfixiarão .
                Todos os leitores que tiverem interesse em continuar refletindo sobre o tema estão convidados para a palestra que farei na Escola do Bosque Mananciais, local do evento anunciado. Maiores informações em: http://www.escoladobosque.com.br.

[1] http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=1058324&tit=A-alma-da-escola

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