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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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EDUCAR NO AMOR: DESAFIO DE PAIS E PROFESSORES



Este artigo foi publicado no Jornal Gazeta do Povo (Curitiba) no dia 5/12/2010 [1].




Certa vez, um pai de classe média alta de um bairro nobre do Rio de Janeiro teve uma tentação que pode ocorrer a qualquer um de nós: descobrir se o seu filho único adolescente o amava mais do que amava a mãe. Um dia, chegando mais cedo em casa após o trabalho, cedeu à insídia diabólica, motivado possivelmente pelo recente presente de aniversário que dera ao filho, um videogame de última geração, não muito barato.
Sentou-se na sala de estar junto com ele, compartilhou um refrigerante, e de repente lançou-lhe a seguinte pergunta: “E então, filho, tire-me uma curiosidade: Você gosta mais da mamãe ou do papai?”. O filho, olhando-o profundamente nos olhos e respirando fundo, talvez buscando forças dentro de si para ser sincero, disse-lhe: “Quer saber mesmo, papai? Pois de quem gosto mais mesmo é do Jorge, o jardineiro do playground do prédio. Ele é quem fala comigo todos os dias, me ensina a plantar flores, me pergunta como estou indo na escola, torce comigo quando assisto na TV ao Flamengo jogar...”.
                Infelizmente, este caso decepcionante poderia repetir-se cada vez mais nas famílias e nas escolas. Pais e professores, talvez por não terem sido  bem formados nos verdadeiros valores humanos, passam a acreditar que amar o filho ou o aluno é simplesmente enchê-lo de alegrias materiais e afetivas e poupá-lo de exigências e sacrifícios. Assim, acabam ficando um pouco inseguros e perplexos na hora de escolher o caminho a seguir para ensinar o pupilo a amar, e acabam cedendo no mais fácil e imediato. Antigamente, a tradição cultural que se respirava nas famílias e no ambiente escolar ainda sustentava esses pais e professores no ensino do verdadeiro amor, mas hoje, com a perda total de referências éticas, aliada à ausência de bons modelos na sociedade, parece que se torna cada vez mais urgente que os educadores (re)aprendam o verdadeiro conceito de amar.
                Amar é, segundo Aristóteles, querer o bem do outro pelo outro. E que quer dizer querer o bem do próprio filho ou aluno? Quer dizer que os pais e professores devem estar motivados a se sacrificar para torná-lo realmente feliz ensinando-o a amar, sem querer nada em troca para si. Infelizmente, isto pode parecer fácil na teoria, mas na prática, temos a experiência que nem sempre é o que escolhemos. Além do mais, o egoísmo humano é traidor e consegue por vezes instrumentalizar os próprios filhos e alunos para preencher carências afetivas, usá-los para demonstrações da própria inteligência ou poder, ou ainda transformá-los em espelhos do próprio umbigo, querendo, portanto, o seu próprio bem e não o bem do jovem. Ensinamos a ser egoístas.
        É fácil deduzir então que o grande pré-requisito do bom educador é uma grande dose de desprendimento em toda a tarefa educativa. Somente assim o educando poderá aprender esta linguagem do amor contemplada no próprio exemplo dos pais e professores, seja em casa, seja dentro da escola. Quando a criança percebe que os seus educadores se esforçam em tantas pequenas renúncias diárias e que buscam ativamente demonstrações de carinho e de respeito mútuo em seus relacionamentos, sua natureza ficará não só inclinada a imitá-los, mas sentir-se-á feliz quando conseguir vivenciar esse amor prático.
                Os educadores devem ter consciência de que o “Frei exemplo é sempre o melhor pregador”. Quando a criança aprende antes as lições que também são vivenciadas pelos pais e professores, ela aceitará depois com maior facilidade toda a ação educativa, que na prática é quase sempre ensinar a amar os outros, por meio do caminho árduo das virtudes éticas. Aceitará, por exemplo, as correções, as exigências escolares, os castigos, as broncas, enxergando-os como formas corretivas para amar mais os pais, professores, e os próprios colegas de classe. Podemos intuir, portanto, que o melhor que os educadores podem dar aos filhos e alunos, mais que grandes manifestações de afeto superficial e efêmero, será sempre o próprio exemplo de doação mútua, pois desta forma os jovens se enriquecerão e não se deixarão seduzir pelas formas falsas de amar que tanto se divulgam na cultura dos dias atuais, como o prazer fácil do sexo ou das amizades superficais das comunidades virtuais ou ocasionais.
                Mas uma questão fica no ar: como nós educadores adquirimos a força do amor, principalmente quando faltam as energias e isso se torna doloroso e humilhante? A tradição cultural de que falávamos apontava para a necessidade de, nestes casos de dificuldade, recorrer à oração. De alguma forma, ela nos dizia que ensinar a amar exigia ensinar ao mesmo tempo a rezar. Parece que este costume diminuiu sensivelmente nas famílias e nas escolas. Por isso, sou da opinião de que uma das formas mais pedagógicas de ensinar os jovens a amar é que nós educadores ensinemos também com o exemplo a olhar para o Céu. As crianças aos poucos irão compreendendo que este é o verdadeiro fundamento da nossa esperança e do nosso otimismo. Que, no fundo, no fundo, é esse o verdadeiro Bem que é preciso querer para todos...
                Concluamos, portanto, que se o ideal de felicidade que todos almejamos é formar uma família feliz, uma família que “deu certo”, é preciso (re)aprender a linguagem do amor, que nasce da contemplação transcendente e das pequenas vitórias diárias no relacionamento. Quando isto é vivenciado também nas escolas, então nossos filhos estarão preparados para enfrentar as dificuldades da vida, porque descobrirão, por meio dos pais e professores, que o caminho para se conseguir a felicidade não estará numa vida cômoda, como se pensa hoje, mas num coração enamorado.

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