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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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A ARTE DE UM BOM PROFESSOR




Este artigo foi publicado no jornal Gazeta do Povo (Curitiba) no dia 01 de maio de 2011 [1].     



É comum encontrar na literatura e no cinema a magia de alguns artistas que conseguem transformar uma pequena ou grande comunidade. Pode tratar-se de um pintor, um músico, um escritor ou um ator que, com a riqueza de sua interioridade, provoca autênticas conversões existenciais. Recentemente, assistindo a um filme dos anos 80 – “A Festa de Babette” – redescobri a enorme força que pode ter um coração apaixonado. O filme trata de uma cozinheira de um dos mais requintados restaurantes de Paris, que é forçada a refugiar-se num país vizinho devido a uma guerra civil.
Ela se emprega como faxineira e cozinheira na casa de duas solteironas, filhas de um rigoroso pastor do século XIX. Ali ela vive por quatorze anos, até que, um dia, fica sabendo que ganhou uma fortuna na loteria. Ao invés de voltar à França e refazer a vida, ela pede permissão para preparar um autêntico banquete em comemoração ao centésimo aniversário do pastor, já falecido. No fundo, ela quer retribuir todos esses anos de acolhimento preparando algo que só a riqueza de seus dotes artísticos podia fazer. No final, sua generosidade a impulsiona a gastar todo o dinheiro. A felicidade de poder novamente demonstrar seus talentos a serviço do próximo conseguem recuperar não só seu sentido na vida, mas também a fraternidade daquela comunidade familiar que há muito tinha desaparecido.
                Acredito que Babette consegue definir bem o que deve ser um verdadeiro artista: alguém que transmita uma interioridade rica através do talento que desenvolveu no campo artístico. Alguém que transmita amor quando atua bem naquilo que faz. Aristóteles já definia a arte como a reta razão do fazer. O que seria a reta razão do fazer? A capacidade de refletir uma série de valores em tudo o que se produz, os quais elevam os que estão ao seu redor a níveis melhores. Seu predecessor Platão já definia  a beleza artística como a expressão da bondade. Ela proporciona ao homem um choque saudável, retirando-o de si próprio. Ela abre o seu coração e a sua mente e lhe dá asas, levando-o para cima.
                Transportando estes conceitos para a educação, se o verdadeiro artista é sempre um bom educador, podemos afirmar também que um bom educador é sempre um artista. Quando ele realmente sabe e ama aquilo que faz, quando extravasa com vibração todo o seu conhecimento – e não apenas o específico da matéria – dentro de uma sala de aula e procura com todos os seus dotes artísticos e didáticos fazer-se entender e entender seus alunos, consegue em geral produzir várias autênticas “obras primas”. Recentemente, numa faculdade de direito do Rio de Janeiro, um professor do primeiro ano, ao terminar brilhantemente sua explanação, experimentou algo inusitado: os alunos se sentiram obrigados a se levantarem e aplaudiram com sincero reconhecimento. Tinham contemplado uma “obra de arte”.
                Por experiência própria, sei que não é fácil, nas condições atuais, querer ser um artista educacional. Compreendo plenamente todos os professores que, ao lerem este artigo, o julguem utópico ou teórico. As coisas efetivamente não estão fáceis em tantas comunidades escolares, principalmente nas mais desfavorecidas. As baixas possibilidades financeiras, o pouco reconhecimento social, as mínimas perspectivas futuras, os elevados riscos de todos os tipos parecem nos puxar para baixo para fazer-nos desistir. Por isso, arriscaria dizer que, nos dias que correm, para ser um bom professor é necessário ser um super artista. Ser alguém com talento e capacidade de superação muito acima da média. É preciso ser especial. Para isto, é imprescindível alimentar-se, como dizia antes, de mais interioridade, que nasce quando investimos tempo em leituras substanciosas, reflexões profundas e pausadas, debates descontraídos com pessoas de valor, meditação diária e esforço por sermos melhor.
                Um exemplo disto também pode ser visto num filme recente intitulado Escritores da liberdade. Tal filme se inicia com uma jovem professora inexperiente que começa a trabalhar em uma escola de ensino médio, dita perigosa, a fim de lecionar Língua Inglesa e Literatura para uma turma de adolescentes considerados problemáticos. Ao perceber os grandes conflitos enfrentados pelos estudantes, a professora usa todo o seu poder criativo e adota novos métodos de ensino. Entrega aos seus alunos uns cadernos-diário para que escrevam sobre aspectos de suas próprias vidas, desde conflitos internos até problemas familiares. Indica a leitura de diferentes obras ricas em interioridade, como o célebre livro "O Diário de Anne Frank", com o objetivo de que os alunos percebam a necessidade de tolerância mútua. No final, a professora consegue que todos se tratem com respeito e tolerância e seus diários acabam sendo juntados em um livro, publicado nos Estados Unidos em 1999. É uma história real que emociona qualquer educador.
                Sei que existem muitos professores que tentam fazer coisas semelhantes. Uns têm mais sucesso do que outros. Mas acredito que o importante é estar sempre tentando fazer desabrochar este artista que vive dentro de cada educador. Quando se consegue esta façanha, quase sempre se recupera a alegria de ensinar, que dá sentido à vida. Fica aqui minha homenagem ao “professor-artista-desconhecido”, que nunca será reconhecido pelo esforço escondido e silencioso que faz.

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