ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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Um novo indicador educacional


                Este artigo foi publicado no Jornal Gazeta do Povo (Curitiba) no dia 24/07/2011 [1]






Tem se tornado bastante comum nos últimos tempos observar em muitas cidades da nossa “aldeia global” paradas, passeatas, marchas de todos os tipos e feitios. Umas reinvidicando direitos, outras comemorando vitórias e avanços e outras simplesmente querendo demonstrar força ou chamar a atenção. Pude participar de algumas, não tanto por compartilhar dos ideais apregoados, mas para pesquisar o que tais “massas” comunicam, de forma consciente ou não. Confesso que contemplar tais manifestações sociais me fez pensar bastante, do ponto de vista filosófico-educacional. Algumas indagações se levantavam enquanto observava o caminhar das multidões: será que as pessoas vislumbram, num médio e longo prazo, as consequências desses “direitos” a conquistar? Como é que todos conseguem ter tanta certeza que será melhor realizar tais “consensos” Por que tantos comemoram soluções simples a questões que parecem tão complicadas que nem os maiores especialistas se arriscam a tomar posição? Quantos desses milhares de simpatizantes de determinada causa já estudaram a fundo os prós e contras? Por que desperdiçam um momento tão precioso do seu lazer para defender tais liberdades? Quem será que são os reais beneficiados desse movimento?
                As perguntas poderiam se multiplicar, mas acredito que já bastam para refletir sobre o que poderá estar acontecendo. Sou da opinião de que essas caminhadas podem ser um ótimo indicador do grau de insatisfação social e existencial. Que podem ser também um bom termômetro para medir o resultado dos últimos anos do nosso processo educacional. Em geral, para avaliá-lo se costuma usar alguns índices internacionais (PISA) ou nacionais (IDEB ou ENEM). Mas será que esses instrumentos são suficientes para avaliar também a “alma” da escola? Para auscultar como vai a formação integral do ser humano, como está seu grau de realização existencial? Sou da opinião de que não — mas creio que essas passeatas, sim! Elas podem ser um indicador de que muitas pessoas estão descontentes com sua própria natureza humana e estão querendo experimentar uma nova, com novas leis, novas famílias, novos deuses, novos prazeres, novos sexos. Mas por que estarão descontentes? Porque o homem só se torna verdadeiro homem quando se conforma com sua natureza. Já diz um velho princípio filosófico: “o agir segue o ser”. Também pode dizer-se desta forma: “o agir determina o ser”. Se o agir for correto, o ser do homem se sentirá feliz. Se for errado, ele se sentirá sem identidade. Portanto, acredito que estas diversas paradas e caminhadas denunciam pessoas que, no mínimo, não se encontraram como seres humanos porque não lhes ensinaram como devem agir. Estão clamando para que os ajudem a ser pessoas felizes e com perspectiva de vida. Mas para que isso ocorra, sabemos, precisam ser auxiliadas por pessoas que conhecem e acreditam em como deve funcionar a natureza humana. Este deverá ser sempre o fim primordial da educação. Quando isto não acontece, a natureza do homem reclama e se vinga. É o que acredito estar acontecendo na nossa educação faz muito tempo...
                Muitos educadores sabem que seu principal desafio no processo de ensino-aprendizagem com uma criança é fazer com que, no futuro, ela afirme, livre e conscientemente, sua própria natureza humana com suas respectivas leis e limitações. É este o fim último da educação. Já dizia Píndaro: “Torna-te o que és”. Por isso, o bom educador sabe que o sucesso educacional foi alcançado se o educando enxergar racionalmente que a realização só virá quando, além do conhecimento científico e cultural, adquirir os princípios éticos e concluir que esse é o caminho da excelência humana. Por outro lado, quando o educador perceber que existe uma tendência cultural para a negação da própria natureza, pode concluir que fracassou como educador.
                Estamos percebendo então, que o fracasso atual da nossa educação é muito mais profundo que a mera falta de aprendizagem escolar. Nós educadores estamos fracassando de forma muito mais dolorosa do que as pessoas imaginam. Mas por que isto nunca aparece nas prioridades educacionais do governo e nas grandes campanhas dos meios de comunicação? Por pura ignorância, no caso da imensa maioria. Por ideologia, para uns poucos, que acreditam numa visão meramente materialista da vida. O fato é que a desordem moral se instalou na nossa cultura nas últimas décadas e isto tem gerado pessoas sem caminho e sem rumo. Pessoas sem transcendência e sem amor. Pessoas sem Deus e sem sentido.
                Nós educadores temos que mostrar às grandes multidões que elas precisam é reencontrar o seu Criador e o fim para o qual Ele as criou. Nos séculos XVIII e XIX, Deus foi rejeitado, em prol da ilusão de pensar que assim se eliminaria a culpa e o homem seria por fim livre e feliz. Hoje percebemos que, desse modo, o homem tem que carregar sozinho o peso das suas misérias e faltas. E terá que absolver-se sozinho numa autorredenção, o que parece insuportável. Acredito que, mais do que querer experimentar uma nova natureza, é muito mais feliz buscar Aquele que quer tornar a natureza humana quase uma natureza divina.



[1] http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=1150365&tit=Um-novo-indicador-educacional

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