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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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Educação e saúde mental



Publicado no Jornal Gazeta do Povo (Curitiba) no dia 18/12/11 [1]





É comum ouvir dizer entre educadores e psicólogos que a juventude do século XXI será muito diferente das gerações anteriores. O fato de já nascer “conectada” à rede mundial parece determinar transformações humanas e sociais que ainda não se consegue abarcar completamente. A revolução tecnológica, que avança de forma cada vez mais surpreendente, oferece tantas vantagens de comunicação e de informação que acaba por proporcionar à criança uma visão de mundo globalizada, opções de prazer e de lazer muito mais rápidas, formas de relacionamento muito mais dinâmicas, cultura e informação muito mais fáceis. É evidente que a carga de informação que ela pode receber diariamente nem sempre contribuirá para a sua formação e sabedoria, pois sua capacidade de aquisição, retenção e generalização do conhecimento não se modificou com o crescimento da tecnologia.
Ao contrário do que acontece no campo das ciências experimentais, no âmbito da educação não há possibilidade de semelhante acúmulo de conhecimento, pois a capacidade do homem de aprender começa sempre do básico e, portanto, cada pessoa e cada geração deverá aprender e reaprender pessoalmente os conteúdos das diversas ciências por meio do processo educacional. Igualmente no campo da moral, os valores do passado que nos chegam pela tradição cultural não podem ser simplesmente herdados geneticamente, mas têm de ser assumidos e renovados através de uma opção livre e pessoal, o que com frequência exige um esforço redobrado.
                Outro aspecto que merece destaque neste início de século são as mudanças no âmbito familiar. Diversos motivos sociais, econômicos e filosóficos foram pressionando os responsáveis pela educação a que se afastassem paulatinamente de seus deveres formativos e, muitas vezes, a que delegassem essa tarefa a outras entidades. Infelizmente, essa transferência da responsabilidade para terceiros não costuma ser muito eficiente, pelo menos em matéria de aprendizado ético. Dificilmente uma criança desenvolve uma virtude e acredita num valor moral que aprendeu na escola, por exemplo, quando essa formação não ecoa habitualmente na própria família. Nesse momento, os fundamentos éticos costumam ser abalados, e surgem incertezas e confusões no exercício da liberdade, que trazem sempre transtornos físicos, psíquicos e morais.
                Sou da opinião de que o resultado somente dessas duas mudanças mais profundas – tecnologia e família –, sem entrar em outras que poderiam ser também contempladas e relacionadas, como as revoluções cultural, científica e religiosa das últimas décadas, podem estar produzindo profundas mudanças afetivas e comportamentais nas novas gerações.
                Supõe-se que os inputs sensitivos que uma criança recebe no mundo de hoje são mais intensos e frequentes que outrora no passado. Se isto se comprova, parece lógico que ela precisa de muito mais cuidados e atenções do que antigamente. Ora, a criança sempre foi dependente de um adulto para orientar sua afetividade desenfreada, já que esta não goza de racionalidade. Assim, seria de se esperar que, agora, ela necessitasse de muito mais apoio da família. Entretanto, como vimos anteriormente, essa relação, ao invés de ter crescido de forma proporcional, parece que caminhou no sentido inverso: quanto mais inputs sensitivos foram sendo provocados na afetividade da criança, menos a orientação familiar se fez presente.
Na realidade, o que se tem evidenciado em tantos estudos, como o de Collins e outros (2004), publicado pela Academia Americana de Pediatria, é que a omissão familiar tem sido substituída pela (des)orientação dos meios de comunicação. À medida em que os modelos apresentados na TV ou na internet, em ambientes de entretenimento como novelas, seriados e filmes, e até mesmo na publicidade, são de consumismo, infidelidade, sexo fácil e promiscuidade, a criança e o adolescente foram associando felicidade à conduta errada apresentada, transformando aquela postura antiética em estímulo a imitar. Uma vez assimilados aqueles modelos como referências, os jovens passam a experimentar socialmente a conduta ditada pela TV.
                Diante desta realidade que vai crescendo de forma exponencial, vale indagar se estes novos comportamentos apresentados pelos jovens estarão afetando o desenvolvimento correto da sua afetividade. Será que não há alguma relação entre essa exagerada carga sensitiva que os jovens estão recebendo diariamente e os desajustes psíquicos cada vez mais comuns entre eles: depressão, solidão, timidez, diversas síndromes, insegurança, imaturidade, complexos?
                Numa sociedade que dispõe de um sistema de valores – coerente e consistente –, a saúde física e mental de seus cidadãos está significativamente bem mais protegida, porque se tem a sabedoria do bem e do mal. Por outro lado, se o que reina é a diluição dos valores ou sua tergiversação, como vemos hoje, é possível que essa desordem moral cause desordens de outros âmbitos, como doenças mentais de forma cada vez mais precoce.
                Nessa mesma direção estão indo os recentes estudos da psicologia positiva. Os médicos estão descobrindo que, mais do que ficar curando doenças dos velhos que se manifestam nos jovens, é melhor potencializar o aprendizado das virtudes éticas como forma de prevenir algumas enfermidades e inclusive retardar a morte nas pessoas mais velhas.  As investigações dos últimos 10 anos asseguram que os benefícios psicológicos e de saúde física são muito maiores numa vida cheia de sentido e com finalidades transcendentes, do que a que deriva de uma felicidade meramente material e voltada para si.
                Concluo, portanto, que os pais deveriam estar não só preocupados com a proteção física de seus filhos, mas tentar enxergar novos âmbitos nesses cuidados, que muitas vezes quando se descuidam são muito mais dolorosos.

[1] http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=1204506&tit=Educacao-e-saude-mental

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