ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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Por que meus filhos/alunos estão desmotivados?

Artigo publicado no Jornal Gazeta do Povo no dia 5/05/12 (Curitiba) [1].





           Como educador, é comum ter que responder a várias indagações de pais e professores, tanto nas inúmeras palestras que dou anualmente em escolas e universidades, sejam públicas ou privadas, quanto nos diversos encontros em meios de comunicação digital. Os temas costumam repetir-se, mas ultimamente um deles tem se destacado por sua frequência: a (des)motivação do filho ou do aluno nos estudos.
Pincemos algumas das questões mais comuns e interessantes: “O que posso fazer para animar meu filho a sair do computador? Você acha que ele pode estar fugindo da realidade?”; “A desmotivação escolar do meu filho está relacionada com a escola ou com adolescência?”; “Por que ele só se motiva com música e computadores? Há algum problema nisto?”; “Qual é a fonte da motivação? Devo ou não oferecer recompensas materiais?”; “Parece-me impossível encontrar motivação como professor quando não consigo motivar meus alunos a aprender. Posso mudar isto?”; “Temos culpa quando vemos um filho/aluno desmotivado?”; “Existe algum critério para saber se o meu filho está com a motivação correta? “.
                Como podemos observar, todas as perguntas deixam transparecer uma vivência concreta de problemas reais, somada a certa angústia de educadores responsáveis. Seria impossível responder a todas estas interrogações neste pequeno espaço, mas elas podem ajudar-nos a perceber que a motivação é um tema sério e de grande transcendência para a realização educacional e existencial de todos. Neste artigo, vou pincelar apenas algumas ideias sobre esta temática e voltar a defender o núcleo do que foi minha tese de doutoramento: a motivação pessoal está muito relacionada com a própria perspectiva e vivência da ética. Aprofundemos um pouco.
Durante meus estudos de doutorado, defini motivação como “uma força interior que nasce do desenvolvimento equilibrado das potências do homem – inteligência, vontade e afetividade – e que o move à descoberta e conquista dos verdadeiros valores da pessoa humana (valores futuros, que se alcançam com esforço, mas que são possíveis de alcançar)”. Portanto, antes de tudo, é preciso recordar que a motivação é uma força que nasce de dentro do ser humano. Nasce das potências que o tornam um verdadeiro Homem. Perguntemo-nos: conseguimos imaginar uma águia — concebida para voar acima das altas cumeeiras, ter asas de envergadura de dois metros para alcançar velocidades de aproximadamente 100 km/h — ser criada e tratada num galinheiro? Pois é isso o que acontece quando qualquer homem experimenta que não está se tornando um verdadeiro homem com todas as suas potencialidades desenvolvidas. Quando as suas necessidades intelectivas de aprender, de reter o conhecimento, de descobrir a verdade estão atrofiadas porque não o educaram corretamente. Quando suas ânsias de amar, escolher, decidir, querer estão imaturas e atrasadas porque lhe faltam modelos corretos de liberdade. Quando sente que vive apenas como um mero animal movido pelos instintos, na ilusão de que será feliz com o máximo prazer, sem qualquer racionalidade e limites, e sem dor.
Assim, é bom lembrar que por trás de toda desmotivação existe um sentimento de que alguma necessidade vital foi frustrada. Nós, seres humanos, nos motivamos sempre em busca da satisfação de alguma necessidade. Temos necessidades que emergem em geral na seguinte hierarquia: fisiológicas, de segurança, sociais, de autoestima, de realização profissional e existencial. Quando, por meio das virtudes éticas, desenvolvemos adequadamente as potencialidades humanas de forma integrada e equilibrada, temos mais facilidade para encontrar os meios adequados para ir satisfazendo todas essas necessidades. Quando não, alguma necessidade tenderá a ficar insatisfeita ou desequilibrada e nossa natureza reclamará disso, mais cedo ou mais tarde.
Atualmente, diante de uma cultura materialista e relativista, na qual reina um modus vivendi de falta de valores e da promoção de desvalores ou antivalores, a descoberta e a conquista dos verdadeiros valores humanos tornou-se mais confusa para as novas gerações. Se, segundo a definição acima exposta, os valores eram o fim da motivação, pode-se dizer que hoje, muitas necessidades ditas normais para todo o ser humano podem estar se tornando apenas latentes, escondidas e reprimidas, provocando uma complicação nova para a motivação humana. Chamo a este fenômeno de “anorexia espiritual”. Devemos considerar que a anorexia psicológica é uma síndrome muito comum, principalmente entre os jovens, caracterizando-se como uma anomalia que os leva a não comer por sentir que estão obesos, por mais que continuem tendo a necessidade de alimentação. Da mesma forma, poderíamos dizer que muitos jovens nos dias atuais continuam tendo necessidades espirituais, que são vitais para todo ser humano, mas não as sentem suficientemente. São anoréxicos espirituais. Têm necessidade de muitos amigos, mas, na prática, não sentem realmente tal necessidade, porque sentem mais desejos de conforto e de prazer, e por isso os buscam mais nas redes sociais. Têm necessidade de verdade e de coerência, mas não a sentem suficientemente, e facilmente desistem na hora de ler um livro um pouco mais difícil ou a refletir sobre alguma acusação de consciência. Têm necessidade de transcendência, de religião, mas não a sentem de modo tão forte como para buscá-la, e sucumbem diante de uma pressão negativa dos amigos ou dos meios de comunicação.
Podemos concluir, portanto, que em pleno século XXI, devido à existência de certo preconceito no ensino-aprendizagem das virtudes éticas – hábitos bons que devem ser autoadquiridos e livremente desenvolvidos para aperfeiçoar e facilitar a ação das potências humanas — somado a certo ambiente de fragmentação ética, no qual se desconfia de que seja possível recorrer a razões objetivas para justificar certos princípios de conduta, os jovens encontram uma maior propensão para sentir-se desmotivados — ou então motivados por antivalores ou desvalores, o que, na prática, é estarem motivados de forma incorreta. Como educador, acredito que, diante de tantas perguntas sobre esta temática, devemos buscar novos rumos para educar na motivação correta e completa.
A correta é aquela que é buscada dentro de uns limites éticos claros, podendo compará-los a um manual de instruções da natureza humana, que orientam nossas escolhas para um bom funcionamento. É como também ao meio fio da estrada que conduz para a felicidade. Dentro dessa estrada, assim como nas autoestradas, existem várias faixas. Quanto mais para dentro dessa estrada, mais as nossas escolhas tenderão a ser corretas. As motivações intelectuais, como o gosto por estudar, aprender novos conceitos, descobrir a verdade sobre si mesmo e sobre o mundo estão mais distantes do meio fio que as meramente materiais, que beiram esse meio fio. Mas é ainda possível, dentro das motivações materiais e intelectuais, o ser humano estar se buscando a si mesmo, talvez de forma inconsciente, mas exagerada, o que lhe leva a ter uma motivação correta, mas incompleta. Só alcançaremos a verdadeira motivação – correta e completa - quando por cima das motivações materiais e intelectuais, bem no meio da estrada, brote a motivação transcendental de pensar mais nos outros do que em si mesmo. A diversão e as conquistas acadêmicas, por exemplo, num homem verdadeiramente motivado, serão momentos para poder, antes de tudo, servir melhor aos demais.

[1]  http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=1251374&tit=Por-que-meus-filhosalunos-estao-desmotivados





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