ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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Educar na humildade ou na autoestima?


 Este artigo foi publicado na revista SER FAMÍLIA, em julho de 2012 (N. 32)



            Quando entramos hoje em qualquer livraria renomada, é comum que a prateleira dos livros de autoajuda seja uma das mais frequentadas. A cada ano que passa, livros desta categoria são buscados com avidez maior, e é bem possível que os leitores das outras prateleiras já tenham se perguntado alguma vez: qual será a causa do sucesso deste “movimento literário” de segunda categoria?
            Os motivos podem ser muitos, mas uma coisa é certa: estes consumidores não estão bem. Multiplica-se o sentimento de baixa autoestima. Paira no ar uma sensação de frustração existencial e de engano. As pessoas parecem estar buscando soluções para problemas que não sabem definir ao certo, tampouco sua origem. Mas acredito poder ao menos intuir que, em todas elas, a afetividade está sofrendo, o orgulho se encontra doente e a alma desgovernada. Por isso parece oportuno refletir sobre como encaminhar melhor a educação afetiva não só nas famílias, mas também no ambiente escolar para poder sonhar com uma sociedade mais feliz.
Conscientizemo-nos de que os problemas humanos, psíquicos e espirituais são sempre resultado de um processo longo que se origina quase sempre na infância ou adolescência. Sou da opinião de que, para aperfeiçoar e desenvolver mais adequadamente as diversas forças afetivas – sentimentos, emoções e paixões –, precisamos entender melhor a diferença entre a boa autoestima e a verdadeira humildade. É preciso compreender que a busca de uma melhora puramente afetiva é pobre e insuficiente para o ser humano, que também é racional e relacional e, portanto, ético.
A boa autoestima é apenas um sentimento. Nasce do âmbito da psicologia. É um sentimento positivo sobre si mesmo. Já a humildade é uma virtude moral. É muito mais que um estado de ânimo: é fruto do conhecimento e da aceitação interior das qualidades e defeitos de cada um. É a velha sabedoria da pessoa que sabe aceitar-se tal como é, porque foi ensinada a conhecer-se desde pequena com as suas virtudes, tendências, vícios e inclinações. E aprendeu que a perfeição humana só virá depois de muitos anos de luta e de ajuda dos outros.
            Infelizmente, seja por pura ignorância, seja por um sentimentalismo disfarçado, alguns educadores exibem atualmente um medo excessivo de mostrar a verdade no mau comportamento de seus pupilos. Devido a uma mistura de sentimentos de culpa com receios de contristar na correção, preferem convencer os educandos de que não têm defeitos, de que o importante é serem espontâneos e fazer o que gostam. Tentam inculcar-lhes uma falsa autoestima, inclusive à custa da verdade sobre si mesmos. É lógico que o bom educador deve preferir educar no positivo, prevenir e combater complexos de inferioridade, mas nunca em detrimento da realidade, fazendo crer aos jovens que são melhores do que são. A verdade sempre se impõe, mais cedo ou mais tarde, e o engano inevitavelmente provoca uma frustração maior.
            Parece, portanto, que o mais saudável e eficiente é educar tanto na humildade quanto na autoestima. Ambas podem ajudar o jovem a enfrentar-se e a enfrentar os desafios da vida. Uma pessoa pode ter sentimentos de autoestima elevada por ter boa aparência, apresentar bons resultados acadêmicos ou esportivos, possuir dons artísticos invejáveis etc. Neste caso, o aprendizado da virtude da humildade – ensinando que esses diferenciais são dons “emprestados” que devem ser utilizados para o serviço aos outros, por exemplo — contribuirá para “baixar a crista” do privilegiado. Por outro lado, há pessoas que exibem atitudes erradas de humildade, como um exagerado desprezo por si mesmo, seja porque não é muito sociável, por ter claras limitações intelectuais, encontrar-se em uma situação financeira difícil etc. Nessa situação, um apoio e incentivo no sentimento da boa autoestima, através de elogios aos trabalhos escolares ou de pequenas iniciativas positivas no ambiente familiar, por exemplo, poderá estimular essas pessoas a esquecer-se de si mesmas e a não ficar preocupadas com sua imagem perante os demais. Portanto, humildade e autoestima, apesar de estar em âmbitos diferentes, podem ajudar-se mutuamente a buscar o equilíbrio interior: a autêntica humildade será sempre o melhor antídoto contra o complexo de inferioridade que brota de uma afetividade tendendo para o pessimismo e a apatia. E o estímulo de uma razoável autoestima pode produzir arranques de motivação. A humildade recorda que o sentimento de autoestima deve estar unido à verdade. E a boa autoestima pode elevar uma visão negativa da vida e das coisas que, em geral, causa uma humildade exagerada. Encontrar este equilíbrio entre o mundo afetivo e o mundo racional-volitivo é uma das missões da educação ética. O aprendizado das virtudes morais é o caminho para alcançar esse equilíbrio motivacional.
            Infelizmente, diante da cultura atual — na qual parecem prevalecer a mentira, o "parecer ser" ou simplesmente ter, e ter mais que os outros — o ideal educacional de formar na busca da perfeição do ser humano acaba por desfigurar-se. Os colégios, pressionados por essa dinâmica e por outras pressões sociais pouco dignas da natureza humana, acabam oferecendo apenas aquilo que seus “clientes” — entenda-se pais – privilegiam, resultando depois no desprezo pela verdadeira educação de excelência. Essa nova pedagogia tornou-se, na prática, uma antieducação, pois deixa lacunas profundas no educando, que mais tarde as sentirá. Hoje se educam as pessoas para ser, mais do que competentes, competitivas. São incentivadas para viver a “lei da selva”: pode mais, não aquele que tem mais qualidades, mas sim o que grita mais, quem tem mais bens materiais ou é mais intrépido. Uns acentuarão sua arrogância e se autoafirmarão humilhando os demais com os seus diversos meios de poder. São os casos frequentemente noticiados do bullying e da indisciplina perante os professores. Outros serão vítimas de uma timidez crescente que criará depois um mecanismo de autodefesa, buscando a autoestima, de forma pouco reta, através do êxito escolar ou esportivo, motivados pela vaidade. E um terceiro e mais numeroso grupo, que fica entre esses dois, tentando sobreviver com ideais medíocres na lei do mais forte, porque na prática lhes falta a capacidade de buscar os ideais mais altos uma vez que são fracos. Não parece, portanto, que os colégios estejam cumprindo a sua missão de educar integralmente o ser humano.
            Qualquer educador que vê este processo de desordem moral crescendo nas últimas décadas, naturalmente fica assustado e perplexo. Consegue intuir que muitas desordens sociais presentes nos adultos – corrupções, infidelidades, depressões, desvios afetivos, libertinagens, doenças mentais – têm suas origens nessas sementes venenosas a que nos referimos acima, plantadas no período escolar e regadas pela cultura de uma fragmentação ética. É possível agora entender a questão introdutória do porquê de as pessoas precisarem ser ajudadas nas livrarias e nos consultórios psiquiátricos. O que fazer?
            É preciso revelar ao jovem desde cedo que dentro de si “vive” um déspota que o escraviza. Ele — o déspota — exige desde pequeno de forma desmedida a satisfação das necessidades humanas, gerando um enorme amor por si mesmo e um desprezo pelos demais. Este déspota só se enfraquecerá quando deixarmos de alimentá-lo com o exagerado consumo ou posse de bens materiais ou ainda de estimulá-lo com vaidades efêmeras e ilusórias. Enfraquecendo esse falso poder do déspota, será possível passarmos a alimentar de forma mais justa o amor aos outros. É preciso desmascarar as falsas regalias de uma vida “independente”, de uma vida sem compromisso, dos sonhos de uma vida solitária e de uma vida abastada, que lhe exige o “déspota” e a cultura materialista e tirânica do momento. Somente quando tivermos em nossa vida pessoas a quem amamos mais do que ao “déspota”, será possível libertarmo-nos desta escravidão. Como é fácil verificar esta dinâmica do amor nas famílias numerosas ou numa comunidade na qual reina o serviço generoso e abnegado!
            Outras formas de enfraquecer o “déspota” é ensinar aos jovens desde cedo os valores da sinceridade, da generosidade com os próprios bens materiais, da pontualidade no relacionamento com os demais, no cumprimento exigente dos próprios deveres familiares e escolares e no exercício constante do perdão. Agindo assim, será sem dúvida possível vislumbrar uma sociedade vivendo realmente uma humilde autoestima.

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