ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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As falácias da liberdade


Este artigo é um resumo da palestra conferida ontem no Instituto Militar de Engenharia (IME) cujo o tema foi A Educação da Liberdade Humana. Poderão acompanhar a leitura do artigo em paralelo com a apresentação em powerpoint abaixo.




Analisando nos últimos anos as avaliações feitas pelos meus alunos universitários sobre o Curso de Ética e Competências, que ministro em diversos centros de ensino e no qual discuto temas éticos, chama a atenção que sempre prevaleça o tema da liberdade. Costumo refletir com relação a esse resultado. Confesso que a liberdade também é um dos meus temas preferidos e talvez por isso minha exposição sobre o tópico desperte mais facilmente minha paixão por ensinar.
De todas as maneiras, procuro pensar em cima dessa preferência e às vezes parece-me que nesse resultado esteja escondido um desejo — mais ou menos inconsciente — por mais liberdade. É possível perceber nos dias que correm, não sem razão, que a nossa liberdade pessoal nos campos individual, político e econômico se vê muitas vezes reduzida, apesar de habitualmente pensarmos o contrário. De algum modo, as pessoas começam aos poucos a descobrir que a tão reivindicada liberdade absoluta dos finais do século XX, bem como a experiência do relativismo reinante, são mais teóricos do que reais. Na prática, como já denunciado por vários filósofos do século XX, tomar decisões sem apoio em razões objetivas ou orientação pelos princípios éticos universais, mas baseando-se em meros sentimentos subjetivos, facilmente conduz a sociedade a ser dominada pelos interesses de uns poucos. Estes, com recursos midiáticos, econômicos e retóricos, acabam instilando na população uma sensação de liberdade, quando na prática as pessoas são escravizadas pelo sistema. Depois, resta a nós lamentarmo-nos pelas corrupções políticas, crises financeiras, violências familiares e urbanas, dependências materiais e doenças de todos os tipos.
                Nestas minhas aulas às quais me referi, tentando “vacinar” meus alunos contra esse vírus da libertinagem que cresceu na pós-modernidade e avança assustadoramente, procuro desmascarar as atuais falácias que circulam hoje contra este dom incrível que é a liberdade humana. Vendo a alegria que tais explicações provocam neles, achei por bem compartilhar com os meus queridos leitores algumas dessas breves pinceladas expostas em sala de aula, com o intuito de também vaciná-los contra tantas desgraças sociais.
                Em geral, a primeira máxima que levanto para discussão é uma que todos costumam compartilhar: “liberdade é fazer o que se quer”. À primeira vista, tal expressão parece estar correta. Depois, quando elucido com dois exemplos simples – um motorista andando na contramão em uma autoestrada ou um consumidor de shopping martelando as vitrines das lojas – meus alunos ficam com dúvidas e percebem que quem faz o que quer acaba caindo mais tarde numa contradição fazendo o que não quer: ir para uma prisão, uma delegacia, um hospício, um “outro mundo”, e obrigando muitas pessoas a aceitar uma tragédia que também não querem. Depois que se cai na conta de que fazer o que se quer, sem lógica, sem estar apoiado numa verdade que racionalize a escolha é uma atitude pouco humana, meus alunos facilmente conseguem reconhecer o erro, e modificam a máxima para “libertinagem é fazer o que se deseja”, desmascarando a mentira anterior. Em seguida, sou eu que insisto com o falso chavão, procurando relançá-lo como uma verdadeira máxima, com seu verdadeiro conteúdo. Procuro demonstrar que, efetivamente, liberdade é fazer o que se quer porque se descobriu o bem. Porque antes da ação, a racionalidade identificou uma verdade, um bem, uma perfeição que convém para a realização pessoal e por isso é querido, ainda que a afetividade não deseje, não goste, não se satisfaça no início. Sinto-me feliz, na primeira parte da aula, quando consigo que eles interiorizem que a liberdade não existe sem a verdade. Que é muito diferente afirmar “eu quero, porque é um bem” do que “porque eu quero (sem racionalidade, mas movido somente pelo desejo), é um bem”.
                A segunda falácia que coloco no ringue da sala de aula é tão ou mais insinuante que a anterior: liberdade é não ser impedido pelos outros para fazer o que se quer. Mais uma vez, depois de esclarecer com dois exemplos – um jovem que decide morar sozinho numa ilha afastada de tudo e de todos; ou um casal que adota um estilo educativo negligente (sem exigir nada) para educar seu filho – meus alunos rapidamente conseguem deduzir que são opções pouco emancipadoras. No primeiro caso, o aventureiro sem ajuda dos demais facilmente se prejudicará, primeiro com a natural indolência e preguiça de uma natureza humana fraca, e em seguida com a falta de perspectivas e de sentido na vida; por fim, é provável que, na ausência de qualquer ajuda em caso de necessidade, possivelmente nem sobreviverá. Nem coloco em discussão as omissões deste indivíduo em seus deveres de justiça para com os seus familiares e demais concidadãos.
No segundo caso, os alunos percebem que esses pais libertinos sofrerão muito mais não só com as rebeldias do filho, mas com os contínuos desgastes que as irresponsabilidades do seu pimpolho lhes provocarão: reclamações frequentes da coordenação da escola, do Conselho Tutelar, do hospital, da polícia ou da própria vizinhança. Como comprovamos, nos dois casos acima, a pretendida liberdade exterior só existe na imaginação ou na teoria. O mundo real constantemente nos lembrará que, queiramos ou não, sempre seremos animais racionais dependentes, e que por isso nossa liberdade exterior sempre será relativa. A verdadeira liberdade sempre será uma liberdade compartilhada. Negar a natureza humana sempre será um processo autodestrutivo e acarretará em muita solidão, escuridão e mais sofrimento.
                Mas a revelação mais importante, ainda no âmbito desta segunda mentira, vem em seguida: o pior impedimento para fazer o que se quer não é o exterior, mas o interior. Somos nós mesmos. A indolência a que me referi, do nosso eremita na ilha, é experimentada por todo ser humano. Todos sentimos um “déspota interior” que sempre nos exige prazeres materiais sem medida, assim como fugas do esforço e do sacrifício. Uma das principais metas da conquista da liberdade é libertar-nos desse “tirano” que nos obriga a fazer coisas que nós, muitas vezes, não queremos, e outras vezes nos força a omitir-nos em ações que gostaríamos de fazer. O segredo para essa libertação é justamente o contrário do que os protagonistas dos casos acima pensavam e a maioria atualmente pensa: aproximar-se mais dos outros. Só com a ajuda e o amor aos outros e dos outros conseguiremos ter uma força centrípeta que nos impulsione para fora da nossa “bolha” interior e que fure as suas diversas camadas. Quando levo meus alunos a vislumbrar que a liberdade interior é muito mais importante que a liberdade exterior, em geral já me sinto realizado em sala de aula. Quando consigo que eles percebam que a autoridade de um pai, de um professor, da lei justa não é um impedimento, mas uma condição e um facilitador do exercício da liberdade, então entro em “êxtase ético”!
                Uma terceira tentação em nosso tema, que confunde grande parte dos jovens de hoje, é confundir liberdade com livre arbítrio. Efetivamente, ambos são parecidos, pois têm em comum a capacidade de escolha. Mas a primeira exige conhecer uma verdade que torne a pessoa realmente feliz, enquanto que o outro acredita que a liberdade deve preceder a verdade e o bem. Esta discussão é antiga, disputada por inúmeros filósofos desde o século XIV, e não vou entrar nela. Mas quero esclarecer algo que comumente preciso enfatizar em sala de aula: escolher “livremente” o mal, escolher erradamente, por mais que seja um exercício legítimo do próprio livre arbítrio e gere uma sensação de liberdade, não é liberdade. Escolher erradamente algo, embora seja um sinal da existência da liberdade na vontade, não é um ato ou afirmação da liberdade, mas algo que se opõe a ela. Para entender melhor, podemos pensar que um erro é sinal da existência do conhecimento na inteligência, mas não é um ato de conhecimento verdadeiro, e sim falso, que produzirá desgraça. É importante lembrar que o livre arbítrio se refere apenas aos meios que levam ao fim do homem e não ao próprio fim, que é ser feliz. E este fim o homem não é livre para escolher. A inclinação para a felicidade está por cima de tudo e não está sujeita a eleição. A felicidade está em nós com anterioridade. Desta ideia nasce a importância da ética, que é justamente a arte de ser feliz. Quase sempre meus alunos acabam por concordar comigo.
Quando chego neste ponto, já no final da aula, meus alunos costumam ter o que eu costumo chamar de “conversão ética”. Percebo que costuma nascer neles um desejo sincero de transformar em vida aqueles conceitos que até o momento somente existiam na razão teórica. Descubro que chegaram às portas do fim último de todo o processo educacional, iniciado desde a educação infantil: o pleno desenvolvimento da razão prática, que é essa capacidade de fazer escolhas acertadas para alcançar a excelência humana. Quando conquisto para meus alunos o vislumbrar de que, no fundo do fundo, essa excelência reside na capacidade de amar, então minha vocação como educador “vai ao delírio”. E assim costumo terminar essa aula do meu curso de ética com as seguintes questões, que gostaria de deixar também para os leitores: Afinal, por que só nós seres humanos temos este dom da liberdade? Qual será a razão última? E por que muitos querem dizer que não a temos? Ou admitem que a possuímos, mas sem natureza? Por que custa tanto conquistá-la?

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