ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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ENTREVISTA AO JORNALISTA JONATAS DIAS LIMA DO GAZETA DO POVO (CURITIBA)


1)     Há linhas na educação que defendem que o ensino de virtudes é algo subjetivo e por isso deveria se limitar ao foro íntimo, sem ser adotado como programa em sala de aula. Como o senhor responde a essa crítica?


As pessoas que têm essas linhas de educação são as mesmas que acreditam que a liberdade do homem é absoluta e ilimitada. A rejeição à objetividade da verdade é uma reação que já têm muitas décadas e que de alguma maneira é uma repulsa ao legalismo da lei moral, repulsa na qual compartilho: não podemos querer que todos vivam do mesmo jeito, em todas as circunstâncias e abstraindo-se de culturas, condições socioeconômicas, etc. A lei moral-ética deve ser a consequência da descoberta do bem, do que leva à felicidade a pessoa humana e não sua causa, como queriam os iluministas europeus. Eu vivo tal princípio ético porque descobri que é um bem para mim e para os outros, e não, ao inverso, porque está na lei ética tal princípio que me obriga a vivê-lo que torna a ação um bem. Essa reação ao legalismo “kantiano” levou o pêndulo histórico para o lado oposto nos inícios do século XX. Achar que então tudo é permitido, nada deve ser proibido, que deve ser defendido e privilegiado a liberdade sem limites, sem outras restrições que a liberdade dos outros, que tudo é subjetivo... O problema desta postura é que se acaba produzindo, depois, na prática, a mesma “ditadura” que se pretendia combater com o legalismo déspota. É a chamada “ditadura do relativismo”, que provoca graves injustiças sociais e uma autêntica guerra cível “sem armas”, pois na hora de se dirimir entre duas posturas rivais, necessariamente irá ganhar aquela que tiver mais força, mais poder, mais influência econômica, provocando a mesma desarmonia social. Aceitar o subjetivismo na educação é assinar embaixo a omissão do dever de educar e autorizar o caos social decorrente de um orgulho intelectual que sempre se acredita iluminado.
Uma postura mais moderna da educação, na qual alinho, dita que é possível compaginar a objetividade e a subjetividade da verdade da virtude. Ela acredita que todo o processo educativo tem que acreditar que toda a criança tem um poder inato de se encantar com a verdade, com o conhecimento, e quando é ajudada pelos pais e educadores, num ambiente de carinho e respeito, interagindo com os seus iguais, ela consegue não só descobrir a verdade sobre o mundo, mas sobre ela mesma, vivendo mais feliz por meio da prática da virtude. Ela consegue descobrir a arte de ser feliz! Consegue perceber que é muito melhor estudar numa mesa do quarto das 14 às 16 h do que ficar deitado na cama, vendo tv e dando uma olhada numa matéria escolar ao mesmo tempo. Ela consegue descobrir sozinha que é muito mais enriquecedor sacrificar-se por um amigo, ajudando-o no dever escolar do que ficar brincando sozinha no computador horas a fio. A virtude tem um encanto que motiva a criança a busca-la sempre mais, quando ela encontra o ambiente adequado para se encantar com a virtude. Ela descobre pelos educadores uns princípios éticos gerais objetivos para toda a natureza humana – preciso, por exemplo, ser responsável nos estudos, preciso ser amigo dos que convivem comigo (olhando os exemplos anteriores) – e, depois, caberá a ela decidir como aplicar esses princípios gerais ao seu caso particular – devo estudar com rijeza na mesa, por mais que eu não goste; poderia ir na casa de fulano ajuda-lo em matemática, que está fraco – de forma subjetiva. Educar é ensinar a ser subjetivo na estrada da objetividade da natureza humana. Esta é a riqueza da liberdade humana!
Portanto, é possível sim educar a criança na objetividade da virtude que consiste em que o educador vá iluminando o caminho do bem com os seus princípios éticos que conduzem os pupilos à verdadeira e real felicidade humana – que se experimenta vivencialmente – e fazer depois que eles vão querendo, aos poucos,  porque o querem racionalmente, O SACRIFÍCIO DA VERDADE, que os torna felizes. Permitir a subjetividade na educação é a forma mais desonesta de amar a qualquer criança e de permitir que ela viva egoisticamente. A felicidade do homem está em compartilhar e amar os demais.



2)     Instituições confessionais são as que tradicionalmente trabalham com virtudes, partindo de princípios religiosos. No caso das escolas públicas, é possível estimular um aluno a ser virtuoso sem adotar algum discurso religioso ? Qual seria o fundamento laico que justifique porque é bom ser virtuoso ?



Viver as virtudes éticas, conforme exemplificamos anteriormente, é uma questão puramente ética, não religiosa. É uma questão de realização humana. O que está em jogo é a correta educação na liberdade humana, que precisa do aprendizado das virtudes para potencializá-la. O fundamento laico nasce da ideia que a educação das virtudes é uma questão da ciência antropológica. A definição do filósofo clássico Tomás de Aquino de virtude nos elucida bem esta questão quando nos diz que virtude é uma capacidade autoadquirida e livremente desenvolvida que aperfeiçoa e facilita as potências e a ação do próprio homem. Isto é, quando se educa a criança desde os primeiros meses na virtude da temperança, por exemplo, nos seus imensos e diversos campos de atuação, você está potencializando que a criança pense mais, escolha melhor, queira o que mais lhe convém como pessoa humana, consiga uma capacidade de amar os demais, renuncie sem traumas a todo o impulso irracional de prazer – qualidades que não adquirirá facilmente se não for estimulada pelos educadores - de forma que aprenda a arte de viver feliz, como deseja qualquer pai de seu filho. As entidades religiosas costumam educar nas virtudes éticas porque sabem que elas são o fundamento para uma futura e correta vida religiosa e para a vivência das virtudes sobrenaturais, dados por Deus, assim como a filosofia é a base da teologia.



3)     É possível criar “novas virtudes” ? Porque as virtudes são aquelas sempre citadas (honestidade, fraternidade, etc) e não outras?



 Já se estuda o ser humana faz mais de 25 séculos  - desde os clássicos gregos – e acredito, portanto, que depois de tantos anos, seja difícil descobrir uma nova virtude.  A pessoa humana já foi suficientemente mapeada para se entender como ela deverá se comportar se deseja alcançar a perfeição a que se destina.
O que sim se precisa ir descobrindo cada vez com mais profundidade é como formar melhor a criança na prática dessas virtudes de forma que ela interiorize esses ensinamentos de forma mais conatural e depois queira aplicar esses conhecimentos gerais ao seu caso concreto, usando bem de sua razão prática (prudência).
Apoiado na minha própria experiência pessoal do momento, enxergo a necessidade de voltar a formar muito bem os pais e professores, de maneira que não só entendam a importância desse aprendizado na realização educacional e existencial da criança, mas que se decidam a falar a mesma linguagem ética, com o exemplo e com a palavra, numa autêntica aliança educativa.
Em seguida, cada vez mais deverá ser privilegiado na escola uma educação personalizada, buscando estratégias educativas que ajudem a acompanhar cada criança no seu desenvolvimento único e irrepetível, não só acadêmico, mas também ético, enxergando nessa relação aprendizado escolar-aprendizado ético o fundamento da realização humana. Uma dessas estratégias de educação personalizada que produz profundos resultados na interiorização dos valores e virtudes na criança é a preceptoria periódica com um preceptor um pouco mais velho, experiente, amigo e com autêntica autoridade moral.
Agindo desta forma, conseguiremos cada vez mais que muitos jovens se encantem com a vivência das virtudes éticas, percebendo que a sua vida será uma constante produção de beleza, pelas suas atitudes e trabalhos, que encantarão também todas as pessoas que conviverão com ela.


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