ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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A virtude da temperança: o AEIOU da educação infantil


                É frequente ser questionado nas diversas palestras que ministro em várias instituições de ensino do por que insisto tanto na importância do estímulo à virtude da temperança na educação infantil. O motivo principal dessa minha “obsessão” nasceu do estudo da tese de doutorado de Jose Manuel Roqueñi (Educación de la Afectividade: Una propuesta desde el Pensamiento de Tomás de Aquino. España: Editora EUNSA, 2005), no qual o autor fundamenta com propriedade a urgência da prática dessa virtude nos dias de hoje.
Segundo o autor, uma criança do zero aos sete anos de idade, por ainda estar formando sua capacidade intelectiva, não consegue vislumbrar bens mediatos, ou seja, aqueles que se conquistam com esforço e num futuro próximo ou remoto, mas que são os que realmente satisfazem o ser humano, pois duram muito mais e são mais convenientes para a sua natureza racional. Portanto, enquanto essa falta de percepção e de fraqueza permanecerem, é natural que a criança tenha uma forte inclinação para buscar a satisfação de suas necessidades de forma exagerada em outros bens, chamados imediatos, justamente por serem mais efêmeros e fáceis de conseguir. Essa inclinação, com o tempo, vai se fortalecendo ainda mais, principalmente porque estes meios não lhes satisfazem e é ilusório o fato de que o mero aumento na quantidade desses bens imediatos a satisfaçam algum dia. Para exemplificar de forma analógica, seria como deixar a criança alimentar-se apenas de algodão doce e esperar que ela seja satisfeita e bem nutrida apenas com guloseimas! Fica, portanto, evidenciado do porque é fundamental estar insistindo na formação dos pais na necessária intervenção do educador (pai e professor) para estimular a criança a substituir o “algodão doce” pelo “filé-mignon”, antes que essa inclinação enganosa se torne um mecanismo vicioso e mentiroso.


Essa é a virtude da temperança, que nessas idades ainda não se chamam propriamente virtudes, mas de hábitos bons. A verdadeira virtude necessita que essa capacidade intelectual esteja devidamente desenvolvida de forma a gerar o apetite racional, próprio do conceito de virtude. No final do artigo, exemplificaremos algumas intervenções práticas que os educadores podem e devem fazer para que a criança vá adquirindo hábitos corretos de temperança.
                Mas antes disso, é preciso elucidar os educadores que além dessa incapacidade antropológica que as crianças apresentam para descobrir e querer o que vale a pena, elas experimentam uma segunda força contrária para as escolhas corretas: uma forte tendência egocêntrica. Cada criança nasce com porcentagens muito elevadas de amor a si mesmo, que de alguma maneira lhes forçam, de forma desmedida e não conveniente, a buscar coisas que lhes satisfaçam, pessoas que lhes agradem e passatempos que lhes contentam. Todas essas coisas, pessoas e passatempos são boas e necessárias para a sua realização, mas até certos limites. A criança não consegue perceber que satisfazer essas necessidades sem racionalidade, que seu ego lhe impõe, lhe tornam cada vez mais egoísta. Por isso, um dos grandes ideais dos educadores é conseguir substituir na criança esses altos índices de amor próprio por outros de amor ao próximo, diminuindo de forma paulatina e suave os primeiros e aumentando os segundos, com pequenas renúncias pelos outros. A criança tem que ser ajudada a descobrir que só será feliz quando conseguir amar aos outros mais ou igual a si mesma. Enquanto não acontecer este equilíbrio interior, ela sempre terá uma percepção da realidade deformada e se utilizará das coisas e dos outros de forma a satisfazê-la de forma errada e imatura. Com o tempo, se isolará dos outros, porque não amará ninguém; ou então, os outros se afastarão dela, porque se sentirão instrumentalizados ou injustiçados.
                A arte de educar consiste justamente em saber dosar quando se deve satisfazer esse amor exagerado da criança com coisas, pessoas ou passatempos e quando se deve adiar ou diminuir estas satisfações. Algumas teorias freudianas anunciaram o perigo de “podar” essas satisfações da criança ou de adiá-las, pois poderiam traumatizá-la. Essas teorias estavam certas. Não se pode podar ou negar sem colocar nada em troca, criando como um vácuo no coração da criança. O segredo dessa ciência do amor está, ao invés de podar, castrar, negar prazeres à criança, que ela substitua esse amor próprio por amor aos demais. Esse é o sentido da renúncia. A título de exemplo, ela precisa vivenciar que deixar de comer uma nova porção de pudim para que os outros membros da família possam também comer lhe torna feliz. Ela precisa descobrir que arrumar o brinquedo na gaveta, para que os irmãos possam também encontrá-lo quando quiserem é mais prazeroso do que ceder na desordem. Ela necessita concluir que não correr no corredor da escola para não atrapalhar o trabalho dos demais é o mais correto. Como vemos, educar nos hábitos da temperança consiste em ajudar a criança a enxergar que ela não é única no mundo, mas que existem outras pessoas que ela precisa se preocupar, alegrar, servir, amar e compartilhar. Naturalmente, no início deste processo formativo, estas negações (substituições) de prazeres farão a criança sofrer –qualquer sofrimento humano é justamente privá-lo daquilo que seu ego mais deseja–, mas depois, aos poucos, ao experimentar um prazer mais forte que vem do amor aos demais, a criança vai aprendendo que esse é o caminho da verdadeira felicidade. Ela começa a desenvolver o que se  chama de razão prática, que lhe capacita a fazer cada vez mais rapidamente as escolhas corretas: adiar escolhas que gosta e escolher coisas que não gosta, por amor aos demais.
                Da ideia anterior, nasce uma terceira força negativa que está dificultando a criança a substituir o algodão doce pelo filé-mignon: o amor exagerado de muitos pais nos dias que correm, com suas decorrências de superproteção, mimos, caprichos, fugas educativas, fraquezas sentimentais, entre outras. O motivo é simples: muitos pais vêm de gerações anteriores nas quais já foram educados com as duas forças negativas que descrevemos anteriormente, portanto, de forma pouco perceptiva do bem e com tendências egoístas e, por isso, como dizíamos anteriormente, não aprenderam a descobrir os bens mediatos, mas somente os imediatos; e/ou não aprenderam a ética da substituição das coisas/pessoas/passatempos pelo amor aos outros. Quando chegam à idade adulta, com estes desajustes psicológicos, pode acontecer que os filhos se tornem “extensões” do próprio ego, utilizando-os para se satisfazerem em consolos, carinhos e sentimentos egoístas e não consigam sofrer o inevitável sacrifício que exige a dever de educar. Consequentemente, é compreensível que sintam depois enorme dificuldade em negar aos filhos tudo o que eles queiram de forma desmedida, pois na prática se sentirão negando-se a si mesmos, coisa que nunca se habituaram a realizar anteriormente. O sofrimento dos filhos ao renunciar alguma coisa, de alguma forma, é transferido para o ego dos pais. Podemos concluir, portanto, que muitas vezes a forma de educar os filhos reflete, em geral, como cada pai foi se educando ao longo da vida.
                Outro fator relacionado ainda a esta terceira força negativa é o sentimento de culpa de muitos pais ao estarem ausentes muito tempo devido às suas obrigações profissionais. Os motivos destas ausências podem ser diversos, uns mais necessários do que outros, e não aprofundaremos aqui esta discussão, mas é fato que muitos pais são levados a compensar a falta da presença no lar por “presentes” dos mais diversos tipos, materiais ou psicológicos (modelos permissivos de educar). Naturalmente, os excessos de bens imediatos pelos mediatos serão a forma habitual dos pais educarem os filhos, dificultando-os a colocar ordem no próprio interior; e, por outro lado, colaborando na desordem desse amor próprio exagerado dos filhos, pois estarão continuamente alimentando-os de maneira nociva, quase sempre de forma inconsciente.
                Penso que agora já podemos enxergar com mais clareza o porquê de hoje em dia ser premente insistir na educação do hábito da temperança. Em primeiro lugar, pois percebemos que muitas crianças estão sendo educadas de forma incorreta por muitos educadores e estes não enxergam suas inevitáveis e tristes consequências futuras. Depois, porque vivemos numa sociedade relativista e materialista, na qual se pressiona mais ainda esses pais a permanecerem nessa mentira educacional. E por fim, porque é preciso esclarecer que só com a virtude da temperança os pais conseguirão produzir os bons frutos educativos que todos desejam, que costumo chamar do AEIOU da educação infantil (forma mnemônica). Vejamos quais são esses frutos.
                Em primeiro lugar, o hábito da temperança proporciona com o passar do tempo um maior Autodomínio na criança, ou seja, enquanto ela for aprendendo a linguagem ética desde cedo, ela irá se alfabetizar no bem e conseguirá traduzir com rapidez que em muitas ocasiões da vida ter que dizer para si mesmo ou para um amigo “não” significa, na realidade, dizer “sim”: sim para a boa autonomia, para o respeito aos demais, para verdadeira liberdade.
Depois, o segundo fruto da temperança é um maior Equilíbrio. Terá uma maior capacidade de aguentar e superar as frustrações e dificuldades da vida. Não ficará à mercê das circunstâncias do ânimo, do clima, da opinião dos outros, da condição social, do reconhecimento, da visibilidade, mas apresentará uma maior harmonia interior que se refletirá num sorriso constante, num bom humor habitual, na certeza de que se colocar esforço e trabalho nos seus deveres, com persistência, alcançará os objetivos que estão de acordo com as suas potencialidades e capacidades.
Continuando a vislumbrar os frutos da temperança, uma criança temperante se torna mais Inteligente. Já os antigos gregos chamavam à temperança aquela qualidade que “protege a inteligência”. Tal é a importância desta nossa potência superior, que os antigos sentiam a necessidade de protegê-la da animalização e da destruição. É dessa época que surge a expressão “pão e circo” para o povo, quando seus governantes queriam manter a plebe sob suas mãos ou de forma anestesiada. Esta estratégia de dominação funciona até hoje, seja a nível pessoal, seja a nível coletivo. Efetivamente, uma criança que desde pequena foi sendo satisfeita em todos os seus anseios afetivos, tem mais dificuldade na percepção do bem e do que vale a pena, pois esses valores em geral estão atrelados ao sacrifício e ao esforço. O ego lhe dominará muito mais facilmente, assim como a mídia, os amigos, os antivalores. Quando as paixões humanas são fortalecidas pelos bens imediatos e pelo egocentrismo de forma exagerada, o apetite concupiscível (aquele apetite para o prazer sensível) acaba enfraquecendo o apetite irascível (aquele apetite para o esforço e o bem árduo) e o apetite racional. Essa inclinação para o mais fácil de alguma maneira vai deixando a criança menos inteligente, pois lhe incapacita para a descoberta dos verdadeiros prazeres do ser humano, como são o prazer das descobertas intelectuais e o prazer do verdadeiro amor aos demais. É preciso recordar com frequência que a natureza da criança lhe predispõe para se encantar com as coisas, com as belezas da natureza, com as maravilhas dos valores. Que pena quando os pais abafam estas potencialidades por ignorância educacional.
O quarto fruto da temperança é a Ordem. Já falamos acima desta ordem das potências, mas acredito que vale a pena frisar que a nossa criança só se sentirá feliz quando os motores da inteligência, vontade e afetividade estiverem funcionando perfeitamente e de forma sincronizada como um avião trimotor que impulsiona a aeronave de forma correta para frente. Portanto, é preciso estar continuamente ordenando e fortalecendo as potências da inteligência e da vontade de forma a capacitar a afetividade para o correto direcionamento dos impulsos afetivos e egocêntricos para os outros.
Por fim, uma criança bem educada pelos pais no hábito da temperança aprenderá a Usar bem as coisas e as pessoas, sempre como meio e nunca como um fim da vida. Inevitavelmente, uma pessoa intemperante tende a confundir aquilo que é meio pelo que é fim. Por exemplo, colocar o dinheiro acima de tudo, ou buscar requintes exagerados na comida ou em festas dispendiosas e desproporcionadas ao que se comemora, etc.
                Para terminar, gostaria de propor algumas medidas práticas que os pais poderão se exercitar com os seus filhos no hábito da temperança, sem querer esgotar o tema, pois será objeto de artigos futuros. Mas segundo Aristóteles, a temperança deve ser adquirida principalmente em 4 subcampos: 1) aspectos relacionado à ordem temporal e espacial; 2) maneiras corretas de bom relacionamento (convivência); 3) formas convenientes de boa conduta pessoal, buscando uma maior beleza interior, privilegiando-a à exterior; 4) cuidados com os excessos e supérfluos na comida/bebida, sono, diversão, chamada  da virtude da sobriedade. Obviamente, os pais terão que adequar cada exemplo que se dará a seguir à idade e capacidade de cada filho, pois não existem regras gerais nestes campos. A virtude da prudência tem a missão de adequar cada princípio geral ao caso concreto.
                A forma de conquistar a ordem temporal dos filhos é habituá-los a dar-lhes uma sequência de atividades. Por exemplo, a mãe deve dizer quando inicia o fim de semana o que vão fazer: “neste sábado, de manhã cedo iremos à casa da vovó, depois vamos à feira, almoçamos em casa e de tarde vamos passear no shopping”. Só o fato de colocar uma sequência de atividades no dia das crianças faz com que elas fiquem mais calmas e tranquilas. Caso contrário, qualquer educador comprova facilmente como elas ficam de mau humor e briguentas. Para conseguir a ordem espacial, o mais indicado é habituar os filhos a “batizar” lugares das coisas junto com eles: “onde vamos guardar os brinquedos?, os sapatos?, a roupa?, os copos?”, e forçá-los a guardarem estas coisas na hora certa, com persistência.
                A maneira mais eficaz para habituá-los na boa convivência é conseguir que fomentem o respeito com os demais, ensinando-os a agradecer e a pedir ”por favor”; que se exercitem na amizade desde cedo, chamando os coleguinhas pelo nome, que olhem nos seus olhos quando falam com eles, que os chamem para brincar juntos; que descubram a alegria de compartilhar as coisas com os colegas –o brinquedo no parque, o bolo do lanche, a festa de aniversário-; que tenham espírito colaborativo, como obedecer às professoras, ajudar na montagem das cadeiras para o jantar, etc.
                Crescer na boa conduta são inúmeros aspectos relacionados à boa comunicação (não comer com a boca cheia, bater à porta quando se vai entrar numa sala ou quarto, não falar palavrão ou palavras ofensivas, falar mais alto ou mais baixo), à boa postura (usar o guardanapo, não colocar o dedo no nariz, comer direito, não correr e gritar em locais inconvenientes), ao vestuário (vestir-se corretamente, adequadamente em função da atividade, limpo, cuidados com o pudor, etc) e ao brincar (de acordo com a idade, com o sexo, com o local, com o tempo correto, etc).
                Por fim, os pais devem educar em diversos hábitos relacionados com a sobriedade, como o uso correto do sono, que é dormir o tempo certo, na hora certa, no local certo; cuidar várias recomendações dos pediatras sobre a boa alimentação, como comer verduras, não comer guloseimas, não permitir caprichos, que comam sozinhos sem ajuda de ninguém com 1 ano de idade, não comer vendo TV, etc. Toda a preocupação com o número correto de brinquedos, de forma que não os tenha em excesso (se ganham muitos dos parentes, os pais devem guarda-los e trocá-los 3 vezes ao ano), com o número exagerado de tempo na TV/videogames/desenhos. Gastos exagerados com festas de aniversários. Uso dispendioso de roupa e todos os cuidados para que durem muito tempo e se possam passar para os irmãos.

                Como vemos, os exemplos são inúmeros. A exigência é grande. Lembrar de todos estes aspectos todos os dias pode ser difícil. Mas o importante é que os pais reflitam, com a leitura deste artigo, que o trabalho de formar uma criança é bastante complexo e exige seriedade no uso destes recursos. Acredito que o mais motivador para perseverar nesta “batalha educativa” é saborear os frutos do AEIOU da temperança, pois eles aparecem muito rapidamente na educação infantil. Quando os pais se omitem nesta matéria, os frutos amargos também aparecem, mais cedo ou mais tarde, e acredito que nenhum pai honesto pode querê-los para os seus filhos.

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