ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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EDUCAR COM LIMITES, MAS SEM TRAUMAS



EDUCAR COM LIMITES,
 MAS SEM TRAUMAS


  
            Ao nos depararmos nos noticiários com jovens de classe média abastados que agem de forma cruel e infra-humana, matando, por exemplo, sua própria família, ou então diante de pais que jogam o próprio filho recém-nascido no pára-brisa de um carro por raiva, é cada vez mais comum nos perguntarmos: o que é que está acontecendo com a humanidade? Como é possível que um ser humano possa chegar a estes níveis de violência e insensibilidade? O que será que leva essas pessoas a perderem totalmente a racionalidade e a virarem “bichos do mato”?
            Apesar de haver diversas possíveis respostas para estas indagações – sejam de índole médico-psiquiátrica, sociológicas, filosóficas, religiosas, educacional, etc – e de que, portanto, haveria que se pesquisar, caso por caso, para não se cair em generalizações perigosas e superficiais, acredito que em todas elas possa haver uma grande parte de culpa na deficiência, desde a infância, da educação do prazer. Uma deficiência que foi crescendo, desde os anos 70, paulatinamente, década por década, mas que, atualmente, - qualquer pai e educador percebem claramente – está já chegando a níveis bastante preocupantes...
            Se observarmos atentamente a figura 1, podemos descobrir o funcionamento, mais ou menos generalizado, dos mecanismos antropológicos de qualquer criança, desde os seus primeiros passos até à maturidade. Qualquer pai, educador, psicólogo, etc, tem experiência de que a dificílima      tarefa de educar consiste justamente em ir fortalecendo, ano a ano, passo a passo, num grande exercício de paciência, a inteligência e a vontade do “pimpolho” de modo que consiga que toda a sua carga afetiva-sentimental, instintiva-passional e os seus sentidos-gostos sejam moderados e direcionados para as grandes metas da vida. Antes da inversão da “chaveziinha” (< ? >), conforme a figura, qualquer criança viverá sob o domínio do prazer sensível e identificará – o que é um dos maiores enganos deste início de século – felicidade com prazer. Se qualquer pesquisador educacional perguntar a qualquer adolescente o que lhe torna feliz ou o que ele identifica como felicidade, descobrirá que para uns será dormir bastante e a qualquer hora, comer o que lhe der na “telha” e nas melhores praças de alimentação, divertir-se nos mais diversos recursos audiovisuais que a indústria eletrônica oferece para todos os gostos, viajar bastante e em todo feriadão, ir às festas mais badaladas e liberadas da “night”: enfim, identificará com as alegrias materiais, que são fugazes, rápidas, não deixam muita coisa no “ser” e, apesar de terem uma contribuição importante na felicidade, não são nem de longe o mais importante.

Buscar o prazer e evitar a dor


Noutros casos, o pesquisador detectará que o jovem adolescente identificará a felicidade com “fazer o que se gosta e fugir e/ou adiar o que custa”: é a dinâmica própria da velha doença dos sentimentos desvairados que se chama sentimentalismo. Sentir-se bem todo mundo gosta e deseja. O problema não está nisso. O problema está em parar nisso: em colocar o fim da vida nisso, pois, como será possível alcançar os ideais altos a que todo o ser humano normal anseia ou conseguir almejar uma capacidade séria e forte de compromisso, somente se sentindo bem na vida? Por fim, outros ainda alegarão que felicidade é ficar na minha “bolha”: no meu quartinho, na minha caminha, na minha mesinha, com ar condicionado, frigobar, computador-tv-videogame-DVD, cachorrinho, etc., livre dos perigos da vida...
            Podemos observar, portanto, que toda a criança, nos primeiros anos de sua vida, é “naturalmente” egoísta e tremendamente hedonista (prazer pelo prazer, sem porquês, sem medidas, sem limites).
            Como se já não bastasse toda esta força negativa da própria natureza humana da criança para baixo, vem se somando, desde os anos 70, uma outra carga negativa que é a força do meio em que toda a criança vive. É já lugar-comum afirmar a força que exercem hoje os meios de comunicação – TV, outdoors, internet, filmes, músicas etc. – nas escolhas dos jovens e adolescentes.

A primazia dos sentimentos



            Se fizéssemos uma exploração e rastreamento histórico-filosóficos – aqui daremos somente umas breves pinceladas - desde a idade média até ao início do século XX, com muita facilidade conseguiríamos ir percebendo que o domínio da inteligência e/ou da vontade sempre foram se revezando na primazia – numas épocas o grande “valor” social eram ora as conquistas e as guerras ora as grandes descobertas; ora o heroísmo do além-mar ora o mundo das idéias - mas nunca se deixaram perder ou rebaixar pelo mundo dos sentimentos e dos afetos. No início do século passado, influenciados tanto por alguns filósofos que, reagindo a tanto racionalismo e cientificismo humano, “lançaram no mercado” a supremacia dos sentimentos, quanto por um rápido desenvolvimento tecnológico, que oferece ao mundo conforto e prazer jamais imaginados pelos nossos antepassados, a sociedade se “vendeu” ao prazer... Durante todos estes anos, esta idolatria foi crescendo e ganhando espaço e, nos dias atuais – com a revolução tecnológica que permitiu a globalização -,  parece que estamos chegando perto do seu ápice...
            O fato é que esta força social é a grande motivação de muitos pais para trabalharem 12 horas por dia e se matarem irracionalmente para ganhar muito dinheiro que permita, primeiro “ter” para curtir a vida e poder mostrar para os outros que “têm”; e depois, oferecer aos filhos aquilo que a sociedade dita que é felicidade. É a grande responsável para que os pais poupem sofrimento aos filhos, custe o que custar, ao invés de lhes ensinar - aos pouquinhos - como enfrentar o sofrimento e dar-lhes um sentido na hora da dor. É o que está movendo o adolescente a fazer de tudo para se “sentir” feliz de forma errada e nociva.
            Na figura 2, podemos observar o que acontece quando a força negativa da natureza da criança se soma a essa força social dominante nos dias de hoje. Qualquer pai ou mãe que analise com profundidade as conseqüências nocivas que  gera essa resultante de forças, só pode e deve ficar, de fato, bastante preocupado. Perceberá que muitas delas se identificarão com algumas das “chagas” sociais que tanto se comentam atualmente nas reportagens dos jornais e, quem sabe, se encontram em sua própria família ou na escola.
            Uma criança que identifica felicidade com prazer, com o tempo, facilmente se tornará um consumista e materialista: só se “sentirá feliz” se puder ir ao shopping todos os fins de semana e comprar a 20ª calça para a festa da amiguinha; terá vergonha de ir ao colégio se o pai não tiver o carro do ano; fará de “tudo”, se precisar, para conseguir ter mais dinheiro...
            Uma criança que é educada na dinâmica do sentimentalismo – fazer só o que se gosta e fugir de tudo o que custa – será, em primeiro lugar, uma pessoa fraca de vontade: não terá capacidade de alcançar os ideais altos que exigem muita garra e fortaleza e será um inconstante infeliz; não conseguindo conquistar esses ideais e sendo “discriminado” pela vida, com muita probabilidade se tornará uma pessoa depressiva – já a chamam a doença do século XXI! – e imatura, porque não consegue vaga na faculdade, no mercado de trabalho, não é feliz no namoro, não tem alegria na vida... Para quem se encontra num estado interior assim, passar para a violência é um pulinho. A violência da classe média é, na maioria das vezes, reflexo da própria fraqueza e da falta de amor que encontra na sua família, na escola, nos amigos. Nas classes menos privilegiadas, além desses desajustes, existem fatores de complexo de inferioridades, falta de esperança, e de puro abandono. Acho que já conseguimos responder agora às indagações do início deste artigo.
Uma pessoa fraca, depressiva e violenta - queira ou não queira – se tornará uma pessoa solitária, sem amigos e sem amores.... Fica fácil entender agora por que muitos jovens hoje se escondem – se alienam, se refugiam – nas drogas e nas mais diversas modalidades do sexo? Por que parecem “bichos do mato”? Quantos estudiosos deste tema não trabalham estas raízes mais profundas do ser humano e ficam apenas na metade do caminho...
Por mais alarmista que possa parecer este artigo, é uma pena que tenha que reconhecer que, como consultor educacional e com experiência de mais de 28 anos na área educacional, esta seja uma realidade muito próxima. Em todos os exemplos anteriores, poderia citar nomes e sobrenomes de inúmeros casos iguais ou semelhantes.

 Mostrar onde está a verdadeira felicidade


O que fica fácil concluir, no fim deste artigo, é que é necessário e urgente investirmos pesado na educação dos nossos jovens. Que é preciso mostrar-lhes que a felicidade não está no prazer desvairado e irracional, mas no prazer certo, no lugar certo, na medida certa e com a finalidade certa. Que para isso é preciso aprender, desde cedo, a dizer “não” a muitos desejos e impulsos. Que quando são bem explicados os porquês dos “não”, eles não só não traumatizam – como já se disse muito por aí – mas os libertam, e no fundo se está dizendo “sim” para a verdadeira felicidade, para a verdadeira realização, para os verdadeiros amores.
Que não é muito inteligente buscar um prazer imediato, irrefletido e animal, que conduza depois a tanta tristeza, depressão e fossa que duram, às vezes, uns períodos longos, ou até a vida toda.
            Está na hora, como mostram as figura 3, de se investir intensamente nas alegrias da inteligência, dos valores humanos, da descoberta do sentido da vida, da cultura, das convicções firmes. Como também chegou o momento de resgatar o papel fundamental que tem, no equilíbrio das paixões e na harmonia dos sentimentos, a conquista da vontade, - confira figura 4 - do amor real e da verdadeira amizade.
Somente assim será possível darmos às nossas crianças capacidade de enfrentar e superar toda a pressão interna e externa que sofrem todos os dias; e dar-lhes a possibilidade de vislumbrar horizontes mais humanos.




                                                                                  João Malheiro
                                                                Doutor em Educação pela 









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