ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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A TUTORIA NA ESCOLA: UMA MANIFESTAÇÃO DO VERDADEIRO ZELO EDUCATIVO

                                              
                                             O conhecimento antropológico sobre a pessoa humana, nos dias que correm, encontra-se bastante débil. Consequentemente, muitas pessoas, tanto nas famílias quanto nas escolas, não sabem já o que é educar realmente o ser humano. Existe como que uma cegueira que impossibilita descobrir e valorizar um dos principais objetivos educativos do momento: o desenvolvimento e integração das potências humanas – inteligência, vontade e afetividade – para uma ação correta da criança.  Essas potências se encontram hoje nelas completamente soltas, independentes, atrofiadas ou hipertrofiadas e uma grande maioria dos educadores não sabe que uma das suas principais missões é voltar a juntá-las e harmonizá-las. Quando isso não acontece, provoca-se o que eu chamo de um “desmonte” da pessoa humana. Hoje busca-se educar não mais a verdadeira e única natureza humana, mas uma nova natureza, “não humana”, criada pelo homem pós-moderno, que leva a valorizar de forma excessiva a parte afetiva. O fracasso educativo se comprova, depois, na imensa maioria das pessoas nos dias atuais.

           A solução que propomos, em ritmo de “emergência educativa”, para enfrentar essa grave crise, talvez para muitos ainda inconsciente, é oferecer para as escolas um Projeto de tutoria que de alguma maneira tente suprir as lacunas que hoje os alunos apresentam no ambiente escolar. Qualquer professor que enfrenta várias salas de aula, desde a educação infantil até ao último ano do ensino médio, vivencia um aluno cada vez mais imaturo para a série/ano, muitos apresentam um quadro de desinteresse, desligamento, desconcentração ou ainda, o que é pior, de fraca aprendizagem. Estão sem qualquer perspectiva futura. Não aprenderam a estudar, a se organizar, a se esforçar, a ser proativos. Está mais do que comprovado, nos inúmeros estudos acadêmicos que existem sobre essa temática, que este triste quadro, na sua grande maioria das vezes, está associado à família desse alunado que não sabe priorizar esse acompanhamento escolar, que não sabe fazê-lo, porque não teve essa mesma experiência quando foi estudante (se é que foi), ou ainda, porque realmente tem atitudes mais de indiferença do que compromisso educativo. Antigamente, quando aconteciam esses desajustes escolares, o colégio chamava a família, procuravam encontrar alternativas que ambas assumiam de comum acordo, havia o que eu chamo de zelo educativo. Infelizmente, isto se foi perdendo nas últimas décadas, e a saída para essa situação lamentável foi um enfraquecimento educacional em quase todos os âmbitos. As escolas foram se adaptando ao fraco alunado e diminuindo a exigência, a dedicação e o próprio papel de educadoras. Os objetivos se tornaram imediatistas, materialistas – conseguir a aprovação nos diversos exames de seleção universitários almejando no futuro somente um bom emprego – e mercantilistas. Instala-se um processo de enganação educativo, onde pais, professores e alunos vivem num disfarçado conluio.

            Por outro lado, tem escolas que não se entregam à pressão do mercado. Arregaçam as mangas e tentam reagir. Oferecem a tutoria na escola. O mais interessante é perceber que os alunos gostam dela. De alguma maneira, aquela natureza humana que estava “adormecida” – talvez nunca tenha sido acordada desde que nasceu – desperta e sente uma nova sensação de esperança. Experimenta um frescor de humanidade. Começa a perceber que pode ser capaz de mudar o quadro negro que vê todos os dias quando vai para a escola. Novas luzes começam a brilhar e sua autoestima começa a aumentar. Agradece sinceramente ao tutor aquelas orientações e no começo realmente se esforça por colocá-las em prática. Depois desanima, porque não é fácil perseverar num esforço que nunca se aprendeu a realizar. Mas, depois de um período de pessimismo, tenta recomeçar. Se o tutor consegue realmente ganhar sua confiança e amizade, por elas consegue superar essa fase e avança. Os resultados são quase sempre positivos na tutoria. Este é o grande trunfo que os tutores têm na mão. Com esse trabalho tutorial perseverante, o aluno começa a aprender a se organizar, a fazer um horário de estudo, a colocar umas metas semanais e mensais de tempo de estudo, aprende a resumir uma leitura, a fazer exercícios das disciplinas de exatas, a fazer amigos, a vencer a timidez. Aprende, no fundo, a valorizar as capacidades socioemocionais. Os resultados escolares começam a aparecer rapidamente e a motivarão a crescer. O sentido de responsabilidade vai se consolidando.
Diante do que foi dito acima, a instituição de ensino que promover um Projeto de tutoria, pelo menos no seu começo, terá que contar com uma certa dose de paciência para convencer os pais, os professores e os próprios alunos da necessidade desta novidade educativa. Muitos, no início, a confundirão com o reforço escolar, com aula particular, com aconselhamento de autoajuda, com a monitoria de estudos.
            A fim de driblar essas dificuldades de comunicação, é muito aconselhado que se promova uma apresentação rápida para os pais sobre esta temática, talvez aproveitando uma reunião no colégio, a fim de expor suas vantagens. Outra estratégia, alinhada com a anterior, será colocar no site do colégio o que se faz na tutoria, quem são os tutores, depoimentos de outros pais e alunos, testemunhando seus avanços e melhoras. Os professores também têm que ser convencidos nas reuniões pedagógicas de suas vantagens, de maneira que também possam estimular seus alunos a buscarem esse recurso de veras eficaz. Por fim, a comunicação dos próprios tutores em sala de aula e nos corredores da escola também se demonstrou muito eficaz, principalmente no início de cada semestre, colocando cartazes nos corredores da escola, espalhando folhetos explicativos, entre outras estratégias.

            Concluindo, diria que, sem dúvida, a melhor propaganda em todas as escolas que foram implantadas esta modalidade educativa de vanguarda é o “boca a boca” dos alunos que perceberam melhoras em si mesmos. Quando eles encontram mestres que de verdade demonstram verdadeira amizade, respeito, carinho, interesse, zelo educativo, então comunicam rapidamente aos demais colegas e estes a outros. 

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